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por Raul Moreira

 

Bombardeado por notícias desconfiáveis, não apenas pelas redes sociais, que informam ao mesmo tempo em que desinformam, dentro da lógica da pós-verdade, como também pela imprensa, que abdicou do preceito de informar com imparcialidade, o brasileiro vem sofrendo uma espécie de lavagem cerebral digna de um filme de ficção científica.

Diante da situação e guardando as devidas proporções, é impossível não pensar em Fahrenheit 451 (1966), do francês François Truffaut. No filme, um clássico que foge aos ditames da Nouvelle Vague, um determinado regime totalitário, em um futuro hipotético, proíbe e queima livros, alegando que a leitura e a compressão das coisas do mundo tornam as pessoas infelizes e improdutivas, ao mesmo tempo em que a televisão é a fonte de informações.

Saltando para a nossa dura realidade e fazendo alusão ao título Fahrenheit 451, que é a medida da temperatura da queima do papel, que equivale a 233 graus célsius, não seria exagero afirmar que o cérebro do brasileiro está sofrendo uma espécie de incineração.

Sobre o tema, aliás, vale lembrar que o filme de Truffaut é uma adaptação do romance homônimo do norte-americano Ray Bradbury, publicado pela primeira vez em 1953, justamente para denunciar o poder da então emergente televisão em minar o interesse pelos livros.

Como muitas vezes a vida imita a arte, no país em que a leitura de livros passa longe e a televisão é a “menina dos olhos”, agora ao lado da febre pelo virtual, pesquisa recente aponta que apenas 8% dos brasileiros em idade de trabalhar são capazes de se expressar por meio de letras e números. Os demais, dentro de tal contingente, são enquadrados como analfabetos informais, nos seus mais variados graus.

Tais números, assustadores, refletem não apenas uma falha grave na aplicação das políticas educacionais, desde sempre, mas algo inconcebível: em um país de mais de 200 milhões de habitantes e com um Produto Interno Bruto (PIB) de primeiro mundo, poucos são aqueles que são capazes de compreender, enfim, de entender minimamente as razões pelas quais.

Notadamente, esse não é um fenômeno que atinge apenas países como o Brasil, que ostenta indicadores sociais díspares. Na milenar Itália, por exemplo, com sua população de pouco mais de 60 milhões de habitantes e ostentando um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado, mais de 55% da população adulta é incapaz de  compreender com exatidão um texto com 800 caracteres.

O curioso é que boa parte dos italianos pesquisados completou o ensino médio e muitos cursaram faculdades.   No entanto, a ausência de leitura ao longo da vida, uma vez que a televisão e, agora, a internet, muito mal utilizada, por sinal, se fazem dominantes, contribuem para o déficit cognitivo, seja nas questões subjetivas ou objetivas.

Mais: dentro do âmbito da pesquisa, ainda foi revelada uma questão importante: boa parte dos moradores da península não é capaz de entender objetivamente o que lhes é ofertado oralmente pela televisão. O mesmo acontece no Brasil, onde a maioria é bombardeada por informações de todos os tipos, muitas das quais desconfiáveis quanto ao conteúdo e às intenções.

Pesquisas à parte, o mundo ensina que, quanto maior a ignorância, maior a pretensão, pois, o sábio, mesmo, diz nada saber, como deixou a entender o filósofo Sócrates. Talvez daí venha à irritação do saudoso escritor e semiólogo italiano Umberto Eco, ao afirmar que “as redes socais davam voz a uma legião de imbecis, convictos e eloquentes”, palavras proferidas em 2015, um ano antes da terminologia pós-verdade ganhar corpo ao apontar que a mentira divulgada em continuação na internet faz parte dos expedientes da nova realidade.

Sim, apesar de o desabafo parecer um pouco áspero, Eco não deixa de ter razão, a julgar pelo que se enxerga nestas plagas tropicais. Verdade seja dita, as batalhas travadas nas redes sociais, além de relevar a truculência dos incautos, fizeram ressuscitar um sujeito que parecia morto: o analfabeto político do dramaturgo Bertold Brecht, muito citado pela esquerda brasileira nos anos 1970 e 1980 do século passado para designar aqueles que se faziam omissos diante dos descalabros do regime militar.

Porque, em tempos de discussões a respeito de mudanças nas regras da Previdência Social e das leis do trabalho, entre outras reformas importantes, as quais vão impactar as próximas gerações, é impossível não ser “rococó” e invocar Brecht, segundo quem “o analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política”.

Então, vêm à cabeça os personagens de Fahrenheit 451, portadores de uma alienação patológica, até que um dos bombeiros responsáveis por incinerar livros, vivido por Oskar Werner, os descobre na sua magia e por eles se apaixona, tornando-se o herói de uma ficção que, ironia da sorte, se faz cada vez mais real nas suas simbologias.

Por fim, Brecht surge novamente e, cá, no desespero da impotência da hora, o invocamos para bradar: “Triste de um povo que ainda precisa de heróis”.

 

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