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Por Giovanni Soares

 

A verdade é que o homem, diante do seu poder e da sua arrogância, meio que estacionou, enquanto a mulher entrou em movimento e não parou de avançar, conquistar, surpreender e, lógico, exigir seus direitos. Em boa parte do mundo e no Brasil.

A vida das mulheres em nossa Pindorama, independentemente de classe e raça, nunca foi fácil e nem um mar de rosas. Durante séculos resumiu-se ao lar, por mais modesto que fosse, “e sua função consistia em casar, gerar filhos para a pátria e plasmar o caráter dos cidadãos de amanhã”, além de tocar os afazeres domésticos.

Durante os três primeiros séculos pós-descobrimento – um período eminentemente colonial, patriarcal, escravista e rural –, o dia a dia das mulheres ficou praticamente inalterado: era da porta para dentro de casa. E mesmo assim com algumas limitações. Em Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre salienta que “A senhora de engenho quase nunca aparecia aos estranhos, é verdade; era entrar homem estranho em casa e ouvia-se logo o ruge-ruge de saias de mulher fugindo, o barulho de moças de chinelo sem meia se escondendo pelos quartos ou subindo as escadas. O que se dava tanto nos sobrados das cidades como nos engenhos.” As índias e africanas, mulheres escravizadas na zona agrária semifeudal, foram se tornando caboclas, cafuzas e mulatas caseiras, muitas “concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos”. A miscigenação foi irresistível, com o reconhecimento social e cultural da mistura (ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos), gerando aqui, em terra brasilis, um povo novo em um novo mundo.

Até meados do século 20, tudo parecia como dantes na questão feminina. O Código Civil brasileiro de 1926 ainda assegurava em muitas leis a inferioridade da mulher, dependente e subordinada ao homem-pai e ao homem-marido. E a justiça da época corroborava esses preceitos. “Isso pode ser atestado, por exemplo, no processo que seguiu ao pedido de separação de Cora de Magalhães, ocorrido na cidade de São Paulo em 1928. Ela propusera ação de desquite alegando, entre outros problemas conjugais, que levava uma vida de vexames e humilhações. O marido, Manoel Martins Erichsen, contra-atacou solicitando a reconvenção do processo – recurso que o transformava de réu em vítima. Erichsen inverteu os papéis, acusando a esposa de tê-lo injuriado gravemente ao recusar-se a viver sem sua companhia onde ele determinasse, de ter lhe usurpado o pátrio poder (ao internar em um colégio sem sua autorização uma das filhas do casal) e de tê-lo impedido de se encontrar com os filhos. A ação de Cora foi repelida por unanimidade, enquando a reconvenção foi julgada procedente.”, como contam Marina Maluf e Maria Lúcia Mott, em História da Vida Privada no Brasil. Acintes mil.

Como era um movimento irreversível, a elite aceitou fazer a abolição da escravatura, infelizmente sem se importar com as necessárias e fundamentais compensações sociais. Vieram os imigrantes (italianos, portugueses, espanhóis, turco-árabes e asiáticos), acrescentando sangue novo e culturas novas ao nosso processo inédito de formação racial. E aos poucos, mas muito aos poucos mesmo, as mulheres foram caminhando, seguindo em frente, derrubando barreiras, obtendo conquistas e vitórias. Sempre, vale ressaltar, sofrendo muitas ameaças e resistências.

Um avanço-símbolo, sem dúvida, foi o direito ao voto a partir de 1932. Sem cidadania representativa, óbvio, ficaria difícil chegar em algum lugar.

Mas as coisas começaram a mudar pra valer para as mulheres quando o Brasil fez o seu grande movimento de transição urbana, entre as décadas de 1950 e 1970, com a migração massiva do campo para a cidade. O feminismo foi se consolidando mais fortemente aí, a partir de uma convivência citadina mais intensa e do acesso à informação, construindo inclusive um discurso filosófico e político para romper os padrões tradicionais.

Após o baque inesperado do suicídio de Getúlio Vargas, o Brasil passou a viver uma euforia com JK, Brasília, industrialização, Bossa Nova, Cinema Novo, Tropicália, Teatro Opinião… A barra pesou com o golpe militar de 1964 e as mulheres entraram na luta, resistiram e muitas foram presas e covardemente torturadas. Pelo mundo afora, aconteciam os reflexos da Guerra Fria, da onda anticomunista na América Latina, dos protestos de 1968, do festival em Woodstock, das ideias de Simone de Beauvoir… Tudo isto misturado no caldeirão cultural e social do feminismo brasileiro provocou intensos debates, atitudes, mudanças e reflexões.

Como uma metamorfose ambulante, as mulheres sabem que ainda tem um monte de coisas para conquistar e não podem ficar paradas. O preconceito e a violência contra as mulheres ainda assustam num misto de covardia, humilhação, crueldade e medo.

Por sobrevivência e inquietação, é possível que algo realmente de novo no mundo aconteça a partir das mulheres. Como disse recentemente o jornalista Roberto Dias, “A energia delas é a melhor aposta para um futuro melhor”. As mulheres sabem o que querem.

O que as mulheres querem de forma plena é: respeito, igualdade (na medida do possível, pois homem e mulher são seres diferentes por natureza) e liberdade. Nada mais justo.

 

 

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