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por Pola Ribeiro

 

Fui ao lançamento do filme “A Cidade do Futuro”. A expectativa era grande, pois acompanhei um pouco de longe, o desenvolver dos acontecimentos. Sabia do que se tratava, tinha conhecimento de com que matéria prima eles estavam se envolvendo. Tinha a compreensão de que estariam mexendo profundamente com pessoas e com eles mesmos. As circunstâncias e o nome do filme já iluminavam meu horizonte. As narrativas entusiasmadas de pessoas da equipe sobre as personagem, a condução e o ambiente do trabalho, já apontavam para o que estava sendo urdido nos confins da Bahia.
Eles brocaram e foram fundo. A delicadeza do processo inclui no “eles”, todo o elenco, equipe e cidade. A organicidade e a condução do desenrolar das coisas é sutil como uma gestação e não à toa, o casal que dirigiu o filme estava grávido durante a produção.
Fique completamente contemplado com a exibição. Fiquei orgulhoso com o que estava acontecendo. Fiquei feliz com o que via, felicidade e alegria, são sentimentos que me deixam mais confortável do que o orgulho, mas diante de tanta asneira e violências a que estamos submetidos, pude reafirmar em uma camada mais delicada do tecido social, que os hormônios estão em ebulição. Que a vida pulsa ante tanto cheiro de formol. Me senti contemplado como gestor público ao ouvir o relato de Cláudio Marques, da origem do processo na realização dos documentários que realizaram às margens do lago de Itaparica no norte da Bahia, fruto do edital “26 Territórios da Bahia”. O próprio filme também seria fruto de outro edital público de produção, uma das últimas ações enquanto estava na gestão do Irdeb Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia.
Desde o início dos meus interesses por cinema, sempre que via um filme italiano incrível, que abria os trabalhos com a marca da RAI (televisão pública), sentia aquela dor de inferioridade de viver e tentar produzir em um país que não tinha nenhuma política pública para o audiovisual e que a televisão universalizada no território nacional, concentradora e poderosa, não tinha nada a ver com o cinema. Foi extremamente prazeroso, como tem sido em outras produções baianas, mas contextualizada na maturidade daquele projeto, ver a marca da TVE apresentado a produção. Viva a comunicação pública!
A vida urdida pelos próprios protagonistas, com textos previamente escritos e outros brotados no momento mesmo da encenação ou do depoimento, me aproxima da gestação de um cinema que vem sendo buscado, mas que se realiza totalmente em “Jonas e o Circo sem Lona” de Paula Gomes e em “A Cidade do Futuro” de Cláudio e Marília.
Fiquei mobilizado como cineasta, documentarista, ficcionista, com a narrativa que confunde a equipe e o espectador na hora de precisar seu gênero. Tanta ficção na vida real e quanta realidade naquela narrativa. Quanta integração nos processos todos, porque o cinema é avassalador e o enquadramento ou o corte, é sempre fruto de todo o processo. Só com muita entrega coletiva, se alcança esse êxtase.
Quanta coisa foi mexida, para parecer que não se interferiu em nada. Tanta verdade se expressa na construção que os próprios atores, personagens que carregam seus próprios nomes, ou na exclusão de nomes de depoentes, para parecer que eram personagens de ficção, cronograma que foi mexido a partir de uma gravidez real. De duas gestações, uma nos personagens e outra nos diretores.
Que momento de lucidez cinematográfica, ao parecer que não estamos nem aí para os dados de realidade, mas pactuando com a segurança de um médico cubano, naquele “fim de mundo”, afastado do “tudo” que significa sua família, para prestar um serviço e agregar a “nossa”, do filme. Em um país carente de pais, nos vemos diante de uma criança com dois. Quando tudo passa, fica a sensação que também fazemos parte daquela família, temos responsabilidade com aquelas pessoas e com Heitor (o que vai nascer). Como diz o ditado Assanti (da África sub-saariana), “para educar uma criança, é preciso pelo menos um bairro inteiro”.
Quanta clareza, para rapida e firmemente, em poucos momentos, apresentar o que ocorre no Brasil com os atingidos pelas barragens, principalmente no período militar e em todos os autoritarismos, sejam técnicos, políticos, jurídicos ou midiáticos. Que beleza ao nos apresentar uma nova ruralidade sobre duas rodas, com piscinas temáticas e som eletrificado. Que composição oportuna, da violência contida nos jogos eletrônicos com o sentimento expresso pelo personagem. Tantos fragmentos da contemporaneidade, contextualizados brevemente em uma narrativa necessária.
Fiquei instigado como cidadão, realizador de audiovisuais, baiano, brasileiro, vendo cineastas afirmando que só queriam contar uma história e ver como que as vivências são reveladoras de conflitos do cotidiano. Os realizadores do filme em pouquíssimas palavras, deram conta de muitas questões e criaram novos desafios para além, para todos que passarem no caminho desse trabalho, que forem tocados pelas suas projeções. O filme é capaz de transformar pessoas? É capaz de transformar o mundo? Isso pode parecer muita pretensão e se partirmos para qualquer ação achando que é isso o que faremos, já acordaremos estufados e paralisados, absortos e compenetrados, na nossa própria ideia de que temos essa tarefa.
O que existe na realidade, é que mudamos e somos transformados a cada momento, por gestos simples e ações concretas. Podemos dizer sim, que estamos diante de mais uma obra cinematográfica que não permite que você continue o mesmo depois de ser tocado por ela.
E o que dizer das personagens e da liga que hoje amplia os seus territórios para além da tela? O filme dialoga com o clássico “Cabra Marcado pra Morrer” de Eduardo Coutinho, quando após uma interrupção de mais de 20 anos de ditadura militar, o documentário, vai em busca de pessoas que se perderam, mudaram de nome, se camuflaram para sobreviver e que o filme vai na sua trajetória, recompondo a família. Esse filme constitui a família brasileira, reata relacionamentos e os configura na visibilidade, na perda do medo, no reconhecimento, no pertencimento às suas próprias vidas.
Ao final da sessão, na minha fala, usei a palavra integridade. Esse foi meu sentimento, minha emoção e minha gratidão com o que se passava e dá sentido a tudo que estava ao meu redor. Amei que minha companheira e minha filha tivessem visto dois dias atrás, o lançamento em São Paulo, amei estar sentado ao lado do meu filho e da minha norinha, amei me vê nos agradecimentos e nem saber porque estava ali. Amei ouvir as pessoas depois do filme, abraçar os atores, os diretores. Amei fazer parte de tudo isso!

 

 

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