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por José Walter Lima

Após a conclusão do filme “Antonio Conselheiro – O Taumaturgo dos Sertões” comecei a fazer uma análise crítica, e cheguei à conclusão que é muito difícil fazer um filme-ensaio. Porque o filme experimental já nasce estigmatizado, rejeitado. Normalmente existe um preconceito e uma má vontade para com esse tipo de produção. Atualmente é quase um suicídio realizar um filme de arte.

Antes nós tínhamos a censura da ditadura, hoje nós temos a censura de mercado e dos festivais, que exigem um padrão dentro dos parâmetros estabelecidos pela cultura mainstream, que não aceita a desconstrução da narrativa convencional. Nesse momento do cinema de mercado o  “Conselheiro” está indo na contra-mão do sistema, está na contra-corrente. Porque ele foi concebido para ser poético, filosófico, pictórico, imagético e reflexivo, dando ênfase na cor (cinema – pintura) e na trilha sonora, como elementos fundamentais para a funcionalidade dramática.

A construção de uma estrutura não convencional exige uma desconstrução narrativa experimentalista, através de uma proposta vanguardista que incorpora vários elementos de outras linguagens, agregando sentimento e emoção para tentar uma sinestesia entre o autor e o espectador. A pulsação obsessiva é expressada através do imaginário popular e do erudito, do realismo e do delírio.

Delírio conceitual relativo à criatividade, construído com diferenças significativas de ismos e com uma atmosfera onírica entre os limites da ficção e a realidade. Dessa forma repudiando cenários caros e artificiais, com um elenco de atores profissionais e amadores, e uma equipe mínima, com uma montagem circular e recorrente, recorrendo ainda a narração em off.

Solucionamos uma complexidade estrutural, onde através de uma pós-produção criativa resultou um produto diferente da mesmice atualmente imposta pelo mercado.

Foi dentro dessa concepção que foi realizado o filme Antônio Conselheiro – O Taumaturgo dos Sertões. Ele foi construído através de uma plasticidade alquímica. Diversas dificuldades foram superadas na produção do filme, como o confisco dos recursos pelo Plano Collor, a extinção da Embrafilme, e a perda de grande parte dos materiais de imagem e som.  Passaram-se 25 anos, o que quase levou a perda do sentimento inicial. Mas a força do pensamento voltou sintonizada com toda a criação, e então foi retomado nessa película o mesmo ímpeto.

Tudo isso culminou num outro projeto, num outro direcionamento para suprir as deficiências do material reduzido. Foi necessário colocar a imaginação, a inventividade, associando o que eu denomino de “soluções criativas” para se conseguir chegar a uma combinação, a uma costura, um ensaio. Uma expressão com diversas derivações e influências, mas com uma grafia e estilo próprio.

Partindo desse princípio foram utilizadas várias linguagens para dar concretude a essa dramaturgia, para isso foi necessário usar elementos de vários “ismos” e segmentos artísticos, tais como a teatralização, o cromatismo pictórico, o uso da música de uma maneira polifônica, um desenho de sons e ruídos compatível ao drama.  A junção de tudo isso gerou uma dramatização singular, fora dos padrões convencionais. Dando uma roupagem barroca e delirante. Uma estrutura audiovisual que fugisse da sintaxe griffithiniana, mais próxima da estética da fome. Na premissa de que com recursos escassos pode-se fazer um filme rigoroso e decente.

O “Antonio Conselheiro” foi também pensado como uma ópera visual, uma ópera sertaneja, uma fantasia leiga de um discurso messiânico popular. Agregado ainda a uma plasticidade e a um discurso interior expressado através de uma composição que sintetiza uma orquestração, um pensamento lógico entrelaçado a um contexto emocional. Uma peça imagética composta de várias partituras: música, teatro, pintura, poesia, literatura, fotografia. Uma síntese audiovisival com os três gêneros do cinema: ficção, documentário e animação.

Isso se transformou num mosaico delirante dessa epopéia mitológica. A dramaturgia dos sertões com um distanciamento brechtiniano. Para compor o personagem do ator Carlos Petrovich, recorremos a gestualidade eisensteiniana, ao expressionismo alemão e a teatralidade shakespeariana, incorporado a tudo isso a retórica barroca baiana.

Este filme retrata a tragédia republicana que exterminou o Cristo do terceiro mundo. O Cristo revolucionário e apocalíptico que lutou até o fim ao lado dos seus seguidores. Pregava num tom incisivo e sem complacência para com seus opressores.  O Cristo da ressurreição e não o crucificado na cruz da Igreja Católica. O mito que ficou no imaginário popular, retratado por Euclides da Cunha, o nosso Homero.

7 Comentários...

  1. Elisio Brasileiro disse:

    Essa Maria é um pé no saco!!!Deve ser sapatão,mal amada,frustrada.

  2. Júlio Góes disse:

    Por vezes somos muitos mesquinhos com o outro. Mas, “Antonio Conselheiro…” mostra o nosso Ser-Tão, com o povo do lugar da saga e também um elenco que contribui para testemunhar nosso tempo, falando de outro tempo, para aqueles estão aqui, agora e aqueles alhures no futuro das ausências dos atuais vivos e individuais. Parabéns para José Walter Lima.

  3. José Walter lima disse:

    Primeiro. Nome completo. Todo anônimo e um covarde. Segundo. Nao e babaquice nao. E cinema sim. Cinema se faz com imaginação artística e metáfora. Também nao e viagem de ego, nem auto elogio. A construção de um personagem passa porvários métodos de interpretação. O diretor tem obrigação de saber trabalhar com esses conceitos da dramaturgia. Em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, Glauber, no personagem CORISCO, utilizou o distanciamento brecthniano e gestualidade do ator Toshiro Mifune, no filme OS SETE SAMURAIS, de Akira kurosawa.Portanto, o trabalho do diretor e fundir esses elementos para obter do ator resultados extraordinários. Isso se chama processo criativo. O resto e papo furado./ JWLIMA.

    • Maria disse:

      Papo furado é essa tua “erudição” sem serventia!
      Menos, homem, menos!

      Nessa tua “erudição”-olha-como-eu-faço-um-filme-culto, tu esqueceu Dogville e seu distanciamento brecthniano. Tu esqueceu também que, quem sabe, faz, quem não sabe, cita. Para impressionar os bobos!
      E la nave vá.

    • Maria disse:

      Reflita bem no Clint Eastwood, ele disse:
      “Você olha para um Velásquez da fase escura e pergunta: Como é que ele conseguiu pintar assim? Tenho certeza que ele não disse para si mesmo: “Estou aqui na minha fase escura, então tenho que pintar dessa maneira.” Ele simplesmente pintou. É quando a verdadeira arte tem a chance de entrar em cena.
      Agora, tu e mais um destrabelhados com o título de “cineasta” baiano da atualidade, fazem é vergonha à sétima arte.

      Fui, não volto mais!

      • José Walter lima disse:

        Maria, volte sempre. Achei legal seus questionamentos. Nao sou tão pretensioso como vc imagina que sou. Vou fazer uma reflexão sobre os seus comentarios.

  4. Maria disse:

    distanciamento brechtiniano, gestualidade eisensteiniana, expressionismo alemão, teatralidade shakespeariana, incorporado a tudo isso a retórica barroca baiana. Isto não é cinema, é babaquice de ecolatra!

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