caderno-de-cinema

Home » Artigos » Oropa, França e Bahia

 

 

Radostné Vanoce, Guido!

 

 

Por Paulo Gil Soares

Publicão original; 16/12/1959 no jornal Estado da Bahia

Guido 7 (1)

Radostné Vanoce! –  é o desejo que vem de Praga para mim! É  Guido Araujo um bahiano de Castro Alves, que me deseja Feliz Natal! desde Praga, a cidade dos seus estudos, a cidade onde o cinema se torna, dia a dia, uma realidade maior para ele. O cartão é simples e tem figuras de bonecos num campo de neve, o avòzinho, barbudo de neve seus pêlos, carrega uma serra, e seu netinho um rabo de pinheiro que será àrvore. O cartão custou cinqüenta hellers de Coroa, o que vem a ser cinco cruzeiros (aproximadamente) e neste gastar ainda acrescentando de mais uma coroa e sessenta (uns dezeseis cruzas) vem as suas notícias.

Guido Araujo começou a fazer cinema em maneira romântica de cineclube estudantil; foi quando encontrou Nelson Pereira dos Santos, que sonhava realizar Rio, Quarenta Graus. O sonho foi se fazendo grande, e já amadurecido, ganhou a dimensão de realidade, e a equipe enriquecida de outros elementos subiu o morro para a tentativa do cinema. E neste dia o cinema nacional, esta pobre coisa sofrida, levantou do seu engatinhar e saiu andando por aí feito gente.

A batalha em locações era difícil e apresentava, ela mesma fora da fantasia do filme, seus momentos de aventura, e não está esquecido o dia em que em plena filmagem a policia subiu o morro catando malandros perigosos. A policia tinha metralhadoras e os meninos do morro não eram menos vivos que os policiais. Terminou tudo em paz. A equipe de Nelson Pereira dos Santos havia ganho novos “atores” e “técnicos”  que “trabalhavam”  durante o tempo de policia no morro. Depois foram novos amigos ganhos  e muito malandro autêntico posou para a objetiva que tentava mostrar ao mundo inteiro que também o morro tinha o seu valor.

foto(2)

Não se comia nada durante as filmagens, uma vez ou outra alguns sanduíches apareciam e desapareciam. À noite, quando se chegava em casa tinha um prato de macarrão amigo à espera de cada um. Macarrão é comida barata e somente ele consegue engordar os  que trabalham sério pelo cinema nacional. O macarrão engorda e a turma estava toda bonita e rosada. Mas nisto tudo ia alguns pulmões protestando calado; era pulmão também herói de cinema brasileiro, pulmão pioneiro e ficou calado esperando que as filmagens terminassem. E quando o Brasil todo cantava a letra do samba de Zé Kéti, que marcava a lembrança do filme, quando todo o Brasil pelos seus estudantes, operários e intelectuais protestavam contra a obscenidade da Censura do coronel Menezes Cortez que havia prendido no Rio o filme, neste dia o pulmão estourou. E Guido veio heroizado para o descanso de seis meses na terrinha bahiana. E daqui ficou meio choroso olhando de longe com os olhos compridos de menino de castigo, a realização de Rio Zona Norte  – que assistimos juntos uma noite em Praga com o nome estranho de “Severní Predmestí Rio” – é  “O Grande Momento”  – o regime do sol, muito sol, carne seca com pirão de leite, fez a cura completa e lá se foi o querido amigo levar para o Festival Cinematográfico de Karlovy Vary, estação balneária tcheca, o filme que tinha a cor e os nomes dos malandros que fazem a vida da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E ganhou a bolsa que está cumprindo em Praga.

guido e gabriel

Voltamos a encontrar-nos em Viena. E de lá fizemos juntos a Hungria, a Tchecoslováquia, a Alemanha e voltamos para Praga onde me deixou na estação no dia em que eu fui fazer a grande aventura de Paris.

Agora ele chega neste cartão de cinqüenta hellers; “continuo apavorado com a língua tcheca e o frio que está de rachar. A saúde vai bem e o amor também. Não fala que estou com uma aventura amorosa que já dura três meses. (Não, não sabia amigo Guido; mas também não mandou dizer nada, ora esta!). Em janeiro, começarei a freqüentar as aulas da Faculdade da Cinematográfica e trabalhar nos Estúdios Barandov. (Ficando cobra, heim?) Ando me virando para arranjar dinheiro pois quero ir para as montanhas passar o inverno com a amada. Já virei até professor de português ensinando a um grupo de funcionários  do Ministério da Relações Exteriores. E termina mandando um abraço.

Captura de Tela 2014-12-09 às 06.19.11

set de “Rio, 40º Graus, filme inaugural do Cinema Novo

Guido, junte-se a turma toda com o Flávio, Ieda,  junte-se aos amigos tchecos Pavel, Mireki, Jiri, as duas Danas (como a Franciscova). Um beijo para ela, e recebam todos juntos na mais antiga tradição tcheca, um Feliz Natal!  Assim em tcheco; Radostné Vanoce! E o abraço de saudade. E a promessa talvez certa de próximo encontro, muito mais breve do que todos vocês esperam. Mande gelar umas garrafas de vinho lá no Deminka.

 

 

 

2 Comentários...

  1. PIERRY disse:

    Belo achado, bela prospecção. Estimula o exercício de pensar sobre o que podem as redes de relações, as determinações biográficas e seus rebatimentos em toda uma experiência cultural que virtualmente se forma a partir disso. Além do gratuito, e delicioso, sabor do texto enquanto crônica.

Deixe um comentário