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por Roberto Duarte

 

Desastres podem ser evitados. Desastres vão continuar a acontecer.
As consequências dos desastres são imprevisíveis e às vezes provocam perdas definitivas, irreparáveis e dolorosas.
As perdas doem, emocionam, revoltam e provocam reações às vezes tão imprevisíveis quanto os próprios desastres.
Me emociono e tenho sido levado às lágrimas algumas vezes diante das imagens do noticiário do naufrágio da “lanchinha de Mar Grande”: mortes, perdas, dores, tristeza e revolta.
A revolta deve ser proporcional ao grau de experiência e de intimidade da perda. Será diferente entre os casos de perda de parentes de primeiro grau e os casos de simples empatia pelo sentimento de tristeza dos diretamente envolvidos.
A revolta vai cobrar uma contrapartida na forma de uma catarse. Nada trará de volta quem morreu ou o que se perdeu. Mas haverá sempre um sentimento da necessidade de fazer justiça, seja lá o que isso signifique. Seja isso justo ou não.
A primeira ideia que vem às mentes em geral é a de punição dos culpados. Mas quem são os culpados?
Deus, deuses? O comandante e os marinheiros? Os proprietários da embarcação? As autoridades federais, estaduais, municipais? Os passageiros? O tempo? O barco? Quem?
Partilho a tristeza, vivo a perplexidade diante de tudo o que aconteceu e confesso que não sinto o impulso justiceiro. Meu sentimento primeiro se volta para perguntar qual foi a causa dos acontecimentos.
Me aterroriza um pouco a incapacidade dos meios de comunicação de reconstituírem os acontecimentos através dos relatos de envolvidos. Não vi nem ouvi qualquer referência ou relato do condutor do barco nem de qualquer outro tripulante.
Não sou perito em reconstituição de acidentes. Sou apenas um navegador amador há mais de trinta anos.
Usando a imaginação e juntando fragmentos dos relatos que ouvi, suponho que houve uma soma de fatos que levaram ao naufrágio. Possivelmente o fator decisivo foi a reação coletiva dos passageiros quando a chuva e o vento começaram a atingir um dos lados do barco e eles correram para o lado oposto, desequilibrando ou provocando uma inclinação excessiva para este lado. Isto aconteceu, segundo os relatos, logo após a passagem da lancha pelo farol que demarca a saída do ancoradouro de Mar Grande. Com peso deslocado para um dos lados e o barco já bastante inclinado, uma onda o atingiu e determinou a entrada de água que deve ter acentuado ainda mais a inclinação e tornado impossível o reequilíbrio natural do barco. Com essa adernada, os passageiros e tripulação devem ter sido jogados na água.
Segundo os números relatados até este momento, manhã da sexta feira, pouco mais de 24 horas após o naufrágio, entre 18 e 22 pessoas morreram afogadas ou por outros traumatismos. Muitas outras sofreram lesões físicas, traumas psicológicos e perdas materiais.
Há coisas porém que não consegui entender nem vi qualquer referência a elas nos relatos das coberturas dos jornalistas.
O que aconteceu depois que o barco “virou” e como ele foi parar encalhado sobre os recifes que as imagens das TVs mostraram?
Entre a saída do ancoradouro, perto do farol demarcador da entrada do porto e o ponto onde a lancha foi parar há uma distância, segundo relatos das TVs, de cerca de dois quilômetros.
Como ela navegou este percurso?
Me ocorrem diversas hipóteses. A primeira é a de que o barco não foi ao fundo e lá ficou, mas deve ter voltado a flutuar, mesmo semi inundada, e foi levado pelas águas a vento até o lugar do encalhe.
Há a alternativa do naufrágio ter se dado no local onde a lancha se encontra encalhada. Seria preciso então explicar como ela foi parar lá. Como navegou tão fora da rota prevista? Nenhum relato indica colisão com rochedos como causa do acidente. Então, devemos descartar esta hipótese alternativa e retornar às questões anteriores.
Perguntas: a inundação parou o motor? A tripulação foi lançada ao mar junto com os passageiros? O barco ficou mesmo à deriva até encalhar?
O inquérito instaurado pela Marinha deverá responder a essas questões e a outras que não me ocorrem agora.
Até aqui expus minha inquietação diante dos fatos diretamente ligados ao desastre. Mas não consigo parar por aí. É óbvio que existem causas indiretas e elas estão ligadas à organização, à regulamentação e ao empreendimento das atividades náuticas.
A organização e regulamentação devem caber aos órgãos civis do estado e à Marinha. O empreendimento cabe à iniciativa privada. Aqui entraríamos numa investigação sobre a história e a sociologia da atividade náutica como “pequeno negócio” de pescadores e transportadores, com pouco capital e equipamento precário. Deve haver estudos acadêmicos sobre esses temas. Eu desconheço.
O que prevalece na prática é que as pessoas se submetem por necessidade às condições precárias de navegação, por sua conta e risco. Tanto os profissionais como os usuários. Os órgão públicos, por mais normas e regras que estabeleçam, compartilham da precariedade dos meios não só de impor essas normas e regras como da responsabilidade social que teria ao inviabilizar a sobrevivência de amplas categorias profissionais que não teriam meios para cumprir as normas de segurança, como : portar equipamentos de navegação modernos (GPS, bússolas, anemômetros), meios de comunicação, equipamentos de salvatagem ( coletes, boias, botes, sinalizadores, foquetes etc) entre outras exigências.
Todo mundo tem direito ao pânico. Tem direito de correr para o lado oposto de onde vem a chuva fria e a ameaça de uma ducha de água gelada. Que fazer quando o exercício desse direito pode virar o barco? Por que temos uma recusa coletiva à norma e ao procedimento preventivo correto?
Por que é chato? Dá trabalho? É autoritarismo? É herança do coronelismo e dos sistemas militares que reprimiram e oprimiram as pessoas pobres e simples? Ok. Mas…
Imagino que, em termos imediatos, seja urgente que a autoridade marítima passe uma espécie de pente fino em toda navegação profissional de pesca, transporte e turismo. Urgente a criação e ou aplicação de normas de segurança mínimas, gradualmente mais severas, de acordo com os patamares de risco, seja pela dimensão da navegação em si, como a pesca em alto mar, por exemplo, seja pelas condições de mar e atmosféricas eventuais. É urgente o estabelecimento e a divulgação ampla dos critérios de patamares de risco e das atitudes apropriadas em cada um deles, chegando à suspensão dos serviços.
Treinamento emergencial obrigatório para todos os profissionais envolvidos. Revisão e avaliação dos currículos e graus de experiência dos marinheiros e comandantes. Preparação para lidar com as situações excepcionais e com o público em geral. Seminários teóricos e treinamento prático para renovação das licenças. Estabelecimento de rotinas de prevenção e segurança de acordo com os patamares de risco.
Outro ponto será a renovação das frotas de embarcações de transportes públicos. Aí entra a discussão entre os direitos adquiridos pelos concessionários dos serviços e os direitos dos usuários. Seguros não devolvem vidas perdidas.
Planos de médio e longo prazo para substituição das embarcações por modelos e concepções mais seguras. Concorrência entre projetos de embarcações e modernização dos ancoradouros, criação de fontes de recursos e financiamentos para renovação das frotas.
Por último, punições preventivas pelos desvios dos comportamentos padronizados estabelecidos, com ouvidorias para receber denúncias dos usuários. Perda de concessão em casos mais graves. E, por fim, campanha permanente de informação do público sobre como agir em casos extremos, para evitar pânico e comportamento irracional diante do perigo. E informar às pessoas que navegar é lindo mas o perigo sempre existe.

 

foto- Marina Silva (Correio)

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