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“Eu não quero ser totalmente legível; o bonito é suspeito. O bonito é a morte. Eu quero que falem de mim em 2015, 3015.” São palavras de Caetano Veloso. Ele estava revoltado com os conselhos dados por membros de sua equipe de produção para que não usasse mais o velho pierrô desbotado de muitos carnavais. Aquilo era demais pra Caetano, um homem puro, odara.

Depois de providenciar que trouxessem do Rio «Lo Crudo y lo Cozido» (c. lévi strauss) que esquecera na sua mesa de cabeceira, Caetano começou o papo com a gente – eu, Antonio Risério e Péricles Cavalcanti. Um papo muito louco. Sincronias, contracultura, caretice, pretos & mulatos, mercado de discos, homossexualismo & androginia, o gay e o hippie, macrobiótica e penicilina. “Tá todo mundo por aí vestido de homossexual novayorkino. O sujeito fica fazendo macrobiótica, mas tem a hora da penicilina. É claro que eu não estou dizendo que isso aconteça com todo mundo. mas, socialmente, está havendo uma penicilina.”

Um papo relax registrado por um gravador que guarda as nuances do pensamento do maior poeta brasileiro de quase todos os tempos.

Jorge Alfredo

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Diário de São Paulo
domingo, 29 de abril de 1979
entrevista com Caetano Veloso

 

Odara – eu quero é mais!

Jorge Alfredo – Cae, sempre há uma sincronia muito grande entre o que você faz, o que GiI faz, o que Gal faz. Com essa nova direção que os trabalhos dos três estão tomando, como é que você se situa no lance?

Caetano Veloso – Eu continuo sempre me achando sincronizado com eles, embora sempre pinte essa coisa da independência, quer dizer, cada um tem uma personalidade diferente, e Gil é uma pessoa que sempre tem sido para mim como que o meu oposto; uma pessoa em que tudo é ao contrario de mim, por isso que a gente se encontra. Eu tenho impressão que, de uma certa forma, eu ter saído pra cantar num país da América do Sul, e Gil ter ido cantar no maior país da América do Norte, é apenas a confirmação disso. Além do mais, eu acho Gil um grande musico. Porque tem essas tensões… (Caetano interrompe o papo pra olhar um brinco que fizeram pra substituir o brinco com que ele se apresentou na estréia do show em São Paulo – e que foi roubado por uma fã afoita.) Gil, pra minha cabeça, tem uma total liderança musical, porque ele é um grande musico e eu não me considero um grande músico, nem a Gal, como uma pessoa que domine a linguagem musical como Gil domina. E eu acho que a Gal, no momento, está fazendo, quer dizer na verdade, estamos num momento de reafirmação entendeu? Isso tá acontecendo com a gente. E Gal tá representando isso, essa coisa profissional, mais que todos nós. Ela está desempenhando esse papel mais nitidamente do que eu e Gil, mas tá acontecendo com os três, eu acho, de modo que eu me sinto sincronizado. Gal tá fazendo show que é muito bom, que tá fazendo um sucesso enorme, e que é um show de afirmação da inevitabilidade da profissionalização do canto, de Gal no Brasil. Eu acho que eu, Gil e Gal estamos mais afirmados no gosto público do Brasil, agora do que estávamos há cinco anos atrás.

Antonio Risério – Tem essa coisa sincronizada. A coisa da África foi fundamental pro trabalho seu e de Gil, uma coisa que já vinha com o disco do Recôncavo, que é Araçá Azul, o mulato democrático do litoral, e vem até Beleza Pura.

Caetano – É, o mulato democrático do litoral, isso sou eu. O Gil é mais reconhecível como um preto. Ele é mulato pro preto. Eu sou mulato pro branco.

Risério – Isso tem uma coincidência mais ampla no Brasil, a coisa das colônias se tornarem independentes na África, mesmo no plano mais intelectual, tem o livro de Juana Elbein, Os Nagô e a Morte, tem o lado mais político, de Abdias Nascimento, e tem o Refavela. A coisa africana repercutiu generalizadamente.

Caetano – É. O Refavela, que corresponde ao Bicho, né?, que também é uma coisa com esse assunto do preto. Eu acho que é uma coisa de liga com dentro da gente e com a transa genial dos pretos, mas não é muito nitidamente conveniente. Eu pensei muitas coisas na época do «Bicho» que, embora não tivesse sido pensado planejadamente, coincidiu ser a banda «Black Rio». Aí teve aquela discussão toda, e eu tinha ido à África no meio da gravação do long-play onde já tinha Odara, e já era um disco que eu queria que fosse assim. Eu fui à África e isso se intensificou. Teve também muita conversa com Zé Agripino, que tinha voltado da África uns anos antes. E tinha aquelas coisas que ele falava, coisas que me interessavam. Então aquilo foi saindo naturalmente, aí teve aquela onda de discutir Black-Rio, aí pensei um bocado, porque me senti chamado pra polemizar e pensei muito. O Gil é preto, Gil é preto. Agora, eu penso o Gil como um preto único no Brasil, porque ele tem o mesmo compromisso com a idéia de ser preto que o Jorge Ben tem, mas com uma responsabilidade intelectual sofisticada, que não é um problema do Jorge Ben. E muitas vezes dificulta a transação das pessoas com o Gil, de uma determinada área da cabeça das pessoas, um jeito de perceber dificulta não só do lado dessas pessoas, mas também do lado do Gil. Também o Gil às vezes não chega lá, fica difícil. Mas eu acho ele uma pessoa capital na transação brasileira. Por ser esse preto único. Um preto muito especial.

Risério – Um problema que, de certa forma, é o dos pretos intelectuais, universitários, mas também ligados a terreiro de candomblé.

Caetano – Sim, claro, mas é outra coisa, porque eu tô falando das grandes figuras públicas brasileiras. 0 Gil… (Caetano interrompe pra atender o telefone).

Jorge – Está havendo, atualmente, uma transação no mercado, por diversos motivos, uma coisa das pessoas terem de tomar uma decisão, de definir, de se definir dentro do mercado, porque o mercado de discos no Brasil, está recebendo injeção nova; estão acontecendo coisas novas na carreira de vocês, e eu sei você tem uma coisa muito forte de pensamento em relação a isso; o modo de como atuar…

Caetano – Eu tenho muita intuição, mas não penso muito. Eu só penso quando é preciso, quando tenho de resolver um problema, quando me aborreço com alguma coisa, quando me preocupo; aí minha cabeça dispara. A sincronia de eu, Gil e Gal permanece na minha cabeça; quer dizer, o novo modo como se configura o mercado de discos no Brasil é apenas um dado da realidade que muda, e com o qual esta nossa sincronia tem de transar. Uma das coisas que pode acontecer com essa sincronia é ela desaparecer; o que também não é mal. Mas por enquanto não vejo isso; vejo que a resposta aos novos estímulos é uma resposta de algo sincrônico, entendeu? Se você preferir usar essa palavra, por que eu acho que é uma coisa assim mais harmônica. A coisa se equilibra; eu, Gil e Gal. Mesmo que hoje o mercado brasileiro seja mais especializante, tendente à especialização, com áreas mais demarcadas, de quem gosta de quem, quem compra o que…

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Jorge – Eu falei de você, de Gal e de Gil, Eu não falei de Bethânia. Porque não falei de Bethânia?

Caetano – Bethânia tá fora, é uma carreira separada.

Jorge – Sim, mas há uma identidade.

Caetano – Mas não na carreira. Bethânia sempre fez questão de dar um ritmo próprio à carreira dela. Eu, Gil e Gal somos independentes, mas a gente tem, deixa transparecer e gosta, um certo tom de grupo. Há um grupo em nós três, de que Bethânia não participa. Embora ela tenha sugerido o lance dos Novos Bárbaros, talvez exatamente por isso, exatamente por estar de fora. Porque o que faz Bethânia ficar de fora é o fato dela não ter participado do tropicalismo, que foi o que nos uniu. Ela participou, mas subterraneamente, não publicamente. Ela não foi do movimento. Gil, Gal e eu fomos, nós lideramos esse movimento. E isso uniu a gente, foi uma coisa que a gente fez junto. E a gente não tem razão nenhuma para dizer que um não tem nada a ver com o outro. Eu tenho a ver com Gal e com Gil, e eles comigo. A gente é unido, mas eu me sinto totalmente independente; tem coisas que Gil faz, e de repente, eu não gosto. E tem coisas que eu faço que pode não interessar a eles. Agora, eu vejo hoje no Brasil uma tendência à demarcação dos públicos, e isso é o resultado do amadurecimento do mercado brasileiro, de poder anteceder uma coisa que era difícil no Brasil, que é a convivência de várias pessoas fortes, importantes, de permitir uma variedade de liderança, entendeu? Antigamente não tinha espaço pra todo mundo, por causa da pobreza do país. Ficava aquela coisa de se aparecer alguém… Caetano ou Chico. Um ou outro desaparece. E você tem que decidir, porque não tem lugar pra todo mundo. Isso acabou. Aí tem uma variedade, tem a roupa do tipo de gente que vai ver Rita Lee, tem o cabelo de quem vai ver show que Gal tá dando.

Risério – Até os falares variam.

Caetano – É… mas uma coisa que continua, a despeito de tudo isso, pra mim, como pra Gil e Gal, é que a gente tem uma capacidade grande de ter uma transa geral mesmo com as que não estão especificamente interessadas em cada um de nós. A gente interessa a todo mundo. Um cara bem hippie falará; “Gal era uma pessoa hippie, uma pessoa minha, mas agora tá careta.” Mas a verdade é que Gal não deixa de ser um assunto desse cara. E o espetáculo dela, no fim você vê que é um espetáculo que chega exatamente ao que Gal significa. Pro mundo, entendeu? Aquilo é o que ela realmente é, de fato.

Risério – Para o público hippie nova geração, o lance é Baby Consuelo.

Caetano – E Pepeu, um bocado, no Rio é mais o Pepeu do que a Baby, eu achei. mas aí também tem uma questão real. As pessoas que tinham 18 anos quando Gal tinha, agora têm 33, e o mundo não é mais hippie. 0 mundo tá careta. Gal é verdadeira. Ela andava nas Dunas do Barato, com umas roupas hippie, mas hoje em dia ela não anda mais assim. É uma coisa que já vem assim há algum tempo.

Risério – Seu público aqui em São Paulo, na estréia, era muito jovem.

Caetano – E muito bonito.

Jorge – O lance hippie muda, acaba, mas tem a coisa que não se altera; ganha novos fluidos.

Caetano: Mas também a Gal, vou lhe dizer; o show da Gal é muito lindo, é Gal, principalmente a segunda parte, Gal normal, e é Gal muito bem, num show bem feito, bem transado, e quando chega no final é deslumbrantemente Gal…

Péricles Cavalcanti: Em qualquer show.

Caetano: É, qualquer show. E o público também, gente que vai ao teatro ver temporada, a garotada não é grande, não sustenta uma temporada. Mas mesmo assim tem uma garotada que vai ao show de Gal várias vezes seguidas. E quem vai gosta.  E Fa-tal, quando eu vi, eu achei, não sei, as pessoas no Brasil, às vezes acompanham as coisas de uma maneira equivocada; porque quando Gal fez Fa-Tal, eu tinha chegado de Londres, achei bonito o show, mas achei que ela parecia uma modelo elegante, grã-fina, desfilando no palco; nada hippie. Era uma coisa chic, com postura grã-fina. E esse show agora “Gal Tropical”… O negócio de Fa-tal tinha um amparo hippie, né? Mas a meus olhos, era uma coisa elegante, marcada demais. Uma coisa, que se comparada a um show dos Rolling Stones, era completamente fina, comportada, desenhada. Nesse show agora, não. No final há momentos mais desbundados do que em Fa-tal; uma Gal mais desbundada do que em Fa-tal.

Risério – Curioso, eu nunca pensei assim. Fa-tal, para mim, na época, tinha todo aquele astral, aquela coisa extra show… Há, no plano das idéias, uma reemergência de tudo, mas que ainda não se espalhou. As coisas de esquerda, de contratura, tudo voltando, mas realmente não há uma coisa hippie no país

Caetano – Mas, para mim, eu vinha de Londres…

Jorge – Fa-tal teve uma coisa toda de ser um acontecimento, aquele barato, onde você via as pessoas, encontrava todo mundo; tinha esse lance…

Caetano – Eu também acho gostoso Gal Tropical; já vi quatro vezes, e é gostoso, alegre, todo mundo ali pra ver uma coisa bonita, e é sempre mais do que a gente espera. Vai muita gente jóia. Não é uma época assim hippie, não é.

Risério – Há, no plano das idéias, uma reemergência de tudo, mas que ainda não se espalhou. As coisas de esquerda, de contracultura, tudo voltando, mas realmente não há uma coisa hippie no país.

Caetano – No mundo, né’? A gente importa moda, importa cultura. Então acontece que, agora, em Nova York, Hair vai voltar, mas com outras conotações, tudo… Não sei, essas coisas têm uma respiração natural. A onda, agora, em Nova York, é mais careta, todo mundo cortou o cabelo. Eu tava lendo no Time dessa semana e o cara lá fala que esses filmes agora sobre o Vietnã, Hollywood ainda não tinha tocado no Vietnã, a não ser aquele filme do Jonh Wayne, que poderia ter sido filmado pelo Westmoreland, e falava da Jane Fonda premiada, e dizia uma coisa assim do Vietnã ter sido um trauma, Hollywood ainda não tinha tocado no assunto, Arthur Penn dizia que isso era impossível, essas coisas. Não vi nenhum dos filmes, não tenho nada com isso, mas a piada é que o sujeito do Time diz que, na época a do Vietnã, tinha passeatas, pacifismo, hippies, John Lennon, Bob Dylan, coisas que, segundo o cara, davam a impressão de estar um século distantes da gente. Quando eu estive em Nova York, estavam filmando Hair, até já filmaram e o filme tá fazendo o maior sucesso. Dizem que é melhor que a peça, a maior onda. Mas quando eu tava lá aparecia na televisão eles chamando as pessoas pra ser figurantes, falando pra todo mundo se lembrar de como se vestia, de quando era hippie, e ir assim pro Central Park. Eu achava engraçado, e os programas humorísticos ficavam gozando. A moda agora é disco, que, na verdade, eu tinha visto num artigo no Vilage Voice e vi agora no Time, é uma coisa gay. Toda a moda atual é gay. Isso é engraçado. Uma moda que, aparentemente, é bem careta, em relação à moda hippie, mas toda moda de bossa que tem agora no mundo, camisa «adidas», macho man, é gay. É tudo inventado pelos homossexuais de Nova York.

Risério – Macho Man é uma bandeira

Caetano – Tudo que tem de moda no mundo, agora, essa coisa de barzinho lady serventis, com luzinhas, discotheque, a disco music, é totalmente dominada pelos homossexuais. Todas as roupas d’agora, milhões de coisas, tudo que apareceu, essa coisa urbana, é tudo homossexual; tudo criado pelos homossexuais de Nova York; tudo que todo o mundo está usando e acha legal, é homossexual novayorkino. Punk não virou moda. Punk é mentira; eu tô completamente de acordo com o Village Voice. Como moda, uma coisa espontânea que todo mundo tá afim, é mentira. Punk é borra dos hippies. Eu e Péricles, a gente via, embaixo do viaduto de Portobello, quando a gente morava em Londres, um tipo de hippie que era punk verdadeiro e continua até hoje. É uma coisa, né? – é bacana, tem informação, é uma coisa londrina. Mas isso não virou moda. E a gente importa essas coisas, tá entendendo Tá todo mundo por aí vestido de homossexual novayorkquino. (risos)  é bacana!

Risério – Mesmo a volta do pessoal mais da liderança da contracultura no Brasil está totalmente diferente; Mautner, Maciel… Maciel tem uma mudança perceptível, mas sutil.

Caetano – Eu não li o livro dele, A Morte Organizada. Você leu?

Risério – Li. É uma coletânea de artigos publicados em jornal, não é uma coisa nova.

Caetano – Agora, a gente tava falando por um lado, como moda, como onda de comportamento.

Risério – E tem coisas mais profundas.

Caetano – Pois é, porque tá sempre em jogo a própria existência da espécie humana sobre a Terra. Aí a barra pesa, tem problemas que, na vida de um indivíduo, não dá nem tempo de abordar direito. Pense, por exemplo, no Jorge Mautner; Você lê os livros dele, ouve as músicas, e vai vendo como ele vai vivendo a vida dele, como ele está pensando, como está resolvendo o lance da existência, de uma certa maneira, quer dizer; se é hippie, se não é, esse negócio da moda fica muito superficial. Tem problemas que nem em cinquenta anos você consegue pensar direito.

Risério – No Brasil, a contracultura teve um significado, né? Pelo menos três coisas fundamentais. Essa coisa que já existia num nível mais intelectual, de antropologia – mas aconteceu uma virada prática contra o etnocentrismo – a coisa do Oriente – cultura desprezadas pelo mundo Ocidental. Teve também, o lance de uma revitalização geral em todos os ramos da arte. E teve a coisa mais importante, que foi o contato, a troca de vivências e experiências, entre setores da juventude classe-média e setores da juventude das classes baixas; e daí vem muita coisa, mesmo Black Rio, o movimento negro.

Caetano – O astral da época. E tem a coisa pessoal, o encontro em minha história pessoal, com aquela época, não sei se é porque a gente sofre mais quando é jovem, não sei, eu me sinto melhor, hoje. Mas não que eu ache que é tudo melhor; não está não; eu é que estou melhor. Eu gosto mais hoje daquela época do que eu gostava de qualquer coisa naquela época.

Risério – Seu ritmo pessoal não é assim sincronizado com o ritmo social.

Caetano – Claro, então fica uma coisa difícil pra mim; eu não tenho saudade, não tenho saudade nenhuma.

Risério – Só se for a saudade da primeira parte de “Que nem giló

Caetano – É, tipo aquela, lembro só por lembrar; tipo assim… Mas eu me sinto igual. Eu sou um pouco hippie.

Jorge – Pra mim é isso; você vive aquilo, não muda nada, não é uma moda apenas.

Caetano– Claro! É uma coisa a mais. Uma coisa profunda.

Péricles – A gente fica com as descobertas, com as coisas dessas épocas quentes. A gente incorpora.

Caetano – Aí, é que é bom, porque na hora é pouco dramático. Agora eu acho tranqüilo e quero mais. Eu quero é mais! Eu me sinto igual, eu entrei nessa trip. O ritmo social sincronizava com os meus sonhos pessoais, mas por acaso, nessa altura, eu não me sentia tão felizmente esse acontecimento quanto eu considero hoje. Eu sempre fui mais pra hippie, sabe como é, antes e depois. Mas é também que na época, eu não fui hippie total, eu fui o que eu sou, e ali havia muitas coincidências comigo, e eu continuo assim. Eu acho legal essa coisa atual gay, mas eu acho que isso é um problema objetivo, não é uma coisa, ; eu me identifico mais como hippie. Porque, agora, o negócio é o de você ter uma sexualidade tal e exercê-la normalmente na sociedade, Tudo bem, eu sou a fovaor da Anistia também, entendeu? Mas minha transa é outra. Aquele universo ambíguo da sexualidade dos anos 60, eu me identifico mais; um problema quase pré sexual que é muito ligado à indefinição da adolescência, mas também ligado à idéia de superação da limitação da divisão dos sexos. Tem um sonho irrealista que tem muito a ver com minha cabeça. A visão dos Beatles, de Mick Jagger, de Bob Dylan, essa visão andrógina, eu me sinto assim, eu sou gente desse tipo. Uma coisa ambígua. Meu barato não é uma questão de conquistar espaço para a vida prática homossesual, tá entendendo? E o que tem hoje em dia é isso, e tudo bem, eu concordo, mas é outro mundo. E é particularmente engraçada essa conotação homossexual da moda atual. (RISOS) É verdade, embora não pareça; porque a visão do homem dos anos 60 era mais ambígua quanto à definição sexual.

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Péricles – Naquela época, a sexualidade, a sensualidade, era uma coisa que ficava no ar. Era mais sensual

Risério – Inclusive com componentes místicas, a coisa do andrógino

Caetano – Era místico. E agora é uma brecada realista, pragmática, saturday night, naquela época não era.

Risério – Era wednesday morning

Caetano – Tanto fazia, ninguém ia pra universidade, ninguém trabalhava, ninguém queria estar adaptado à sociedade; queria era o paradise now. Agora não, e é isso mesmo, eu acho legal, tem que respirar. Mas, de todo modo, tem aí uma frustação que permanece por causa da vontade que a gente tem de ver o Ocidente se superar. É uma dificuldade de suportar a idéia de que nunca acontece, nunca o Ocidente passa pra uma outra coisa. Você fala em volta anti-etnocêntrica, transar outras religiões orientais, comida oriental, índios, culturas diferentes…

Risério – Mas, tudo é absorvido no plano da cultura

Caetano – É, mas não acontece realmente, né? Na verdade, as pessoas fazem macrobiótica, outros entram pro Hare Krishna. Mas isso também é uma transação do Ocidente, e você vê nisso uma confirmação do Ocidente, e depois tem uma respiração natural, essas coisas ficam no seu lugar, você volta a ser bem urbano, ocidental, corta o cabelo e ai vai lutar pelos direitos civis das lésbicas gordas. (risos ). E, tem um grupo que cuida das lésbicas gordas.

Péricles – É ótimo!

Caetano – É um barato, democracia é isso, tem em todos os EUA, e eu acho legal, é uma penicilina. 0 sujeito diz: bom, mas agora é a hora da penicilina; 0 sujeito fica fazendo macrobiótica, mas tem a hora que toma uma penicilina. É claro que eu não tô dizendo que isso aconteça com todo mundo, mas, socialmente, tá havendo uma penicilina.

Risério – Curiosa é a mistura de tudo.

Jorge – Penicilina… é ótimo . (risos)

Risério – Eu tava em Porto Seguro, na rua Pero Campos Tourinho, que era donatário da Capitania, nessa rua, lá em cima da parte velha da cidade, tem a igreja e, de junto, a loja de artesanato Tapuia, índios trabalhando do lado da igreja como queriam os jesuítas, (risos) e de junto tinha uma casinha que vendia sucos, A Tenda, que era de um cara europeu, louro, casado com uma mulata baiana, black, com um filho, um mulato louro, pequeno, tocando uma flautinha de madeira, chamado Krishna. É uma mistura louca, um curto-circuito antropológico.

Caetano – É, é fantástico, isso é super- sincretismo total. Legal. Bonito esse panorama.

Risério – E em Porto Seguro, que foi onde Cabral chegou.

Caetano – Claro!

Risério – Uma aula de História do Brasil.

Caetano – Sincrônica.

(A conversa gira em torno de Rogério Duarte, porque Telma, mulher de Rogério, está telefonando para o hotel. Dedé chama Caetano. Está na hora dele ir pro Teatro)

Caetano – Que mais querem saber?

Jorge – Adorei o papo

Caetano – 0 nosso?

Jorge – É.

Caetano – Que bom, eu gostei também, foi muito louco, muito louco.

 

2 Comentários...

  1. […] Odara – eu quero é mais! […]

  2. Tadeu Bahia disse:

    Um texto poetico e historico para ser lido e relido sempre!

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