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LUMBRA CINEMATOGRÁFICA:

40 anos de um cinema efêmero

 

Por José Araripe Jr.

 

O cinema efêmero foi inventado recentemente por redes sociais como o Snap chat, talvez inspirado naquelas antigas gravações de filme de espionagem, quando após ouvir a mensagem, anunciava-se a auto destruição em segundos… No telefone das câmeras de vouerysmo e narcisismo do eu, do eus e my selfs, os filmetes instantâneos e biodegradáveis nasceram para permitir uma espécie de prazo de arrependimento. Filma-se a abobrinha, a inconfidência, a ameaça ou o nude, e envia-se, sabendo que ele se tornará volátil – ou ficará numa nuvem safada? Esse embrião de cinema efêmero pode ser evocado nos filmes de nitrato, aqueles que no idos da invenção do cinema sofriam de auto combustão. Pois, fiquem sabendo que a Lumbra Cinematográfica muitas vezes tratados como o grupo Lumbra ou Lumbráticos – já inventara nos idos de 1979 – um cinema tão efêmero que eu ia descrever agora, mas, me esqueci! Leitores, enquanto relembro, prossigo falando de um cineasta brasileiro do super 8 – artista plástico – admirado pelos lumbreiros Pola Ribeiro, Edgard Navarro, Fernando Belens, e o locutor que vos fala; era um tal de Paulo Bruscky lá de recife. A cada jornada do ICBA, esperávamos seus filmes; em um deles, desenha com a cabeça ligada em uma maquina de eletroencefalograma; noutro enfia a cara na maquina de Xerox – e foi este mesmo artista que soubemos havia ganho o salão Global do Recife – o nome do salão tinha a ver com a emissora onipotente – o cabra da peste pra lá de vanguardista montou uma fogueira de grande pedras de gelo daquelas do “olha, olha o gelo, olha o gelo”, que sobre refletores se derretiam belas e sublimes, ao olhar dos convidados da vernissage, até a condição de poça inodora, insipida e incolor. Eu inconscientemente me inspirei nele – saquei isso agora – quando levei à galeria Canizares uma tela com a modelo vivo pintada a oléo – com a orientação do mestre Réscalla – preparada como um alvo para ser furado por dardos – hoje seria vista como um obra efêmera misógina – mas sob esta ótica, penso: existe coisa mais machista que apenas modelos femininas pousando na Belas Artes?

Terminada a vernissage estava lá minha tela quase destruída pela centenas de arremessos do dardo: ao fim da primeira semana da exposição se desfez.

A Lenda do Pai Inácio

E assim caminhava a nossa lida de artista de filmes reversíveis – um filme super 8, era uma película única sem cópias – fadada a ser desintegrar pelo os arranhões do uso, e da própria montagem – diferente do 16mm ou do 35mm, montávamos o própria película que rodava dentro da máquina – o positivo – este viajava até São Paulo para revelar e voltava pra ser manuseado, cortado colado de tape durex especial e, novamente voltava pra São Paulo pra colar uma micro fita magnética no seu ladinho, para voltar e ganhar voz, som e outros ruídos, mixados no projetor. Foram mais de 20 filmes entre jornadas e festivais Brasil afora, onde nos tornamos os 4 cavaleiros do pré-calypso – uns enfant terribles – de perfil e militancias parecidas , mas também bem díspares. Dessa safra coletiva há momentos de participação integrada de todos, com filmes, que sobreviveram; pois não nasceram pra ser efêmeros, como Na Bahia ninguem fica em pé, que nos representa e representa o cinema da Bahia até hoje, presente inclusive na coletânea DVD dos 100 anos de nosso cinema – pra quem não sabe, um documentário sobre o cinema na Bahia filmado em Super 8 sonoro (já não precisavamos colar a banda magnética a posteriori.) Outros, porem nasceram pra ser eternos e sumiram – isso mesmo alguns filmes Super 8 da Lumbra e seus integrantes literalmente se perderam no vai e vem do cineclubismo ou no desleixo memorial que nos cerca. Entre eles o maravilhoso Filmemus Papa. No caldeirão dos sumidos por isso ou por aquilo, inclusive pelo mal do salitre soteropolitano estão filmes importantes do então experimental Fernando Belens. Ainda na lista de procura-se, o derradeiro e coletivo Me diz que eu sou seu tipo. Também o Ame-o ou deixe-o do agregado Lumbra, Jorge Felippi. Desse mesmo autor, padeceu de inercia o inacabado 35 mm, Vúlvula – que traz 7 atores no mesmo personagem e teve roteiro de Dinorath do Vale a escritora paulista premiada no Casa de Las américas em Cuba, e que era parceira do mais ilustre morador do morro da sereia. Perdido também o meu Lumiére, meu filho o que é que você está fazendo nesse quarto escuro? – um filme feito para mostrar que o cinema era uma grande brincadeira de simulacros de luz e luz. A bordo de uma camera Nikon R10 – uma poderosa super 8 – passei incontáveis horas criando chistes e trocadilhos óticos numa linha experimental que já havia frequentado e ganhado salões nacionais como Fiat Lux, Retina-Gatilhada e o Circuluminoso. Esse filho desaparecido que considero minha obra prima, ou pelo menos a prima da minha obra, ainda dói de esperança de ser achado. Ele , assim como o Eletros, O grande Monumento que será exibido nessa mostra programada para o aniversário do cineclube Walter da Silveira ficaram inéditos na transição fatídica do fim do super 8 – houve uma espécie de decretação de morte dessa categoria, paralelamente ao desarme da Embrafilme, uma coisa não teve exatamente a ver com a outra, mas foi a ascensão dos formatos de vídeo portátil que tirou o menor notável dos festivais. E agora quando Edgar dez anos mais velho que eu – somos quatros caçulas – com Fernando e Pola entre os dois, fez 68 – estamos sendo redescobertos enquanto Lumbra Cinematográfica mais uma vez.

Ainda que as homenagens careçam de maiores pesquisas e antologias filmográficas – nos sentimos importantes na proporção possível – e nos divertimos um outro tanto, – pois estivemos juntos e separados o tempo inteiro de nossa existência empresarial – digo a Lumbra do CNPJ, e da outra Lumbra apenas coletivo de amigos e parceiros, fazendo filmes e planos juntos, e se separando algumas vezes por desvios de caminhos e trajetórias, e até mesmo por encheção de saco ou conflitos ideológicos e de interesses profissionais. Mas, ninguem gosta de saber dessa parte e esse texto está sendo escrito para falar também de Porta de fogo, da Lenda do Pai Inacio e de Anil. Os primeiros curtas profissionais onde estamos Lumbra. Foram experiências que nos aproximou de uma fase mais adulta – quando estávamos financiados – com cachês simbólicos, ridículos ou inexistentes – mas os filmes tinham orçamento e seriam finalizados e exibidos nos circuitos das salas de cinemas. Porta de Fogo nos levou para um sertão real e biográfico de um mito guerrilheiro com o cadáver ainda quente. Fomos in loco – na cena do crime – sob a batuta de Edgard Navarro para contar o drama sem igual de um capitão do exercito desertor que ao se deparar com a morte se encontra com Lampião e Antonio Conselheiro e faz a transpassagem de forma espetacular. Esse filme percorreu salas e salas do Brasil no tempo em que havia a lei de projeção de curtas – o mercado compulsório (arg!) contando uma história que a ditadura ainda natimorta não queria que se comentasse. A lenda do Pai Inácio foi um fenômeno de distribuição; com certeza uma super produção que envolvia profissionais multidisciplinares e colocava Pola Ribeiro e Moisés Augusto na primeira parceria. Organicamente, quase macrobioticamente gestado no meio do mato e cachoeiras do paraíso redescoberto pelo turismo holístico, a história que dá origem ao nome do belo morro se transforma num sucesso de mobilização da comunidade, ganha semanas e semanas de exibição rentável no velho cinema da intratável Gilda Carvalho do Teatro Maria Bethania – que arrependida do acerto da divisão de renda – aborta a temporada do filme – que teria fôlego sem dúvida de permanecer mais semanas em mais sessões lotadas. E a lenda volta pros Lençóis e nas mãos de projecionistas locais roda, roda, roda em sessões para turistas durante anos a fio.

Imperfeitos, ou filmes de um cinema semiprofissional – com equipes diminutas – esses dois aprendizes de longa metragem sem dúvida nos deu régua e compasso para o desafio que viria: o Superoutro, média com poderes de longa que dispensa comentários – sucesso até hoje, e que estampa em seu primeiro fotograma um Lumbra Cinematografica apresenta: quer mais?

Anil

O terceiro filme da mostra, Anil – é sem dúvida o mais belo filme já realizado na Bahia; um poema semiótico e pós ótico de orações concretistas cosmogônicas e líricas que nos remete ao cinema de Dziga e ao que hoje se considera como o documentário de arte. Mais uma vez o morro da sereia que seria o sítio mágico da Lumbra – que pariu Fibra, Experiencia 1B, Oropa, Luanda e Bajia, Crianças de Mundo novo, Heteros, a Comédia, e a Mãe – do artífice de pedras marinhas, o Féu do Lú Floquet – se estabelece como a morada da sereia – o enclave cinematográfico que une céu, terra e gente comum da Bahia – desfazendo diásporas raciais e sexuais. Enfim sou obrigado como escriba contumaz das encomendas do Caderno de Cinema, a falar também de Eletros, o grande Monumento – o super 8 inédito do gênero de ficção científica – gestado como filme de um homem só e por muitos amigos de aluguel – é realizado num perspectiva de mais uma vez fazer um filme de colagens, de assaltos, sobressaltos e hiatos – onde uma tênue história se delinea – um tempo em que os roteiros eram quase rascunhos, quase poemas. O libelo contra todas as ditaduras e seus conoclastas, se materializa, mas nunca chega a estrear por motivos de doença – uma maldição que acometeu o ator principal na adolescência, acomete o diretor na semana de estréia – e esse com fome, sono, abandono e febre, não consegue entregar o filme na Jornada de Curtas de Guido – e apesar de constar no catálogo, levou WO. Somente quando Rubem Machado curador paulista monta a mostra Cinema Experimental do Super 8, para o Itau Cultural nos anos 2000, ele é telecinado e exibido. O exemplar que será mostrado na Walter – ao lado dos bem acabados outros três lumbrados, é um típico exemplar de super 8 carcomido pelo tempo do mofôdeu – mas como todo filme de ficção é revelador ao menos do quanto fomos jovens – atores e figurantes principalmente – e como nossa Salvador possui ângulos de futurismo precoce e retrô.

Ainda evocando a Lumbra, estão numa mostra paralelas também na Sala Walter, nossos primeiros longas. O 4s lumbras, ou drugs como nos chamávamos no íntimo – chegamos lá, na quimera do que um dia foi o topo, e que hoje já é commodites: fazer longas – as facilidades e os financiamentos já possibilitam a Bahia produzir uma dezena por ano. Alvíssaras! Eu me lembro, Esses Moços, O jardim das Folhas Sagradas e Pau Brasil são filmes de sucesso pelo menos entre a equipe e os amigos. Vítimas da crise de distribuição no Brasil são praticamente invisíveis para o grande público; e com exceção de Eu me lembro – que ganhou muitos prêmios – seguem esnobados pela gente que faz cinema na província – na terra do farinha pouca meu pirão primeiro – e também relegados a segundo pela critica nacional que mergulhadas em outras cinematografias de unidade mais clara como a pernambucana, mineira e cearense, prefere não enfrentar a complexidade do Estado/país – que é a Bahia, e consequentemente seu cinema mais narrativo e plural.

Ah!.. mais lembrei-me agora: o efêmero no cinema da Lumbra acontece em dois momentos: no Cinema sem nome quando usávamos sucata para montar filmes-jornais nos festivais – experimento happing – acontecido em Salvador e Recife; e no mais e mais cinema efêmero de todos, o cinema transcendental , onde filmávamos apenas com uma ideia na cabeça, um microfone de fio cortado e um melão madurinho na mão, como câmera , diretamente das ruas pro écran da cabeça – vc viram, não? Somente nós vimos.

Depois é claro dividíamos o melão, era um tempo em que descobríamos as frutas como extensão de uma vida saudável e utópica que nunca aconteceu.

 

 

2 Comentários...

  1. EDGARD NAVARRO disse:

    APROVEITO PRA CONGRATULAR-ME COM VOCÊ PELA PASSAGEM DE SEU 58° ANIVERSÁRIO, 7 DE JULHO – MESMO DIA QUE NASCEI LAMPIÃO, O REI DO CANGAÇO!

  2. EDGARD NAVARRO disse:

    BELEZA, ARARA! ASSINO EMBAIXO! BEIJO!

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