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e o livro preso na garganta

 

por André Luiz Oliveira

 

Em 1995, no encerramento do Festival do Cinema Brasileiro de Brasília quando o meu filme “Louco por Cinema” foi aclamado vencedor conquistando a maioria dos prêmios, vi concluida mais uma etapa da minha vida e resolvi escrever um livro contando a experiência da realização do filme. Durante dois meses me dediquei a essa tarefa com grande prazer e talvez por isso mesmo, para a minha surpresa, estendi-me demasiado. Descobri que “Louco por Cinema” alcançava toda a minha existência desde quando comecei a interessar-me por cinema na Bahia no final da década de sessenta e acabei, inevitavelmente, escrevendo uma autobiografia. Identificado com a mesma “síndrome do baú” (o mais importante é fazer…) vivida integralmente pelo meu mestre Fernando Pessoa, não pensei em publicar o livro assim como outros escritos, poemas, roteiros, etc… guardei-o (no baú) até chegar seu momento ou achar uma motivação justa, ou alguém que se interessasse em publicá-lo.

Entretanto a notícia do falecimento de Vito Diniz me tirou desta síndrome egoista e resolvi publicar o livro pelo simples fato de que doeu saber que ele passou para outro plano sem saber o que sempre guardei e senti a seu respeito; belas impressões e caros sentimentos nunca transmitidos por razões diversas.

Entre outros ensinamentos sutis que recebi durante os poucos anos que convivemos em momentos importantes da minha vida, antes mesmo de tornar-me profissional como diretor de cinema (1966-1968), Vito me abriu os olhos para enxergar a luz e o enquadramento que a prosaica realidade baiana nos oferecia a cada instante. Ensinou-me a olhar diferente e sentir a harmonia natural de cada coisa vista como se fosse através da câmera. Adolescente, começando a ver o mundo captando as suas imagens, aprendi muito com Vito. Fui seu assistente e carregador de tripé quando resolvemos fotografar interior de igrejas, ampliar fotos e vender para decoradores. Sob sua orientação comprei um velho ampliador Fuji de segunda mão e também comecei a fotografar. Mas logo vi que não era a minha. Eu gostava do movimento que o cinema oferecia e comecei a filmar em 16mm Olimpíadas, aniversários de família, etc. (Gaguinho talvez não lembre mas me ensinou algumas manhas com a sua Beaulieu de corda). Um pouco mais tarde Vito foi o meu orientador e principal consultor na fotografia e câmera de “Doce Amargo”, curta metragem que realizei em 1968, em parceria com José Umberto. Nunca mais esqueci da sua figura sensível, generosa, e guardo agradecido essa lembrança. Por isso, está difícil permanecer calado diante do seu desaparecimento e resolvi liberá-lo em minha memória, antecipando um dos trechos do livro inédito “ Louco por Cinema – arte é pouco para um coração ardente”, em que me refiro a ele. Capítulo II:

Amor ao Cinema: aprendendo a ver

“ Por volta do ano de 1967/68, aos dezoitos anos, comecei o cursos de cinema de Guido Araújo e do professor Walter da Silveira, patrono do cinema baiano. Foi através dele que tive a oportunidade de ver e ouvir a história do cinema mundial e ainda descobrir o meu amor pelo cinema brasileiro. No cine Guarany assistimos aos filmes de Goddard, Buñel, Fellini, Pasolini, Trufeau, Kurosawa e muitos outros, mas sobretudo Glauber. Mais adiante falarei de “Terra em Transe”, outro abalo sísmico em minha vida, semelhante a “ O Samba da Minha Terra” e “Alegria, Alegria”.

Nesse período Conheci Vito Diniz, fotógrafo recém-chegado da Itália, onde havia montado um estúdio fotográfico e faturado as atrizes mais deliciosas da época como Monica Viti, Virna Lisi e outras menos famosas. Ficamos amigos naquele mesmo instante no balcão da Loja Leão Rozemberg, na Carlos Gomes, onde todos comprávamos material fotográfico. Vito, alguns anos mais velho, foi bastante generoso abrindo-me seus arquivos e conhecimentos de fotografia e cinema com uma paciência e delicadeza surpreendentes. Em pouco tempo estávamos indo para Bom Jesus da Lapa, no São Francisco, sertão da Bahia, filmar um documentário jornalístico para Leão e eu fui como seu assistente, motorista e carregador de tripé. Aproveitei a ocasião e levei uma Pahillard Bolex, que meu pai havia recebido como pagamento de uma dívida, para Vito me ensinar como mexia naquela máquina meio complicada para mim. Ele me ensinou a carregar as lentes, carregar o filme, medir a luz com um velho Seconic e eu, metido, achava realmente que já sabia filmar, que já havia nascido sabendo enquadrar, pois comecei a inventar e filmar logo do meu jeito, com acãmera na mão, sob o olhar experiente e desconfiado de Vito. Foi a primeira vez que filmei com a senção de que estava fazendo alguma coisa importante. Filmei romeiros, que mais tarde colocaria no filme já citado “Doce Amargo”.

Vito Diniz transmitia um fascínio, um namoro pelo enquadramento, pela fotografia, pelo cinema, completamente desconhecido para mim. Um jeito terno, complacente, artístico e estético de enxergar a realidade sempre enquandrando, falando e tingindo a  tela com seu tom de voz suave, meio europeu, educado demais para o sol quente e rude do sertão da Bahia. Alguns anos mais tarde Vito Diniz faria a direção de fotografia de meu primeiro longa-metragem, Metorango Kid o Herói Intergalático. Sua participação como diretor de fotografia foi fundamental para o êxito nacional do filme.

Nunca mais trabalhei no filme e nos vimos muito pouco após essas experiências inesquecíveis na Bahia no final da década de sessenta, mas o considero um dos mais sensíveis e competentes profissionais do cinema brasileiro.”

A Bahia deve reconhecimento a Vito Diniz não só pela realização de inúmeros documentários importantes para a memória do estado, como também pela formação de muitos profissionais da cidade entre os quais eu me incluo. Em nome da Bahia – que Vito adotou como sua – e de seus amigos admiradores, sinceramente agradecemos.

– Obrigado Vito e viaje em paz!

 

2 Comentários...

  1. José Umberto disse:

    Vito, ói, trago aqui, no centro do peito, no coração, nas tripas e na alma. Pronto. Eis aí o que é gente-do-bem: a gente colhe o que planta.

  2. fabio rocha disse:

    excelente texto…

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