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por Sara Victoria

 

Então, agora começava a me abraçar. Nem vou perguntar o maldito porque, afinal, abraços de desculpas são carregados com filas de porquês e porque necessariamente nem sempre vem com uma boa resposta. Vem é carregado de um vir a ser se caso fosse, se caso teria, se caso seria, e nunca foi o caso. Na maioria das vezes nem chega a vir a ser uma boa resposta, nem é resposta e a fila equivocada dos porquês continua lotada de nada.

Aí entendo quem opta por não falar nada, dar o abraço e pronto, sem tender a complicar, sem tentar explicar. Tem coisas que não só não têm explicação como não cabe qualquer explicação. O fato já não deveria existir por si só, mas já esta com uma puta explicação e sobrará o engolir os maus porquês por puro cansaço e preguiça de respostas das quais as melhores sempre serão as que não se dão ao luxo de se expor.

Faz pra mais de um mês que o bruxo da internet me passou um exercício. Segundo ele, de suma importância para o meu crescimento pessoal, para expurgar todo o mal causado por segundos, terceiros; bom para transformar minha dor infinda, meu buraco negro. Simples: “colocar em um saco preto de lixo cada uma das minhas mágoas, calmamente. Colocadas as mágoas, amarrar bem o saco, levá-lo até uma ponte jogá-lo no rio. Depois que jogar, assistir a seu saco de mágoas, devidamente ensacadas, indo embora”.

Fiz, fui fazer, mas pensei que esse exercício poderia melhorar se, junto com as mágoas, eu também ensacasse cada pessoa que me causara dor, que me dera de presente essa ou aquela mágoa.

Comecei então a recolher cada “pessoa mágoa”, com todos os seus porquês, uma a uma, no mesmo saco. Ri ao perceber que cada pessoa que eu colocava no saco, resmungava coisas, gritava por desespero do seu porque não justificar e nem acordado com os danos deixados em mágoas. Fui rindo muito à medida que jogava cada pessoa, e como era bom jogar pessoas em um saco, ou por isso ou por aquilo, era muito bom. Achei mais graça dos gritos, dos esbravejos dentro do saco, parecia uma caixa de barulho repleto de tons confusos.

Cada pessoa que jogava diminuía pouco a pouco de tamanho, enquanto eu ia aumentando, crescendo, ficando altiva, alegre.

Joguei umas 30, 40, 50 pessoas ou até mais, não lembro ao certo. Mas vou confessar que sair jogando essas pessoas no saco estava tão divertido, animado, que a cada instante encontrava um bom motivo e, claro, repleto de justificativas para justificar a jogada. E eu cheia de razões, porquês, boas explicações, jogando e crescendo.

Dos que joguei ali, não tiraria ninguém, nem por piedade, mas fui complacente ao considerar as explicações das futuras pessoas, que pensei que poderiam a vir ser jogadas. Já havia no saco, afinal 30, 40, 50 pessoas fornecedoras de mágoas. Para minha metade de vida, era suficiente.

Fui fechar o saco, mas não resisti e brinquei de abrir e fechar o meu saco barulhento de mágoas. Abria, olhava, sacudia, escutava o barulho misturado, um tanto quanto abafado e ria; depois, fechava. Fiz isso algumas vezes por pura diversão. Abafar essa corja toda num saco preto só, por isso ou por aquilo, era muito bom. Como sou uma pessoa muito boa, resolvi, antes de fechar o saco de uma vez por todas, dar mais uma olhada, para ver se poderia livrar alguém, se por acaso, por descuido, teria colocado alguém que não merecia estar ali. Mas, passando as vistas, não vi ninguém digno de sair do saco, se bem que ele já estava muito confuso e barulhento e eu crescendo, crescida, naquela altura, não queria mais diminuir um só milímetro. Ser forte, alto, altivo, repleto de autoestima estava muito bom e melhor do que antes, quando eu andava pela cidade cabisbaixo, desencontrado, envergonhado pela falta de delicadeza dos outros.

Já ia fechando o saco, quando me lembrei de que faltava jogar também o bruxo que me ensinou esse exercício. Afinal, ele, depois de ser gentil, começou a me enviar cartas assustadoras de cobranças, infinitas ameaças. Joguei o bruxo lá dentro, amarrei o saco barulhento e fui até à ponte jogá-lo na água.

Foi lindo ver o saco batendo na água e ir afundando, afundando, afundando, com 30, 40, 50, 51 pessoas reprodutoras de mágoas, chacoalhando, afundando. A água parou de ondular e então pude ver o meu sorriso livre, limpo. Os meus dentes voltaram a ficar brancos, como se eu nunca tivesse fumado.

 

Um Comentário...

  1. um bom texto sabemos logo no primeiro parágrafo – excelente ! orgulho

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