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Adalberto Meirelles entrevista Petrus Pires

(2013)

 

“Entender a origem de nossa cultura cinematográfica marcou o meu olhar como realizador”

Com lançamento nacional agendado para o III Festival de Cinema Baiano(Feciba), em Ilhéus, Os Filmes que Eu Não Fiz é o segundo filme de Petrus Pires. Ele estreou no cinema com o documentário O Artesão de Sonhos (2008), no qual resgatou a história de Roberto Pires, seu pai, e agora lança luzes sobre a trajetória de Alexandre Robatto Filho. O documentário será apresentado com duas obras restauradas de Robatto: Entre o Mar e o Tendal Vadiação. À frente do Instituto Memória Roberto Pires, Petrus integra o projeto de restauro dos filmes de Alexandre Robatto, que inclui nove curtas-metragens, e coordena a restauração das obras de Roberto Pires, que foi iniciada com Redenção, primeiro longa-metragem baiano. Nesta entrevista cedida ao Ponto C de Cinema pela assessoria do Feciba, o cineasta conta mais detalhes sobre os projetos.

Petrus Pires - pontocedecinema.blog.br

P – Por que um filme sobre Alexandre Robatto?
R – Recebi um convite de Sônia Robatto para fazer parte do projeto de restauro da obra de Alexandre. Quando mergulhei no processo de restauro, o interesse foi natural, não conhecia muito sobre a obra e a vida de Alexandre Robatto. O processo de restauro foi executado de forma muito carinhosa por Sônia, que, além de reunir uma ótima equipe de produção, se cercou de pessoas que tinham uma relação muito próxima com a familia dela, caso de Érica Lopes, produtora, e de Márcio Meirelles, roteirista do documentário. Foi nesse clima “familiar” que Sônia me fez o convite para produzir e dirigir um filme que contasse a história de Robatto, o filme faria parte do DVD dos filmes restaurados. Como Robatto não é um cineasta conhecido pela maioria das pessoas, decidimos fazer um filme mais informativo. E para fazer o filme eu me cerquei de pessoas que foram fundamentais para a construção do filme. O argumento é de Márcio Meirelles, que enxergava Robatto através de um olhar poético. Esse olhar poético foi transformado num olhar mais objetivo quando o argumento se transformou em roteiro, passando pelas mãos do próprio Márcio e da minha grande parceira nesse projeto, Dayse Porto, que também teve um papel fundamental como assistente de direção. Além desses, outras duas pessoas que fizeram parte do processo do filme desde a concepção até a finalização foram Paulo Hermida, diretor de fotografia, e Marcio Almeida, diretor de produção.

O que foi mais interessante no processo de realização do documentário?
Vasculhar os armários e a lembrança que as pessoas tinham de Robatto. Descobrimos uma pessoa com um senso de humor único e com uma sensibilidade artística própria. Um exemplo disso foi que achamos num desses armários um filme de 16mm que Robatto fez do casamento da filha Yeda. O casamento teve que ser feito às quatro da tarde para ter luz para a filmagem. Outra grata surpresa foi descobrir que, além de cineasta, ele foi dentista, fazia esculturas e joias de ouro, era radioamador, escritor e poeta, era uma pessoa de muitas faces. Fazer o que ele fazia não era comum, o interesse dele pela cultura popular se expressava na forma de filmes, livros e poesias. É esse personagem que tento mostrar no filme. Um Robatto múltiplo e incansável.

O que motivou a inserção de cenas ilustrativas de ficção?
As cenas ficcionais do filme foram uma sugestão de Márcio Meirelles, que nós abraçamos com vontade. Sou um apaixonado por cinema e acredito que cinema em sua forma plena é a ficção. Representar Robatto e a cena inicial do livro dele, Raimunda que se foi, era quase uma obrigação. Recriar o ambiente onde o cineasta criava, foi gratificante. Além disso, descobrimos que o neto dele, Pedro Robatto, tem uma semelhança com o avô muito grande e pôde interpretar Robatto nos anos 30. Filmar a cena inicial do livro de Robatto me deu uma alegria muito grande, alegria tamanha que a vontade de fazer o longa baseado no livro Raimunda que se foi tornou-se quase que uma obrigação. Estamos começando a escrever o roteiro, para, quem sabe, prestar essa ultima homenagem a Alexandre Robatto.

Como está o processo de recuperação da obra de Alexandre Robatto? Os curtas que serão exibidos no Feciba são cópias restauradas? 
Bem, é bom dizer que o processo está sendo tocado pelo Estúdio Sônia Robatto e o Instituto Memória Roberto Pires é um parceiro. Nós não tínhamos condições de fazer a recuperação de todos os filmes de Robatto, então escolhemos os nove mais importantes na trajetória dele. Vamos apresentar no Feciba uma parte desses filmes restaurados, além do documentário sobre Robatto. É lindo ver a obra de Robatto tomando vida novamente, fizemos todo o restauro em alta definição, no melhor padrão existente hoje no Brasil, e criamos um mecanismo de preservação que vai assegurar que os filmes não se percam mais, teremos cópias em DVD e todas as mídias possíveis e existentes atualmente no ramo de preservação cinematográfica. Demos uma vida nova aos filmes e vamos disponibilizar para a comunidade, porque o filme é como obra de arte, ele tem que ficar exposto e ser visto. É isso que queremos.

Seus dois filmes são sobre pioneiros do cinema baiano. Mergulhar nessas histórias acabou por influenciar seu olhar como diretor?
Entender a historia do “nosso” cinema me esclarece muitas questões. Fazer esses documentários não era a minha primeira aspiração como realizador, mas a vida nos leva por caminhos inesperados. O meu primeiro filme, O Artesão de Sonhos, aconteceu de uma forma muito natural. Em parceria com Paulo Hermida começamos a entender a importância e a influência do meu pai no cenário cinematográfico brasileiro e baiano. Quando fiz esse filme percebi que esse era o primeiro passo para a criação do meu projeto de vida, que se chama Memória Roberto Pires. Mergulhar na história do cinema e nos processos de restauro me deu o aval para ser chamado por Sônia Robatto para integrar o projeto de preservação da obra do Alexandre Robatto. E foi de uma forma muito natural que surgiu o impulso para realização do meu segundo documentário. Entender a origem de nossa cultura cinematográfica marcou o meu olhar como realizador, hoje vejo o cinema de forma muito mais sensorial do que via quando comecei a pensar em fazer filmes.

Foi mais difícil realizar um filme sobre Roberto Pires, seu pai? Por quê?
Fazer um filme sobre um assunto tão próximo dá uma sensação de que sempre falta alguma coisa. Por um lado, foi fácil porque tinha tudo por perto, mas por outro, é doloroso ver que meu pai poderia ter feito muito mais filmes do que fez. Ele faleceu muito jovem, deixou muitos projetos por fazer ainda, que aos poucos eu vou acabar realizando.

Como está o processo de restauro dos filmes do seu pai?
O projeto de restauro se chama Memória Roberto Pires. Quando comecei o projeto em 2006 eu não imaginava que ele teria esse sucesso. Já restauramos e preservamos Redenção, estamos finalizando o restauro e a preservação do Tocaia no Asfalto e de A Grande Feira (integrante da Mostra Retrospectiva, o filme será exibido no Feciba dia 8 de junho, às 15h30). E já estamos com tudo garantido para fazer o restauro do Abrigo Nuclear. Estamos caminhando, estou feliz com as realizações.

Tem algum novo projeto? Pode adiantar sobre o que é?
O novo projeto é o restauro de Abrigo Nuclear. Além de restaurar o filme, vamos fazer um documentário sobre o tema. O que sei sobre o documentário é que nem eu, nem Paulo Hermida vamos dirigir. Quero que alguém com um olhar diferente faça esse documentário, que vai contar com a produção da Iglu Filmes. Estamos também finalizando um documentário sobre a A Grande Feira, chamado O Cinema Foi a Feira, com direção de Paulo Hermida. Será um extra do DVD, com lançamento previsto para o final do ano. Temos também projetos de filmes de ficção que na hora certa vão ser realizados.

 

 

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