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A recente trajetória do filme Cuíca de Santo Amaro revela perspectivas e impasses da circulação de filmes feitos  na Bahia

 

por Josias Pires

 

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                      Cuíca volta pra curtir

 

Quando o filme documentário de longa metragem Cuíca de Santo Amaro for projetado no auditório da Uneb, em Salvador, no próximo dia 29 de novembro, estará concluída uma jornada de 157 exibições em 37 cidades e povoados de todas as regiões da Bahia, iniciada em 15 de agosto no Teatro Dona Canô,  em Santo Amaro da Purificação. Cuíca agora se prepara para percorrer outras capitais.

O périplo inicial na Bahia revelou um cenário previsível e outro surpreendente. Eram esperadas a dificuldade e falta de estrutura de projeção (imagem e som) e, especialmente, o pouco interesse pelo filme no circuito comercial. Mas foi surpreendente a mobilização nas universidades e escolas de ensino médio. A trajetória do filme no circuito alternativo revela a existência de um público potencial, atraído pela possibilidade de tomar contato com a produção cultural e interagir com os realizadores.

Cuíca de Santo Amaro desbravou um caminho. Comprovou ser possível a montagem de circuito alternativo de exibição de filmes com presença em todas as regiões da Bahia. Mas ainda é imprescindível a melhoria da qualidade técnica dos equipamentos de projeção de imagem e som. Com exceção dos centros de cultura do Estado e do auditório da UFRB/Cachoeira, os demais espaços funcionam com equipamentos que ainda não são os mais adequados para a exibição. Tal carência poderá ser tranquilamente superada pela união de esforços entre as secretarias de educação e cultura do Estado. É um investimento baixo, mas com um expressivo retorno cultural e educacional, que pode contribuir para a criação de referências culturais e na formação de um público qualificado.

Aprovado no Edital Setorial do Audiovisual 2012, o projeto de exibição e circulação do filme Cuíca de Santo Amaro previa a exibição do documentário para um público médio de 50 pessoas. As sessões em universidades e centros de cultura alcançaram público médio de 100 pessoas. Nos cinemas de Salvador foram realizadas 116 sessões, em três salas, durante cinco semanas (44 sessões a mais do que o previsto). No interior, chegou a 36 localidades, sete a mais do previsto, com  41 sessões  para mais de 4 mil pessoas, inclusive com debates depois da exibição. Nestes debates foram discutidas questões como memória social, identidade, comunicação e ética na imprensa. Notícias do filme reverberaram para o público alcançado por meio de entrevistas em rádios, tevês, jornais e sites.

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Para obter este resultado, a principal estratégia de mobilização foi atrair o interesse de professores e estudantes de ensino médio e universitários.  Este “recorte” do público seria fundamental para garantir plateias para o filme, na medida em que a comunicação geral através de emissoras de rádio, tv e jornais e redes sociais virtuais, apesar de importante para a ampla difusão de notícias, é incapaz, por si só, de levar as pessoas aos locais de exibição. Além disso, o convite continha o “trunfo”  de poder doar para os professores cópias do DVD do filme, com 04 Extras e um encarte com sugestões para o uso do material em salas de aula.

A plateia foi conquistada com uma “agressiva” forma de mobilização, empreendendo um corpo-a-corpo vigoroso, fazendo contatos com diretores e professores de unidades de ensino e, em seguida, indo diretamente às escolas e salas de aula convidando docentes e discentes para irem ver o filme. Esta estratégia, até o momento, tem se revelado auspiciosa.

Entretanto, Cuíca não obteve o mesmo sucesso no circuito comercial. Apesar do filme ter ficado em cartaz durante cinco semanas nos cinemas de Salvador o número de pessoas que pagou ingresso ficou abaixo de mil. A única cidade do interior  em que foi exibido em cinema, ficou apenas três dias. O exibidor recusou-se a manter o filme em cartaz, tendo em vista que a resposta do público foi pífia. Passou longe da cabeça dos poucos frequentadores de filmes daquela cidade trocarem O Ataque e Círculo de Fogo – duas películas de ação norte-americanas que estavam em cartaz naquele momento – pelo tal Cuíca de Santo Amaro. O desinteresse do público levou o proprietário das salas do Extremo Sul  a cancelar as exibições previstas na outras duas cidades da região.

Mas  a boa recepção de Cuíca nas Universidades, escolas e centros de cultura mostrou que é possível, sim, conquistar para o cinema brasileiro o público jovem, que hoje não frequenta as salas comerciais, são descapitalizados financeira e simbolicamente, público despossuído de referencias culturais oriundas do mundo letrado, porém disponível para receber políticas públicas articuladas de educação, arte, cultura, ciência e comunicação. Evidentemente este público só irá ao cinema se houver investimento permanente e persistente na sua formação educativa-cultural, que seja capaz de elevar sua qualidade de vida e de renda.

A execução do projeto de exibição do Cuíca de Santo Amaro no interior da Bahia teve o apoio complementar de algumas prefeituras municipais e universidades. Este apoio gerou economias que, somadas à redução de custos com a mudança no sistema de exibição, possibilitaram a proposta de aditamento do prazo de conclusão do projeto com a ampliação do circuito de exibição para outras capitais brasileiras. Ou seja, além de cumprir e superar as metas iniciais, o projeto pode, sem recursos financeiros adicionais, alcançar um circuito de exibição nacional.

A exibição e difusão do Cuíca de Santo Amaro em um conjunto de capitais brasileiras é parte fundamental deste processo de articulação para a montagem de circuitos alternativos de exibição. Essa incursão do filme em patamar nacional contribuirá para a consolidação e ampliação de uso do Circuito Alternativo de filmes brasileiros, a partir de contatos com pontos de exibição em centros de cultura e de educação, teatros, escolas e espaços diversos da Bahia e de vários estados do país.

Eu

texto escrito com a colaboração do jornalista Marcus Gusmão

 

3 Comentários...

  1. […] leia também Por um circuito alternativo […]

  2. […] Josias Pires é jornalista, pesquisador, roteirista e diretor do documentário Cuica de Santo Amaro | Publicado em caderno de cinema […]

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