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por Jorge Alfredo

 

Em 1978, a Bahia ficou pequena pros meus planos e resolvi ir para São Paulo. Na minha experiência em 1975 morando no Rio de Janeiro, eu já pensava que em São Paulo eu teria mais oportunidades. Estava casado com Suki há apenas um ano, mas fui sozinho com a idéia de assim que conseguisse emprego ela iria ficar comigo. Era setembro e ela estava cursando Dança na Ufba. Além disso dançava no Intercena, grupo de dança dirigido por Carmem Paternostro. E creio que também dançava no espetáculo Boiúna, de Lia Robatto.  Em São Paulo, quando cheguei, fui acolhido na casa de Maurício e Lucila,  amigos que moravam lá. Sabendo que eu precisava de emprego, Régis Bonviccino me apresentou a Oliveira Bastos, do Diário de São Paulo, que estava incrementando um projeto de vanguarda no caderno de cultura; ele havia  convidado Glauber Rocha para escrever sobre cinema e televisão (era época do programa “Abertura”, de Glauber na Tv Tupi), Régis Bonviccino para comandar uma página semanal dedicada à poesia e Jorge Mautner para publicar semanalmente seus textos “fragmentos de sabonete”. Oliveira Bastos, de cara, me mandou escrever um artigo como teste. Pois bem, optei por escrever sobre Walter Franco, que estava lançando disco novo, e continuava muito cultuado depois do “Cabeça”. Dois dias depois voltei à sede do Diário na 7 de abril, e mostrei pra Oliveira Bastos meu artigo. Ele leu em silencio, mas o seu semblante demonstrava satisfação, o que me deixava aos poucos mais tranquilo. E me falou; “Quero que você escreva uma página por semana sobre música popular brasileira”. Em troca eu teria uma grana que dava pra eu alugar uma casa e ainda sobrava metade. Nada mau para começar. Minha primeira página saiu no dia 31 de outubro de 1978. Eu entrevistei Diana Pequeno, que estava lançando o seu primeiro Lp e que tinha gravado uma música minha e de Antonio Risério chamada Assim Preto, Brasa Branca.

No início de 1979 Suki vem ficar comigo em São Paulo. A nossa primeira casa foi na Mourato Coelho, na Vila Madalena. Dia de sábado se formava a feira e a gente ficava ilhado de frutas, verduras e pastel de queijo. Era uma dessas casas que o proprietário divide em três. Nos fundos morava um casal com um filho pequeno, na sala da frente um senhor consertava televisores. O resto era nosso; sala ampla, cozinha, banheiro e um quarto. Ali ficamos uns seis meses até a casa ser invadida literalmente pelos amigos. Era uma vida intensa e de muita criatividade. Risério veio da Bahia e ficou hospedado lá, Chico Evangelista tinha casa mas não saia de lá, Márcio Marinho idem, Patrícia e Mônica Nunes, Cristina, Walter Silveira, enfim tudo dentro da forma como a gente curtia a vida.

 

jorge em casa da vila madalena 79

Eu seguia insistindo com muita perseverança o meu objetivo de ser reconhecido como artista. Enquanto prosseguia escrevendo no Diário de São Paulo com cada vez mais repercussão. Roze, uma cantora baiana, veio gravar seu primeiro disco pela Chantecler e gravou uma música minha em parceria com Risério, “Oiampi”.  Carlos Pita, também baiano, estava gravando seu primeiro LP e me apresentou ao produtor Luis Mocarzel, que de cara, no primeiro contato gostou muito das músicas que cantei pra ele, e me disse que estava indo para a Copacabana Discos, e gostaria de produzir um disco meu. Na hora, nem levei muita fé.

Eu, no jornalismo, continuava a mil; minhas matérias saiam sempre com  destaque, chamada na primeira página, e eu fazia entrevistas cada vez mais importantes com Caetano Veloso, Elis Regina, Rita Lee, Raul Seixas, Marina, Zizi Possi, Walter Franco, Tom Zé, Beto Guedes, até que em julho de 1979 o Diário de São Paulo fechou. Era o último suspiro dos Diários Associados de Assis Chateubriand. Alexandre Gambirasi, que era o redator chefe do Diário, foi trabalhar na revista Isto É, e chegou a me convidar para ir escrever na revista uma coluna sobre MPB. Mas, minha cabeça estava confusa; esse convite que deveria me alegrar, causou em mim uma reação adversa. Eu tinha que tomar uma decisão. Lembrei do que Mocarzel havia me dito  e, de repente, o meu sonho de gravar um disco aflorou mais forte do que nunca. Lembro que eu fiz uma associação engraçada; eu não queria ser “uma espécie de Nelson Mota”, pessoa que eu admirava, mas que, na época, pra minha cabeça não se definia entre ser jornalista e compositor. Rsss…  Resolvi não aceitar o convite, procurar Mocarzel, e me dedicar tempo integral a minha carreira de cantor-compositor. Rolou um show no interior de São Paulo, em Assis, com Paulo Miklos, Márcio Marinho, Kiko e Dinho, do Arembepe. Ensaiava o dia todo e brotou uma safra muito boa de novas canções.

Felizmente, tudo deu certo, e em setembro do mesmo ano, três meses depois de ficar desempregado, eu já estava com contrato assinado e com estúdio marcado pra gravar meu primeiro LP. Gravações do disco agendadas, viajei para o Rio para ensaiar com Armandinho, Toni Costa, Guilherme Maia, Ari Dias, velhos companheiros de estrada. Os ensaios no Rio foram muito bacanas. Eu tinha conseguido juntar Armandinho e Ari Dias, com quem tinha feito vários trabalhos na  Bahia, com Guilherme Maia, Tony Costa e Edu Nascimento, com quem tinha realizado os últimos shows. Era a banda dos meus sonhos! O astral dos ensaios era maravilhoso e nas horas vagas íamos pro sítio onde os Novos Baianos moraram, e batíamos um “bába” (nessa foto, acima,  ficou registrado o nosso time de futebol). Era época de São João e à noite acendíamos uma fogueira, rolava canjica, milho assado e amendoim cozido… Foi nesses dias que compus “Vestido de Prata” e “Música Alegre”, morrendo de saudade de Suki, que tinha ido pra Bahia.

Mas, quando retornei a São Paulo, não pude contar com Armandinho e Ari, por causa da agenda de shows de A Cor do Som. Aí, por sugestão de Antonio Carlos, o produtor do meu disco, foram chamados Amilson Godoy, Heraldo do Monte e Dirceu, três feras que só fizeram acrescentar ao entusiasmo dos amigos talentosos Toni e Guilherme. Gravei o disco com 10 faixas em 8 dias. Estúdio de 24 canais, que ficava no Edifício Gazeta na Avenida Paulista com direção de produção de Antonio Carlos, irmão de Adiel um dos donos da Copacabana Discos. Tive toda liberdade tanto no repertório quanto nos arranjos.

No Festival da Tupi, classifiquei uma parceria minha com Risério e Chico Evangelista,  “Reggae da Independência”  – essa música causou muita estranheza ao júri. Poucos sabiam o que era reggae, muito menos ijexá, e essa data, 2 de julho, não fazia sentido nenhum para eles nem para grande parte da platéia. Mas, a música causou boa impressão e teve bastante repercussão, principalmente porque Jorge Ben adorou o nosso swingue e ficou tocando com a gente no camarim e Caetano Veloso disse à imprensa que o reggae da independência “era espalhafatosamente a melhor música do festival.”

Ainda nessa mesma época, na Copacabana Discos,  Chico Evangelista gravou um compacto e Era Encarnação outro. No repertório mais músicas minhas; Reggae da Independência (Jorge Alfredo, Chico Evangelista e Antonio Risério) e O Dia (Jorge Alfredo e Chico Evangelista) Vestido de Prata (Jorge Alfredo) e Palha (Jorge Alfredo e Antonio.Risério). Além disso tive música gravada por Djalma Pires, que gravou Tenho Medo de Mau Olhado, uma parceria minha com Regis Bonviccino, e Margarida, um samba do meu pai Moacyr Alfredo Guimarães.

No final de 79, já com meu disco lançado, eu tinha ido ao Rio fazer alguns programas de rádio; fui na Manchete dar uma entrevista pra uma revista, tinha feito rádio em São Paulo e no ABC paulista. Nesse período rolou o festival da Tupi.  Quando saímos da eliminatória do festival da Tupi fomos eu, Chico e Risério pro Itaim Bibi conhecer o Rasta Bar. Esse nome de bar fez com que iniciássemos um refrão. “rasta pé, é moçada, no passo dessa dança barra mansa pisada de afoxé. A bola conhece Pelé,moqueca leva dendê.”

Antes do natal de 79, voltei pra Bahia. A vinda pro verão da Bahia foi marcada por grandes novidades. O lançamento do meu LP no Teatro Vila Velha, de 30 de janeiro a 3 de fevereiro, no sábado, teve participação especial de Gilberto Gil.

 

 

3 Comentários...

  1. filipe cavalieri disse:

    que maravilha de história de vida. parte dela, apenas…
    acho que você deveria montar um álbum com todos estas gravações e montar um espetáculo com os intérpretes originais que puder conseguir. vai ser um espanto!

  2. Jorginho “Rastapé”, era assim que minha turma chamava, Jorge Alfredo. Viajamos nesse rastapé, minha geração curtiu muito. Bahia que não me sai do pensamento

  3. […]  http://cadernodecinema.com.br/blog/quem-fica-e-quem-traz-o-sol/ […]

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