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Adalberto Meireles entrevista Pola Ribeiro

 

O cineasta e produtor Pola Ribeiro, ex-diretor do Irdeb – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, é o novo secretário do Audiovisual, convidado pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira. Assume no lugar de João Batista da Silva, que substituía interinamente Leopoldo Nunes. Ele tem o realinhamento, o diálogo e a sinergia como palavras de ordem. Pretende trabalhar em parceria com a Agência Nacional do Cinema – Ancine e cita o Centro Técnico Audiovisual – CTAV e a Cinemateca Brasileira. A produção cinematográfica, a formação, a TV pública, os festivais de cinema são temas abordados nesta entrevista  em que o diretor de filmes como Jardim das Folhas Sagradas e A Lenda do Pai Inácio fala, em relação à escassez de público para o cinema brasileiro, que, além de indicadores de mercado, é preciso ter indicadores de qualidade. “Que o filme e a reflexão sobre o filme cheguem a mais pontos. Como é debatido em escolas, como chega nos grupos, nos guetos, nas comunidades, como os territórios conseguem se aproximar dos filmes”, diz.

 

Pola Ribeiro:”Precisamos computar o impacto real dos filmes “

 

Quais são suas metas como secretário do Audiovisual?

Eu na verdade ainda estou tomando pé, conversando, mas a meta principal é  fazer um realinhamento da Secretaria do Audiovisual, das forças, digamos assim, um realinhamento com a politica do audiovisual, com a Ancine, que durante esses anos cresceu bastante e a Secretaria do Audiovisual perdeu a estrutura. Então, nós estamos conversando, felizmente a gente tem um relacionamento muito bom com a Ancine e o Juca [Ferreira, ministro da Cultura] tem um conhecimento muito grande dessa necessidade. Então, é uma coisa de  reformular o CTAV [no Rio de Janeiro], que tem possibilidade de atendimento nacional, dar mais agilidade às ações da Cinemateca [Cinemateca Brasileira – São Paulo] para torná-la mais nacional, no sentido da memória, de um maior relacionamento com os estados para poder dar conta também da memória dos estados. E junto com a Ancine, esta questão da formação da capacitação, dos recursos que são da Ancine e precisam ser irradiados para a Secretaria do Audiovisual, para que a gente possa dar conta de uma política nacional mais ampla.

Dados divulgados pela Ancine indicam que o público de filmes brasileiros caiu em 2014 [19 milhões], em relação a 2013 [cerca de 28 milhões]. Como tentar resolver essa escassez?

A grande preocupação do mercado do cinema brasileiro é uma atribuição mais da Ancine. Agora, o recheio cultural que o mercado precisa, essa é uma ação maior da Secretaria do Audiovisual, o complementar, incrementar mais formação, mais espaço para crítica, para o pensamento, para a linguagem. Esse é um espaço que é o território específico da Sav. A gente precisa, isso foi muito pontuado pelo ministro, além de indicadores de mercado, ter indicadores que são mais sutis, de qualidade. Quer dizer, não é o estado que vai dizer o que é qualidade ou o que não é qualidade, mas a gente precisa criar mediações e espaços para que a crítica seja mais disseminada, a formação seja mais disseminada. Não a formação só para a produção, mas a formação no sentido do olhar crítico. Que o filme e a reflexão sobre os filmes cheguem a mais pontos, o que na verdade não computa apenas o ingresso vendido, mas o impacto real que tem na sociedade. Como esse filme é debatido em escolas, como chega nos grupos, nos guetos, nas comunidades.

Você acha que isso passa também pela cota de tela, que chegou ao cinema, à TV fechada e passa às escolas?

Essas  ações popularizam esse pensamento crítico, universalizam esse pensamento crítico. A gente tem que contar com os críticos, com as pessoas que fazem resenha, as pessoas que fazem comentário de cinema, indicativos,  trabalhar com essas pessoas no sentido também de ampliar o olhar e aí essa articulação junto com o Ministério da Educação, com essas possibilidades todas, a gente vai chegando.  A gente tem que viabilizar, retomar a Programadora Brasil, que estava parada, que de alguma forma é a maneira de o conteúdo chegar a mas lugares, mesmo que não seja por compra de ingresso.

A cota está cumprindo a função de levar maior público ao cinema?

Eu acho que ela cumpre. Quando a gente não tem mecanismos para que a coisa funcione normalmente.  Ela está remediando, a gente precisa desenvolver estruturas que  reorganizem  o sistema. E  aí a cota é importante, tem problemas também. Por exemplo, você diz quantas vezes o filme tem que passar, mas não diz quantas vezes o trailer tem que passar.  E o filme que passa sem trailer, o trailer que passa na semana anterior ao filme não leva ninguém. A pesquisa diz que o espectador vai uma vez por mês, então, ele vê um  trailer hoje, na outra semana ele não deve ir ao cinema, ele só vai ao cinema no outro mês. Então o trailer tem que entrar também na cota de tela.

O número de festivais tem aumentado. Há hoje um circuito de festivais, o que é muito interessante. Mas os filmes acabam restritos a esse circuito.

O número crescente de festivais é positivo. Está precisando é ter  uma reorganização na estrutura dos festivais.  Tem festivais que são indicativos da produção, que têm que se definir mais, não dá para ter festival de tudo. Já que tem muitos, eles precisam ganhar pela sua especificidade. Eu estou querendo que venha o festival da crítica, o festival do trailer, o festival que discute a comunicação dos filmes na mídia. A maioria dos festivais tem iniciativa na sociedade. São parceiros  muito fortes que a gente precisa discutir, ampliar e aprofundar esse diálogo.

Com relação à exibição. Aparelhar as salas públicos de exibição.

 

Tem recursos  da Ancine, uma linha de financiamento direcionada para isso. Já tem  algumas salas que estão sendo reaparelhadas…

O produto filme é considerado um produto como outro qualquer e acaba burocratizando a aquisição para a exibição, como no caso da Sala Walter da Silveira, em Salvador.

Vejo o estado muito como o planejador das ações. No caso da Walter da Silveira, por exemplo, a gente vê muito da dificuldade da contratação das distribuidoras, do recebimento de recursos para operar. Tem que ser um trabalho junto com a sociedade, onde o estado tenha o poder de decisão, de orientador das ações que  estão sendo executadas, mas que a operação em si saia um pouco, porque o estado não é um bom operador na  ponta, não tem ferramenta para operar legal.

Com relação à TV pública, como será sua gestão?

A gente tem  muita atenção com a TV pública. É uma área bastante difícil de trabalhar porque é uma cultura com muitos traços vindos  do autoritarismo, da concentração, erros conceituais como televisão como grande produtora,  quando, na verdade, pela Constituição, a televisão é uma programadora e exibidora, não produtora de conteúdos. Quem produz os conteúdos é a sociedade e a TV programa e exibe, mas isso não passa direito na cabeça dos gestores das TVs públicas. E  é uma luta muito grande que a Ancine vem tendo e a gente vai trabalhar juntos com isso.

Os editais estão atingindo as suas metas? O que você pensa em relação a isso?

Eu estou descendo de paraquedas. Estou tomando pé agora, sou muito favorável aos editais, acho uma ferramenta de alcance universal, não acho que é a única ferramenta com que se tem de trabalhar, mas é muito forte, a gente tem de ir qualificando, tem muito pouco tempo de execução, a Ancine já diversificou bastante alguns processos, já tem coprodução com a América Latina em andamento, já tem o Doc TV retornando, que parou e é uma ferramenta fantástica de política publica.

Você foi diretor do Irdeb.  Agora assume a Sav. E o Pola cineasta, como fica?

De tanto trabalhar a construção de políticas públicas, eu fui me ajeitando na gestão, muito mais do que na produção.  O último longa-metragem que eu fiz [Jardim das Folhas Sagradas], eu levei 10 anos fazendo com estruturas precárias. Eu estou sendo importante para a gestão. Eu fiz mestrado em gestão pública, fui  me aperfeiçoando nessa área e o cinema foi ficando pequeno em relação à burocracia. Eu estou recuperando o prazer de filmar. Já que não posso participar de nenhum edital, eu estou tentando filmar com recursos próprios, com a ajuda de amigos, filmando coisas que me dão prazer e não preciso prestar conta. Nesse intervalo entre a campanha [Pola foi candidato a deputado estadual nas eleições de 2014] e assumir a Sav, estou  fazendo um documentário sobre os 40 anos do bloco Alvorada e  outro sobre as crianças baianas  adotadas na década de 80 por famílias italianas.

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