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, não necessariamente 

CIDADE BAIXA

                                                                                      

 

por Oscar Santana

 

Sou da cidade baixa. Viajei muito, quando criança, no vapor de Cachoeira, aquele que nas cantigas de roda, “não navega mais no mar.”

Viajei também nos saveiros do recôncavo que transportavam riquezas naturais e produzidas para alimentar o corpo e a alma do povo da Bahia, no dizer do homem do interior, ao se referir aos habitantes da cidade do Salvador. Saveiros que transportavam beleza, no vai e vem constante de suas velas enfunadas, rompendo espaços, nos corredores de vento que a natureza poucas vezes negou ao saveirista. Corpos nus, expostos ao sol de todo dia, se revezavam no manejo do leme ou de suas velas, de pano quase branco.

Mas nem tudo são flores, nos corredores de água doce que o Rio Paraguaçu ainda hoje percorre para se derramar na Baia de Todos os Santos. Por eles viajavam também: alegrias, tristezas, sonhos, saudades, paixões desenfreadas, embarcadiços sem futuro e almas ainda donzelas de experiência, mas atrevidas de realismo concreto. Mesmo diante deste presente da natureza que são as belezas da Baia de Todos os Santos, o ser humano se perde e se encontra nas mais estranhas das aventuras. Parece que o espelho brasileiro, ultimamente, só reflete a tragédia. Parece que no Brasil do século XXI o otimismo é um pecado mortal.

Foi aí que Sérgio Machado ancorou seu barco, no cais vibrante dos seus personagens, no arrojo de suas juventudes. Foi aí, nesse mar de encontros e desencontros, onde a felicidade e a tragédia se fazem mistura, que Machado provocou risos e tristezas, através do encanto e desencanto de seus personagens de Cidade Baixa, o filme.

Ele termina por insinuar que o pecado mora ali, e, primordialmente, não mora. Enfatiza que ao lado da pobreza, esconde a tristeza – a tragédia mais pura em busca do sonho americano para a donzela brasileira. Mas enfatiza também que o amor, felizmente, singular ou plural, ainda continua sendo o mais sublime dos sentimentos, seja no mar, no ar que respiramos na rampa do Mercado Modelo ou nos prostíbulos da vida.

Certa vez, o cineasta WoodAllen filosofou genialmente, ao afirmar em A Rosa Púrpura do Cairo, “Só os atores se machucam, os personagens jamais”. Wood estava certo, mas esqueceu de incluir neste universo conflituoso que os cineastas também se machucam, não no corpo nem sempre atlético de operários da arte, mas na alma, quando se arriscam e se entregam, de corpo e alma no mais apaixonado dos desafios, fazer um filme; principalmente num país como o nosso, perversamente repleto de mazelas sedutoras.

Felizmente, Cidade Baixa não é um filme sobre a cidade baixa, é um filme na cidade baixa. Dos seus personagens brotam os amores, o sexo, as atitudes e os palavrões que viajam tão imprudentemente por aí, e que, se não saem do céu de nossas bocas, saem, ao menos, da efervescência desvairada de nossas emoções mais inconformadas.

E tenho quase certeza: um dia Sérgio Machado voltará com sua câmera, fechada, intimista, competente, sedutora, soturna aos largos espaços visuais e humanos da Cidade Baixa. E, por certo, vai ter um outro encontro. Desta vez festivo e até incestuoso com as virtudes do lugar. E fará outro filme tão bom quanto este, focalizando, no entanto, as virtudes de uma gente quase sem pecados. Um filme mais otimista, de louvor à beleza do lugar e de sua gente que também mora ali, bem ali. Ali na Cidade Baixa.

 

foto de Cristian Cravo

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