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por André Setaro

(extrato do Panorama do Cinema Baiano)

 

EFERVESCÊNCIA CULTURAL

 

 

Nos anos 1950, a cidade de Salvador efervesce culturalmente, sacudindo a Velha Bahia com espetáculos renovadores, propostas de vanguarda. No plano secundarista, o Colégio Estadual da Bahia (o Central) oferece teatralizações de textos poéticos em avançadas concepções de mise-en-scène. É a Jogralesca, onde pontificavam as figuras de Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Calazans Neto, Fernando da Rocha Peres, entre outros, nomes que mais tarde viriam a se situar no panorama cultural com obras de destaque. Decisivo é o apoio dado pelo reitor Edgard Santos à Universidade da Bahia, que chama personalidades importantes do sul do país para orientar, dirigir unidades universitárias a fim de impulsionar as artes na Bahia. Assim, Martim Gonçalves na Escola de Teatro faz projetar a cidade como formadora dos melhores talentos na área, funcionando como um verdadeiro gerador de diretores e intérpretes da mais alta categoria, com peças até hoje rememoráveis pela audácia na concepção, pelo profissionalismo, pelo sopro renovador. Poder-se-ia, inclusive, dizer que Martim Gonçalves forma uma verdadeira “escola” de teatro. Que ainda nos dias atuais s dá mostras de sua passagem. Mas não somente o teatro, mas a música, a dança etc. Na Faculdade de Direito, a revista Ângulos discute temas jurídicos e filosóficos da maior importância, a revelar talentos e escrevinhadores dos mais perspicazes (A.L. Machado Neto, entre outros). Outra revista, esta diversificada, a Mapa, tem um apogeu e representa muito em termos de contribuição cultural. E o cinema? Este se faz nos princípios dos anos 50, com a continuidade do trabalho de Alexandre Robatto, Filho e o estímulo que o Clube de Cinema da Bahia proporciona, incentivando seus frequentadores à práxis cinemática.

Pátio, o primeiro filme de Glauber Rochad

O Pátio, de Glauber Rocha

Durante o período de Hélio Machado à frente da Prefeitura de Salvador, uma turma de jovens se esforça para realizar filmes e lança o slogan: “Você acredita em cinema na Bahia?”. Aí, o verdadeiro voo de Ícaro. Muitas batalhas, muitos obstáculos, quase a desistência. Mas o pessoal não desiste, pessoal formado por Glauber Rocha, Frederico Souza Castro, Nilton Rocha, José Telles de Magalhães etc, que, inflexível, decide fundar uma produtora, a Yemanjá, ou, mais precisamente, a Sociedade Cooperativa Yemanjá de Responsabilidade Limitada. O grupo, o que faz? Vende rifas, bate de porta em porta pedindo financiamento, oferecendo bilhetes a troco de alguns centavos, pedindo apoio da imprensa. José Telles de Magalhães e Glauber Rocha invadem a Rádio Excelsior com um manifesto pedindo ajuda à Prefeitura. É então que o líder da Câmara de Vereadores resolve atender a súplica e oferece Cr$ 50.000,00 (cinquenta mil cruzeiros antigos – antes da reforma monetária de 1967). O grupo, entretanto, se desentende e as disputas intestinas fazem com que se dissolva. Nada se realiza do ponto de vista prático. Glauber, sozinho, resolve realizar um curta e, com uma câmera de 35mm, manipulada pelo fotógrafo José Ribamar de Almeida, o qual lhe dá dicas preciosas sobre fotografia em cinema, realiza, em 1959, O pátio, com as sobras dos negativos de Redenção. Os efeitos formais conseguidos não satisfazem o estreante: uma experiência fílmica com ritmo e a plástica da linguagem cinematográfica. Um casal burguês (Helena Ignez e Solon Barreto) sobe uma escada, abraçado, e, num pátio, obtendo os efeitos plásticos do mosaico em cores, transcorre toda a película. Os namorados, deitados, fazem amor ali mesmo. Ela, rolando pelo xadrez, plena de desejo, e ele, no ato do êxtase. Um achado simbólico coroa a película: ela, descansando-se do momento catártico, atira um sapatilha que vai cair dentro de outra. Ao término de 15 minutos, o ator se afasta da companheira, embrenha- se por uns matos “e realiza um festival de espumas”. O pátio é apresentado em março de 1959 no Clube de Cinema da Bahia.

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Outros curtas, no entanto, são rodados em Salvador, documentários com a tônica da preocupação social. Um dos mais famosos é Um dia na rampa, de Luiz Paulino dos Santos (1956), que focaliza um dia de trabalho na rampa do Mercado Modelo (o antigo, antes do incêndio). Em Feira de Santana, Olney São Paulo realiza Um crime na rua, no mesmo ano (56), uma história policial com “informação cultural”. Roberto Pires experimenta nos curtas O sonho e Calcanhar de Aquiles. E estrangeiros, ávidos pelo décor natural, pela paisagem exuberante, filmam em Salvador Maria Madalena, feito por um argentino e inspirado na vida de Cristo; Sob o céu da Bahia, Mulher de fogo, o desconhecido Moema, que nunca chegou a ser visto e narra a busca de uma jovem que, nadando pela Baía de Todos os Santos, procura o amado, que partira numa embarcação.

O segundo curta de Glauber Rocha, Cruz na Praça, nunca é montado. Rodado em torno de uma cruz existente na praça do Terreiro de Jesus, próxima à Igreja de São Francisco, é baseado num conto (A Retreta na Praça) publicado por Glauber no Panorama do Conto Baiano, lançado em 1959 por Vasconcelos Maia e Nelson Araújo. Entre os atores, Luiz Carlos Maciel (que, na época, ensina na Escola de Teatro) e Anatólio Oliveira. O tema, ao que parece, gira em torno do homossexualismo masculino.

São de Glauber as seguintes palavras, publicadas em Revisão crítica do cinema brasileiro que retratam bem o panorama cultural da Bahia de então: “A tradição literária da Bahia é retórica. As novas gerações de escritores e artistas surgidas, inicialmente, em 1945, no grupo Caderno da Bahia, e, mais tarde em Ângulos e Mapa, sempre foram violentamente combatidas ao passado de Castro Alves e Ruy Barbosa; contudo, o improviso, o romantismo e o discurso descritivo continuam marcando, e mal, a expressão artística da Bahia. Jorge Amado, carregando a força ficcional de seu contexto, é um escritor sem a disciplina que caracteriza Graciliano Ramos e João Cabral de Mello Neto. Os melhores poetas modernos da Bahia, Carvalho Filho, Jair Gramacho e Florisvaldo Mattos, são ainda sensualistas em conflito com a razão; a mesma circunstância – crise caracteriza a obra literária de Nelson de Araújo, Luis Henrique, Flávio Costa, Sadala Maron, José Pedreira, Ariovaldo Mattos, Vasconcelos Maia; a escultura de Mario Cravo e a pintura de Jenner Augusto. Entre os mais jovens, geração de vinte anos, aconteceu o esquecimento inicial da temática anterior; aos ficcionistas surgidos em Reunião (1961), Sônia Coutinho, João Ubaldo Ribeiro, Noênio Spínola e David Salles, revelaram extremo domínio da técnica e da linguagem, mas estavam, quase sempre, no puro exercício artesanal. O teatro de Paulo Gil Soares, a gravura de Sante e as artes gráficas de Calazans Netto, presos à realidade, lutam também entre o sensualismo e a razão, como no caso dos poetas citados”.

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Assim Glauber, nesta sua revisão, nos primeiros anos dos esfuziantes 60, sente o clima cultural da Bahia. Esta luta permanente entre o sensualismo e a razão, que domina, inclusive, os melhores cineastas do Ciclo Baiano, principalmente Rex Schindler, homem de mil instrumentos, acumulando as funções de produtor, argumentista, roteirista etc. No panorama cinematográfico, Salvador, além do Clube de Cinema, conta com alguns comentaristas que pontificam em jornais: José Augusto Berbert de Castro com seus comentários impressionistas em A Tarde; Jerônimo Almeida, pseudônimo de José Gorender no Jornal da Bahia, que sucede, mais ou menos em 65, a Fausto Ferreira, pseudônimo de Orlando Senna, o qual, por sua vez, sucede a Glauber Rocha, que pontifica na crítica cinematográfica por quatro ou cinco anos: de 1958

 

 

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