Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Relembrando Hélio Silva

 

 

por Luiz Paulino dos Santos

 

A tua memória, Hélio Silva, eu não conseguiria trazê-la até nós, que fomos teus companheiros; aquela turma que convivia junto e dentro de uma mesma causa: o cinema e a justiça social – o que poderia ser inadequado nos dias de hoje.

E é por isso mesmo que afirmo que nós, da classe cinematográfica dessa época, estaremos sempre unidos; você, Hélio, daí, e nós daqui; todos dentro dessa luta, desse ideal. E neste sentido afirmo que a sua memória é uma memória viva e assim deverá permanecer em nossa história; justiça seja feita.

Lembro-me, Hélio, como se fosse hoje: nós, nos fins da década de 50, filmando pelas caatingas do nordeste. Denunciávamos o ‘opressor’ contra o ‘oprimido’, filmávamos tudo para mostrar o estado lastimável dos nossos irmãos nordestinos, vítimas das secas e dos senhores feudais. Humildes retirantes, acompanhados sempre de mulher e filhos, famintos, pedindo esmolas em latas de produtos da Nestlé, Esso, Swift… E você revoltado, comentando: “Mas isso é um absurdo!”

RIO 40 GRAUS, depois ZONA NORTE, filmes de nosso velho companheiro Nelson Pereira dos Santos, primeiros filmes ‘bras-realistas’, voltados tematicamente para o universo humano da periferia carioca, o morro. Filmes de pouquíssima grana, onde o sanduíche do amanhã era incerto. Material de sucata, câmara de filmar velha e obsoleta, onde você adaptou engrenagem afim de torná-la tecnicamente viável.

Do Rio você parte pra São Paulo para rodar O GRANDE MOMENTO, do nosso saudoso Roberto Santos; com a cara, a coragem e o talento, que era a matéria prima indispensável para se realizar aqueles magníficos filmes.

Muitos outros filmes vieram das suas mãos e do seu olho. Não lembro todos, mas MATRAGA de Guimarães e Roberto, o ‘santo socialista’, foi marcante; um Lampião de Aurélio Teixeira do qual ninguém lembra; MANDACARU, a mais exata tonalidade sertaneja que um filme nacional já teve; NAVALHA NA CARNE, de Braz Chediak, com Glauce Rocha, Jece Valadão, Emiliano Queiroz… A melhor adaptação de Plínio Marcos no cinema. O primeiro longa bahiano de ficção – REDENÇÃO, de Roberto Pires, entre outros: TOCAIA, A GRANDE FEIRA; A VIÚVA VIRGEM, de Pedro Rovai, um dos maiores fenômenos de bilheteria de sua época. Você também fotografou Paulo Coelho em OS MANSOS, um filme pornô da Sincro Filmes.

Apesar de não ser galã, provocou paixão em algumas atrizes famosas. Foi casado com Agostinha desde RIO 40 GRAUS, e tiveram dois filhos, Caio e Marcelo.

Sua filmografia, Hélio, sabemos, é bem maior do que o que é citado oficialmente. Fizemos juntos muitos documentários, comerciais para I. Rozemberg, e um livre e muito bom sobre a demolição da Lapa.

E, por incrível que pareça, um dos bons trabalhos que está sendo ignorado você fez comigo: CRUELDADE MORTAL; onde eu fui diretor do filme e você foi o diretor de fotografia. Filme de longa metragem rodado no ano de 1975, tendo com tema a violência na Baixada Fluminense. Inspirado em fato verídico, no meio da ditadura militar, uma denúncia, quando todos no cinema estavam praticamente amordaçados. Este filme repercutiu muito na imprensa e, de saída, foi escolhido para representar o Brasil no Festival de Nova Delhi, na Índia. E foram os próprios indianos que escolheram! Uma das atrizes, Marlene França, foi premiada em Gramado, e o filme só não representou o Brasil na Semana da Crítica, em Cannes, porque as forças ocultas ditatoriais o remeteram com as legendas trocadas!

E da minha parte, é melhor parar por aqui.

E então, Hélio, sabemos nós que foi esse filme o que mais uniu as nossas almas, eu como diretor de pouco valor e você como um fotógrafo sofredor. Mas com tudo isso fizemos um filme de verdade, está registrado pelo meu argumento e por sua fotografia e câmara, aqui e no astral, e isso ninguém poderá nos tirar. Verdade?

Peço-lhe que dê um abração no Jofre Soares e no Carnera, em todos os demais que fizeram o filme conosco e que já estão por aí, até receberem de Deus a licença para voltar. Acredito, meu irmão e companheiro, que nosso filme será mais reconhecido quando eu me for deste para o outro mundo. Você sabe, Hélio, como são essas coisas.

Luz, câmara, ação: lembra, companheiro, quando eu ia filmar o Velho que foi linchado se atracando na cruz, implorando a Deus e ao Padrinho Cícero para socorrê-lo? Mas todos foram impiedosos e aí eu falei: ‘Como eu gostaria de filmar isso bem de cima!’ Mas não tínhamos grua, nem pensar… Aí você me respondeu: ‘ E por que não?…

Armou-se a traquitana, agradeci aos maquinistas, e filmamos uma das cenas mais fortes e bonitas do filme. Obrigado, Hélio, daí onde você estiver, rezarei por você, porque bem sei que você é uma alma boa e que está nas mãos de Deus.

Não sei se poderia fazer isso dentro do meio cinematográfico, mas vou fazer:
– Rezem pela boa alma de Hélio Silva, que entre nós do cinema ele foi um homem de luz.

 

Deixe um comentário