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por Josias Pires

 

Atendendo à solicitação de Jorge Alfredo debruço-me agora sobre a tarefa de escrever um texto de caráter pessoal sobre a experiência de fazer o filme documentário de longa metragem Cuíca de Santo Amaro, ainda para ser lançado este ano em Salvador.

A realização de um documentário, lembra o mestre Eduardo Coutinho, é operação bastante arriscada, pois você começa e não sabe onde vai exatamente chegar. É a forma vazia, segundo Geraldo Sarno. O filme muda a cada momento em que está sendo feito, desde a concepção, aos primeiros argumentos e roteiros até o último minuto estamos fazendo ajustes, é sempre uma obra inacabada. O filme que se pensa, que se projeta, que se filma, que se monta – cada um vai transformando o anterior.

Ao contrário das obras realizadas com pouca película – como sempre foram nossos filmes de periferia soteropolitana de terceiro mundo – em que quase tudo que foi filmado vai para a obra final, nestes tempos digitais temos a oportunidade de fazer, p. ex. longas entrevistas, tomadas diversas de uma mesma cena, de tal modo que a pesquisa vai sendo já a realização do filme.

Contudo, muitos problemas se impõem.

Como fazer um filme longa metragem sobre um personagem de quem temos pouquíssimas imagens? Alguns poucos minutos de imagens em movimento e algumas fotografias e ilustrações. Esta pobreza imagética nos impôs definitivamente o viés do personagem cronista social, Cuíca cronista da cidade da sua época. E daí fomos buscar os arquivos disponíveis com imagens da Cidade da Bahia de Todos os Santos das décadas de 1930, 40, 50 e 60 e cruzá-las com os assuntos trazidos pelo personagem.

Para isto fomos em busca, sobretudo, da obra e da atuaçao de Cuíca. Sentia firmemente que ali estava a principal matéria prima do filme. Era aquilo que podia trazer a possibilidade de encarnar o ponto de vista do personagem. A sua própria voz. A sua verve.  O que levou-nos a abandonar a ideia do painel de tipos populares, levantamos muitos antigos e atuais, Uma galeria, sobretudo Major Cosme de Farias, Jacaré, Rodolfo Coelho Cavalcanti, enfim…

Tenho acumulado no computador centenas de arquivos de textos, sons e imagens da pesquisa para o filme. A pesquisa tem material para outros produtos, como Extras de um DVD que estamos fazendo, e até mesmo para livros, ensaios, textos diversos, etc. Foram muitas trocas durante todo o período e isto tudo gera um patrimônio do qual o filme é apenas uma parte, uma possibilidade.

Selecionei as primeiras cartas que encontrei numa pesquisa rápida nos meus arquivos. A carta para a professora Jerusa Pires Ferreira refere-se ao seu amigo poeta solitário Carlos Cunha, muito debilitado da saúde naquela época, vindo a falecer ano passado, e com quem tive várias e longas conversas ao telefone sobre Cuíca de Santo Amaro, ele sempre indicando fontes e referências e sempre recusando a oportunidade do contato presencial para fazermos uma entrevista.

 

Carlos Cunha com Edilene Matos montaram o Núcleo de Cordel da Fundação Cultural do Estado e toda a pesquisa inicial foi sobre Cuíca de Santo Amaro. O pesquisador Mark Curran admite no seu livre sobre Cuíca que Carlos Cunha é uma espécie de co-autor intelectual do livro, tamanha a quantidade de informaçoes que ele passou para Curran. O poeta chegou a me confessar que Curran ficou hospedado em sua casa e passava horas e horas conversando com o gravador ligado.

A outra carta foi para Marise Berta, que viria a ser diretora de produçao numa segunda etapa de filmagens. Como se pode notar os assuntos coincidem pois estamos o tempo todo buscando consolidar a estrutura narrativa do filme, os sentidos fundamentais que conseguimos apreender do personagem e de como vamos preencher a forma vazia que é o documentário quando nele pensamos antes das filmagens.

Por fim uma nota do diário de campo sobre uma personagem que não entrevistamos devido aos problemas de saúde que estava passando … e que poderia trazer outra sequencia para o filme …

E assim trago para os eventuais leitores um pouco do calor da hora:

 

 

Olá Professora Jerusa, como vai?

Falei há pouco com Carlos Cunha – foi uma ótima surpresa.
Nos últimos meses tenho ligado pra ele todas as semanas, em vão.
Hoje ele atendeu. Passou um mês viajando e chegou exatamente hoje.

Foi uma ótima conversa. Senti que voltou melhor. Falou que o tempo é mágico.
De fato. Lembrei a ele que cinema é tempo, o tempo todo. Gostaria muito de
filmá-lo, na casa dele, na biblioteca e filmar uma pessoa procurando coisas
perdidas na sua biblioteca …

Fiquei motivado a compartilhar este momento com voce. Lembrei a ele, inclusive,
da sua passagem por Salvador há pouco tempo, enfim.

O filme é um túnel do/no tempo. O que parece ser um delicioso mergulho na memória,
na verdade, é um mergulho nas encruzilhadas, nos avessos de um tempo e de um personagem difícil de ser traduzido, personagem de muitas faces.

No livro A Grande Feira (Col. Documentos do Cinema Baiano, Orlando Senna) Glauber dá um depoimento e fala daquele filme [A Grande Feira] como uma  “crônica da província, tendo como juiz a moral do povo, configurada na mitológica figura de Cuíca de Santo Amaro”.

Frase que me fornece a chave e enquadra o nosso personagem exatamente na dimensão do maravilhoso, a dimensão mítica. Esta dimensão do mito está na cena de abertura do filme, enquanto Cuíca fala, ao fundo vemos um cartaz desenhado por Sinézio de um grande tubarão para o qual aponta Cuíca, acusando: os tubarões querem acabar com a feira. Para Glauber este é o tema central do filme: o povo oprimido pelos tubarões.

Glauber Rocha apontou a primeira dimensão mítica de Cuíca, a de defensor do povo, herói popular, sapecando a madeira nos marreteiros e embromadores do povo.

Mas como você aponta muito bem no seu depoimento para o nosso filme, esta é uma das personas de Cuíca.

A outra dimensão mítica que talvez possa ser apontada é a do personagem das encruzilhadas e das margens, dos temas interditos – que o aproxima dos arquétipos de Exu, Zé Pelintra e de outras divindades que desconheço. A dimensão picaresca, enfim.

Ainda em processo …

Abraço de
Josias Pires

 

 

 Carta para Marise Berta

 

No início do filme, Cuíca é um herói, defensor do povo, poeta do povo e da alma das ruas, ridicularizando os nazi-fascistas e os tubarões. Um performer corajoso, o mais lido de todos os poetas, segundo Jorge Amado.. Com a ajuda dos desenhos de Sinézio Alves, ele ronca nos pontos de maior afluência sua poesia folhetinesca. Atrai as atenções, vende os “livrinhos de histórias” e apura as novidades para as próximas edição – no mínimo um novo livro a cada semana.

Em seguida contamos a história do indivíduo e do personagem. Suas primeiras temáticas. A iniciação no mundo do cordel e da vida. Falamos dos tipos de rua da velha Bahia e mostramos tipos populares de hoje.

Na terceira parte revelamos os métodos/modos de atuação de um trovador propagandista que nada mais são do que os métodos tradicionais da extorsão jornalística, que existem até hoje, e cujo grande exemplo da sua época foi Assis Chateaubriand. Com uma diferença: Cuíca assumia a chantagem como um método natural, afinal, ele dizia, se todos tiravam o seu, ele também queria a sua parte. Pois tinha de dar comida aos seus “inchadinhos”. E mais do que isto: ele não escondia ter recebido a “granolina”, ao contrário, anunciava nos versos e nas contracapas. (Há ótimos exemplos).

Buscamos a variedade dos temas, a graça dos títulos e das contracapas. Os desenhos de Sinézio. A história de Sinézio, Cuíca e Cosme de Farias, Jacaré.

Na última parte Cuíca é uma estrela: no cinema, no teatro, na literatura, no jornalismo. É herói e anti-herói. Ou é malandro, O Tal? O macunaíma da poesia popular, como disse Orígenes Lessa?

Epílogo: reverberações: grubacim e o festival de super-8 de tipos populares, o nome de Cuíca de Santo Amaro foi dado a um dos prêmios. Foi nome de rua no shopping center iguatemi – depois o seu nome foi retirado. Por que? Os livros sobre ele, inclusive o do norte-americano Mark Curran. reportagens escritas nas últimas décadas, entrevistas com a viúva, os livros de Edilene, o núcleo de cordel da fundação cultural, etc.

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Dona Heloísa – Foi comadre de Maria do Carmo (esposa de Cuíca). Tem 76 anos (nasceu em 05 de junho de 1932, em Penedo, Alagoas). Morou na avenida Garcia [onde Cuíca sempre morou] a partir de 1957/58. Vários filhos dela nasceram lá, o primeiro deles em 1958. Contou que no Natal Cuíca reunia os meninos todos e dava presentes. Quando foi lançado a televisão, ele comprou um aparelho e chamava os meninos para assistirem TV na sua casa. (ainda não conversamos sobre a morte de Cuíca, o neto do poeta, Alisson, me disse que ela acompanhou Cuíca pelos hospitais até ele morrer). Ela está paralítica e tem diabetes. Ficamos de voltar a nos falar e fazer uma visita.

 

19 Comentários...

  1. […] http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-de-santo-amaro/ Leia texto de Josias Pires sobre o filme http://cadernodecinema.com.br/blog/o-vies-do-personagem/ Veja entrevista dos diretores do filme ao programa da TVE Bahia Soteropolis […]

  2. Angelica Maria da Silva disse:

    Josias,
    Quando eu e Jônatas íamos visitar o Prof. José Raimundo Cândido,em Santo Amaro, antes de 2009, ele nos falava muito sobre Cuíca de Santo Amaro. Certamente o que ele ouvira dos seus pais e vizinhos. Ele foi contemporâneo de Jônatas no curso de Letras da UFBA. Certamente, se Jônatas estivesse vivo iria para a estréia desse maravilhoso documentário conosco. De lá onde ele está participará dessa estréia. A Bahial ganhou uma valiosa contribuição para o seu acervo cultural.
    Um abraço.

  3. Bernard Attal disse:

    Fascinante a descricao do processo de construcao desse documentario. Agora quero muito assistir…

  4. Angelica Maria da silva disse:

    Josias, Parabéns. Esse é o documentário que nos faltava! Nós baianos precisamos conhecer quem foi Cuica de Santo Amaro. Interessante você falar sobre os tipos de rua da velha Bahia. Onde é a Av.. Garcia onde morou D. Heloisa? Onde encontrar o livro de Mark Curran? Um abraço.

  5. Ana Magalhães disse:

    Josias,

    Muito bom viajar no “fazer como” do cinema. É um processo rico e que transforma não só os que trabalham NO filme, mas os que trabalham O filme e, naturalmente, os que se deliciarão nas viagens das falas, dos sons e das imagens. Sucesso!

  6. Ernani Franklin disse:

    Mandou bem Josias!
    Vamu butar est(e)a Cuíca prá roncar!
    Sucesso e cuidado com os tubarões…
    EF

  7. edilene matos disse:

    Caro Josias.

    É sempre muito bom revisitar Cuíca. Parabéns pela matéria rica e plena de sensibilidade.
    Estou ansiosa para ver o filme e procurarei fazê-lo quando estiver de volta ao Brasil.
    Fica meu abraço,

    Edilene Matos

    • Josias Pires disse:

      Carissima Edilene, biógrafa de Cuíca de Santo Amaro, que nos emprestou valiosa colaboração, sou imensamente grato pela sua gentileza e disponibilidade! Estamos preparando um DVD com o filme e Extras e, assim que ficar pronto, vc certamente será uma das primeiras pessoas a receber uma cópia. Grande abraço.

  8. Betão disse:

    Josias, desde que você iniciou a pesquisa sobre Cuíca, falava com tanta emoção do personagem, que um sentimento sobre o filme me persegue a partir de então: não vi e já gostei! Sucesso para o filme e grande abraço, Betão.

  9. alba liberato disse:

    Boa matéria esta de Josias. Um documentarista amoroso, passando ensinamentos sobre documentario com o dom do sentimento, alem do conhecimento tecnico. Uma qualidade necessária nesta terra onde nas ruas pulsa o coração do seu povo. Apesar do “progresso” e seus donos crueis. Parabens Josias, não vi o filme mas primeira oportunidade estou lá. Alba

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