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por Guido Araujo

 

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Realizar um filme sobre a festa de São João sempre foi um sonho acalentado por mim, durante muitos e muitos anos. Como filho do sertão baiano, desde cedo sentia no São João a mais bela, espontânea e prazerosa das nossas festividades populares. Por mais que procurasse, não encontrava um filme que retratasse os folguedos juninos que eu amava e conhecia na minha  terra natal.

O único cineasta que já havia enfocado um pouco a temporada das festas de São João foi Humberto Mauro, porém, de uma maneira muito superficial, mesmo porque os festejos juninos em Minas Gerais sempre tiveram um caráter bem diferente da magnitude popular do que acontece na região nordestina com o embalo das músicas de Luiz Gonzaga.

Analisando a situação, cheguei à conclusão de que o pouco interesse dos cineastas em retratar a festa de São João era em virtude das dificuldades circunstanciais. Afinal de contas, tratava-se de uma festividade que acontece sobretudo na região rural durante uma noite, num período frio e chuvoso, com o agravante de que, qualquer contratempo poderia arrecadar o prejuízo de adiar as filmagens para o ano seguinte.

Deixei de lado todos esses fantasmas que para mim não chegavam a ser um obstáculo e procurei transformar o meu sonho em realidade.

Em meados dos anos setenta do século passado, elaborei o projeto do filme e aproveitando as condições propícias do calendário no ano de 1977, que jogaria os dias 23 e 24 de junho na proximidade do fim de semana, percebi que iria contar com um espaço de tempo para registrar as manifestações festivas em mais de uma cidade do interior baiano.

Desde que comecei a pensar rodar um filme sobre a festa de São João, sempre tive em mente encontrar um local onde a festa preservasse as características que se impregnaram no meu subconsciente desde a infância e juventude. Após uma pesquisa de campo, encontrei em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, os folguedos juninos mais próximos da atmosfera acolhedora das fogueiras, fogos de artifícios, iguarias, luzes e músicas, que eu guardava na memória.

As filmagens tiveram início em 22 de junho de 1977, na Feira do Porto em Cachoeira, que me interessava muito pela sua plasticidade. Já o São João cachoeirense tinha descartado, pois já estava descaracterizado com a presença da exploração turística.

Dormimos em Cachoeira e cedo, no dia seguinte, partimos para Maragogipe onde começamos a filmar ainda pelo manhã. Os preparativos da festa e a noite festiva com suas inúmeras fogueiras, fazendo a alegria do povo e sobretudo da criançada, filmamos até altas horas.

No dia 24 levantamos acampamento para Cruz das Almas, pois o forte da festa de São João nesta cidade era o dia santificado, com a tradicional guerra de espadas. Um espetáculo de rara beleza, mas de considerável periculosidade que teve efeito diverso nos dois fotógrafos que trabalhavam – enquanto um, o carioca Edgar Moura, ficou encantado, o outro, o pernambucano-baiano Vito Diniz, se sentia extremamente atemorizado.

Em 25 de junho chegamos em Castro Alves, minha terra natal, para captar o clima da festa num ambiente campestre e a musicalidade do povo nas quadrilhas em torno de uma grande fogueira, numa praça da cidade.

Rodado na bitola de 35 mm e em cores, “Festa de São João no Interior na Bahia” contou, para captar suas imagens, com o trabalho profissional de três gabaritados diretores de fotografia: Edgar Moura, Vito Diniz e o alemão Martin Schäfer, fotógrafo da equipe de Wim Wenders. Também da equipe de Wim Wenders foi o meu técnico de som, Martin Müller.

Contudo, já que estou fazendo referência a alguns componentes da minha equipe de filmagem, devo destacar a contribuição do meu querido e saudoso amigo Olney São Paulo, que foi o produtor executivo do filme e meu braço direito, sobretudo na etapa preparatória das filmagens no Rio de Janeiro, junto a Embrafilme, aos estúdios de imagem e som, e na contratação dos profissionais vindo do Rio, como Edgar Moura e Sandoval Dorea.

Durante as filmagens, o Olney era o mais alegre e comelão da equipe, ninguém jamais poderia imaginar que meses depois ele seria ceifado do nosso convívio por uma câncer implacável.

Uma complementação das filmagens foi realizada no dia 2 de julho, ainda com toda a atmosfera junina, na cidade de Alagoinhas, com ênfase sobretudo para as iguarias típicas da época, como a canjica e outros quitutes derivados do milho verde.

 

 

 

 

2 Comentários...

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