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 O diretor José Walter Lima desmente versão que o multiartista foi deixado de lado por Gil e Caetano.

Documentário resgata trajetória do artista Rogério Duarte, um dos gurus tropicalistas

 

por Raul Moreira

 

Em tempos obscuros e nos quais é de bom alvitre olhar para o retrovisor, uma vez que o passado ajuda a compreender o presente, o documentário Rogério Duarte — O Tropikaoslista, de José Walter Lima, que entra em cartaz amanhã, funciona como uma bocada de oxigênio capaz de nos fazer acreditar que é possível sair de tal estado de coisas, sim.

No entanto, como deixou a transparecer, o designer, músico, poeta e guru baiano Rogério Duarte (1939-2016), o enfant terrible do Tropicalismo, entre outras atribuições, a verdadeira revolução não se faz pela catarse do coletivo.

Na verdade, o segredo estaria na individuação, processo capaz de levar o sujeito a sair da infância e entrar na idade adulta.

No filme de quase uma hora e meia, quase descarnado e desvestido de vaidades, sem falar daquela sinceridade de quem era consciente que vivia sua derradeira primavera, o retratado afirma a sua simples condição de passante, de homem finito. Mas, apesar de sua humildade de sábio, de desconstruidor de suas próprias proezas, fica a certeza que o caminho percorrido por ele deixou pegadas profundas.

Guru intelectual

Figura seminal da contracultura e considerado, ao lado de Hélio Oiticica, um dos mentores intelectuais do movimento Tropicalista (1967/1968), Rogério Duarte não se tornou conhecido como Caetano Veloso e Gilberto Gil, só para citar dois de seus pares. Porém, para aqueles que sabem mensurar a intensidade com a qual foi soprado o pó de pirlimpimpim e afins que transloucaram aqueles tempos, é impossível negar a força dos pulmões do saudoso guru, autor do mítico cartaz do filme Deus e o Diabo na terra do Sol (1964), de Glauber Rocha.

Aliás, de forma sutil e bem costurada pelo seu diretor, o filme acaba por desmentir a versão segundo a qual o mul- tiartista foi deixado de lado por Gil e Caetano, que também foram seus discípulos. Cavalheiro, ele não imputou-lhes culpa por ter ficado de fora do estrelato, assim como foi elegante ao apontar que o movimento Tropicalista foi maculado pelo excesso de holofotes.

Só o diabo e o diretor José Walter Lima sabem da odisseia que foi construir um documentário no qual o objeto de apreciação atendia pelo nome e sobrenome míticos de Rogério Duarte. Assim, uma vez dis- ponível no seu formato digital na tela grande, fica a dúvida se foi o sujeito “ascultado” quem conduziu a trama, que deu as diretrizes para a construção da narrativa, ou se foi o diretor o responsável por habilmente tomar as rédeas.

Vivência

Autor de Um vento Sagrado (2001) e Antônio Conselheiro, o taumaturgo do sertão (2011), entre outros, José Walter Lima é um diretor de cinema septuagenário e que viveu intensamente aqueles anos de desbunde e repressão. Por isso, em tese, é de se pensar que ele tinha controle sobre a pesquisa, enfim, detinha conhecimento suficiente para ordená-la e transformá-la em matéria cinematográfica confiável.

Com fotografia de Pedro Semanovshi e montagem de Bau Carvalho, Lima se valeu de um esquema narrativo misto, uma vez que em alguns momentos a edição transgrediu ao mesmo tempo em que foi linear e por demais explicativa na busca de apontar quem foi Duarte. Apesar da miscelânea, o resultado final não ficou com comprometido, até porque, verdade seja dita, além de informar, o filme toca, emociona.

Dito isto, fundamental se faz debruçar sobre alguns aspectos da personalidade e da formação do retratado, natural de Ubaíra, interior da Bahia, e sobrinho do sociólogo Anísio Teixeira. Antes de seguir para o Rio de Janeiro, no início dos anos 1960, ele viveu em Salvador na segunda metade da década de 1950. Naquele período, a capital experimentava uma revolução cultural orquestrada pelo reitor Edgard Santos, que ficou conhecida como “avant-garde” baiana.

Uma vez no Rio, militou no Partido Comunista, estudou arte industrial com o alemão Max Bense, colaborou visual e musicalmente com Glauber Rocha, que chegou a afirmar que Rogério Duarte “estava por trás de todos nós”. Além do mais, deu um sentido estético ao movimento Tropicalista, produziu capas de discos de famosos como Gil, Gal, Caetano, Jorge Ben e João Gilberto, entre outros. Em abril de 1968, foi preso e torturado pelo regime militar, ao lado do irmão Ronaldo, pouco antes da promulgação do AI-5: pirou.

Paranoico e em busca de paz, percorreu outros cami- nhos que não os da arte e das drogas, refugiando-se no in- terior da Bahia e na religiosidade oriental. Tornou-se Hare Krishna, estudou sânscrito, a ponto de traduzir o Bhagavad Gita. Também foi professor da UNB e teve o seu trabalho de artista gráfico reconhecido por diversas instituições interna- cionais.

Dois anos após a sua morte, finalmente se fez jus a sua trajetória. Além da análise de certo tempo histórico, no documentário descobre-se um Rogério Duarte para além do bem e do mal. Um homem sábio e consciente de que nele habitavam um deus e um diabo sempre prontos a fustigá-lo na terra do sol.

 publicado em A Tarde

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