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por Marcos Pierry

 

O Panorama Internacional Coisa de Cinema finalizou a sua décima segunda edição com um visível racha ante o resultado da mostra competitiva baiana. Na proa de combate, não faltam questionamentos sobre os filmes premiados – o longa-metragem Perdido em Júpiter, de Deo, e o curta Obra Autorizada, dirigido por Iago Ribeiro. Mas o que provocou estranheza, perplexidade e protestos foi um comunicado do júri. No documento Pontos Centrais sobre a Competitiva Baiana, a comissão julgadora (Gabraz Sanna, cineasta; Salomão Santana, curador; e Andrea Capella, diretora de fotografia), mais que justificar a escolha dos filmes vencedores, observa lacunas e aponta caminhos para o conjunto do cinema baiano.

Em 20(!) linhas, o documento fala em “aprofundar questões” e sobre a “necessidade de maior apuro estético e narrativo”. Aciona o pisca-alerta: “No atual momento político, faz-se extremamente necessário que o cinema dialogue com as transformações refletidas nas micropolíticas identitárias, sobretudo as relacionadas às questões raciais e de gênero”. Constata a “naturalização de comportamentos machistas”. E convoca à luta por “políticas mais abrangentes de fomento que possibilitem uma maturação de cada um dos trabalhos”.

Desmedida, inadequada ou preconceituosa para uns. Insensível, mal informada e arrogante para outros. A pregação dos jurados, nenhum deles atuante na cena local, certamente pegou mal. Mas para quem exatamente? O júri patinou em seu rascunho de defesa por um virtual cinema de boas intenções, sem formular nada concreto enquanto proposição estética ou ao menos objetivamente se dirigir ao público informando o nome do pecador. (Ou antes: para quem, afinal, destina-se o documento?) Perdeu-se no esvaziado jogo de carapuças. Okay.

Por outro lado, a horda baiana (artistas, técnicos, cinéfilos, produtores, estudantes) mordeu a pequena isca e dela fez um tubarão sem tamanho, com graus de indignação que mal escondiam complexos e hormônios, sem articular uma grita que fizesse valer a pena o principal: cada filme, seus possíveis méritos e desvios. (Missão assumida – e, diga-se, cumprida – pela Mostra Rebobina Bahia, imediato e celebrado replay, na Sala Walter da Silveira, com novas projeções e debates sobre o que passou no Panorama.)

Entrópica, regressiva e difusa, a querela não se sustenta ante o incontestável sucesso do festival, que na tela, dentro ou fora de competição, fez acontecer pequenos milagres. Dezenas de títulos, lançamentos, mostras informativas, debates e homenagens com o que de melhor se produz e se produziu na Bahia e no mundo desde os anos 50.

Presenças luminosas, como Júlio Bressane, no animado debate depois da projeção de seu Beduíno, reiteravam na interlocução com a plateia aquilo que o próprio diretor brasileiro, expoente do cinema conceitual, e um de seus mestres, Jean-Luc Godard (de quem se apreciou Infelizmente para Mim e um segmento de Longe do Vietnã), costumam propor em seus filmes: a autonomia do discurso (= linguagem = arte) frente ao tema encenado. “Amor, humor”, recobram oswaldianamente os personagens de Alessandra Negrini e Fernando Eiras no, certeiro, primeiro diálogo de Beduíno.

Raridades de apreço, como a projeção em 35mm(!) de A Bela Intrigante, pautando o que deveria ser o grande tópico de discussão de todo o Panorama; e que, ao final, com o reconhecimento de Perdido em Júpiter, veio embutido, infelizmente sem reflexão ampliada: justamente a crise, contemporã-nérrima, entre o chamado cinema de mise-en-scène, do qual Jacques Rivette (1928-2016) fora praticante dos mais diletos, e o cinema de fluxo, ambiente em parece trafegar o trabalho do estreante Deo.

Rodas de conversa das mais agradáveis e produtivas, a exemplo do acerto de contas simpático, substancial e festivo durante o lançamento do livro 100 Melhores Filmes Brasileiros. Iniciativa da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), a publicação elenca, entre os 100-mais, clássicos baianos como Meteorango Kid, de André Luiz Oliveira, e SuperOutro, de Edgard Navarro. André infelizmente não estava lá. Mas o papo dos críticos Adalberto Meireles, Rafael Carvalho, Amanda Aouad, coautores do livro, com Navarro e a plateia redundou em informações preciosas, vide a conexão entre SuperOutro e A Construção da Morte, de Orlando Senna. Gilda (de) Abreu – que nos anos 40 dirigiu O Ébrio, maior bilheteria nacional de todos os tempos – infelizmente não está lá, na lista. Grave ausência pontuada durante o debate.

Além de SuperOutro, objeto de animada sessão seguida de comentários da equipe realizadora, houve a homenagem ao curta Mr. Abrakadabra, de José Araripe Jr., e a première de A Luta do Século, novo doc de Sérgio Machado, sobre a folclórica rivalidade entre os pugilistas Reginaldo Holyfield e Luciano Todo Duro. Houve mais: Xorume, A Noite Escura da Alma, Jonas e o Circo sem Lona, Gente Bonita. E Paulo Hermida a recobrar, com O Cinema Foi à Feira, importante momento do cinema nacional. Todos em longa-metragem, todos baianos; todos falando, de alguma forma, sobre opressão e repressão. Curtas da terra sobre os quais deveríamos falar mais, caso de O Mundo do Rio Não É o Mundo da Ponte.

Também tivemos Eryk e Marília Rocha, Gustavo Vinagre etc etc – esses de outros estados. O júri, porém, mesmo batendo fofo, provocou o clinch. E assim ficamos – meio todo-duro, meio holyfield – nas cordas. Enquanto Luciano e Reginaldo sorriam lá fora.

 

 

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