caderno-de-cinema

Home » Artigos » Pensando Canudos

 

por Orlando Senna

 

Nos últimos anos, com a enxurrada de filmes repetitivos que nos afoga nos cinemas e na tv e com a oferta de um milhão de filmes de todos os tipos na internet, me transformei em um garimpeiro audiovisual, procurando nessa imensa piçarra imagens e sons que de verdade me dão o prazer de me fazer pensar e sonhar. Nenhuma novidade para mim, que tenho origens fincadas na cultura dos garimpeiros da Chapada Diamantina, inclusive na dificuldade de encontrar essas gemas preciosas — talvez não por culpa desse caudaloso cinema atual, mas minha, por velho, exigente e hedonista. Apesar da dificuldade tenho encontrado, encontrei no ano passado o Sagrado Segredo do André Luiz Oliveira que me levou a um ponto alfa. Este ano voltei a sentir o prazer cinematográfico em estado puro (como aqueles da adolescência) vendo Antônio Conselheiro, o Taumaturgo dos Sertões, de José Walter Lima.

 

 

São filmes ditos “artesanais” e também classificados por críticos inteligentes como “ensaios audiovisuais”, uma postura artística que a tudo digere — a ficção, o documentário, a animação, a palavra, as novas tecnologias — para criar uma comunicação livre, solta, fragmentada, não linear, não aristotélica, metalinguística, poética. No caso do Antônio Conselheiro uma comunicação também barroca (me refiro ao barroco brasileiro, baiano, a exaltação do contraste, o exagero do real, a exuberância do espírito). Gosto, porque me dão prazer, desses filmes ousados, saudavelmente imprudentes, como se as sofisticadas máquinas das ilhas de edição em que são feitos fumassem maconha ou qualquer outra planta psicoativa sul-americana.

O filme de José Walter Lima, que não por acaso também é pintor, se refere e pensa audiovisualmente sobre uma tragédia histórica brasileira que, por sua dimensão humana e política, rapidamente se alçou à categoria de mito, de componente simbólico no panteón da identidade brasileira. Vale a pena pensar esse tema, e estou dizendo pensar de propósito porque a proposta desses filmes anarquistas é essa, abrir caminho para que o cinema seja cada vez mais uma linguagem para se filosofar.

 

 

Deixe um comentário