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por Edgard Navarro

 

Ainda continuo sob o impacto da poesia vigorosa do primeiro longa de meu irmão Fernando Belens. Começamos na mesma época, em meados da década de setenta, não demorou muito pra nos tornarmos companheiros de trabalho e produzirmos juntos muitos filmes. Desde os exercícios descompromissados do cinema livre e depois as bitolas profissionais, com equipe maior e requintes tecnológicos que não conhecíamos antes. Atravessamos três décadas de penúrias e alegrias e contendas e pasmaceira e descobertas e afetos e tanta coisa que fica difícil enumerar. Éramos quatro: Pola Ribeiro, Araripe, Fernando e eu. Formávamos a Lumbra – misto de luz e sombra, alumbramento. Dinorath do Valle era uma espécie de madrinha do grupo. Aconselhava, criticava, ensinava, pintava e bordava (literalmente). Era exímia artista plástica e mãe e amante e irmã; e escritora tão talentosa que mereceu o prêmio Casa de las Américas com o romance PAU BRASIL.

Eu li o calhamaço original datilografado e corrigido a punho, de caneta e lápis. Uma luz dourada de fim de tarde entrava pela janela poente da casa humilde em que morava o cineasta, no Morro da Sereia. Eu levantei os olhos marejados do livro e lá estava sua autora bordando uma camisa nova pra meu amigo. Eu chorava de uma emoção muito terna, provocada pelas palavras de fogo e luz que brotavam daquele livro prenhe de vida, de suores, secreções, hálito de candura e violência, vida. Vocação de professora, de curandeira, de amor desinteressado, de paganismo ferrenho, índia e marrenta (palavra que ainda não existia). E fecunda, implacável, destemperada, desabusada… Dina nos inspirava e repreendia, nos amava muito, e nós a ela. Mais do que a todos, amava Fernando, ela foi uma conquista dele, que compartia dadivosamente com a gente. A idéia de fazer um filme adaptado do romance virou uma paixão de Féu, assim o chamam os íntimos. Parece que a metáfora de Dina traduz uma emoção coletiva de generosidade na carência, de compaixão e desespero mudo dos desvalidos, dos que sofrem. Eu não gosto de bons modos, não gosto de bom senso. Eu gosto dos que têm fome, dos que secam de desejo, dos que ardem.

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Fernando passou quase 30 anos se dedicando direta ou indiretamente ao projeto. Tomou infindáveis nãos, negaceou, fez outros filmes, fez que não era com ele, chorou as perdas todas, amadureceu, se desesperou. Comeu o pão que o diabo amassou até conseguir estrear o filme. Estava apreensivo com a recepção: será que não vão me odiar por trazer tantas feridas, tanta dor… O público quer se divertir: bunda-lê-lê, ó pai, ó! Eu também estava muito apreensivo, porque não tinha visto nada, ele guardou a sete chaves (coisa de índio), sagrados segredos. Estava com medo de não gostarem, de eu próprio não gostar, não saberia mentir pra agradar o amigo…

Na noite mágica da última sexta-feira o cinema brasileiro ganhou um novo filme bahiano da mais alta qualidade. Fotografia, direção de arte, interpretação, trilha sonora, montagem… Tudo forma um todo harmônico único, belo, tocante, perpassado pela aura de maravilha que consagra as grandes obras do espírito humano. Onde quer que esteja, na quarta, quinta ou sexta esfera, Dina deve estar tão feliz! É grande e forte e belo o filho que é seu e de Fernando. É uma obra magistral de um artista que se torna tanto maior em sua modéstia e singeleza: será que não vão me odiar?

Por esse feito, Fernando, todos nós vamos te amar eternamente. E quem não gostar de você, vai ter que reverenciar a obra, que é sempre melhor do que os artistas, pobres mortais. Seu filme, este sim, ganha a patente de coisa eterna, digna de todos os louros. Que possa o PAU BRASIL brilhar nas telas do mundo: Oropa Luanda, Bahia. Evoé, Féu, filho de Oxóssi, de Ogun! Evoé, Dina, mãe e guerreira! Evoé, Luciano, o outro pai da criança! Os deuses abram o caminho desse menino que nasce agora para orgulho de quem quer que torça pelo vero cinema brasileiro, especialmente o feito fora dos eixos e dos paradigmas do espetáculo já tão aparatado, berço de ouro. Aqui não tem glamourizaçao da miséria, aqui a miséria transborda de cada fotograma para a consciência e o coração das plateias. Todos os que vivem cobrando que o cinema bahiano com h está devendo, todos eles vão ter que se render ao lenho fundamental – PAU BRASIL.

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3 Comentários...

  1. […] Caderno de Cinema | Edgard Navarro Pau Brasil […]

  2. AJ Cardiais disse:

    Jorge, só pelo texto que você escreveu já dá vontade de assistir o filme. Parabéns

  3. artur carmel disse:

    Parabéns, Bélens, por mais essa obra. Parabéns, Jorge ‘Cabeludo’ Alfredo, pelo texto primoroso sobre o filme. Viva ao Cinema Nacional ! Viva ao Cinema Bahiano. Viva Fernando Bélens !

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