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por Jorge Alfredo

 

Em 1963, meus pais se mudaram para a Ribeira, um bairro de gente namoradora e bronzeada, onde aprendi a tocar violão, comecei a ler muita poesia, ouvir música e praticar esportes. Havia algo de paradisíaco no ar. Ainda cedinho, mamães e babás banhando crianças com o sol da manhã pelas calçadas. Adiante, rapazes e moças em trajes de banho a caminho da praia do Bogari; atletas de natação e remo ao lado de marinheiros e pescadores, tudo naquele ritmo cadenciado de beira mar, como que obedecendo ao balanço bem maneiro das pequenas vagas de enseada. De tardezinha, o velho hábito das famílias sentarem-se em cadeiras de lona ou espreguiçadeira, nas calçadas, à porta das casas para tomarem uma fresca, bater um papo, olhar o movimento, comentar a vida alheia. À noite, o flerte de esquina, os bêbados, os loucos, as serenatas dos apaixonados, a brincadeira, a certeza, enfim, que a Ribeira era o melhor lugar do mundo pra se viver.

Mais do que esse lado bucólico nos encantava a vida autônoma do bairro. Um morador da Ribeira poderia passar meses, até anos, se quisesse, sem ir ao centro da cidade. Pra quê? O bairro tinha opções de comércio, lazer, praias limpas e sem ondas, bons mercados, açougues, peixarias, uma ótima feira livre, armazéns e armarinhos, lojas, cinemas, belas e tradicionais igrejas, bons colégios públicos e particulares, clubes sociais, postos de saúde, delegacia de polícia, uma afamada sorveteria, eventos culturais e desportivos, festas religiosas e pagãs.

Suas ruas eram de paralelepípedos, adornadas de árvores frondosas, de boa sombra, uma imensa balaustrada voltada para o mar, com visão presepial do subúrbio, com o trem sobre a ponte Plataforma-Lobato fazendo ecoar um barulhinho de recanto do interior. A península era ancoradouro natural para navios de pequeno porte, barcos e veleiros. O vapor de Cachoeira fazia ali seus reparos, navegadores faziam suas amarrações e contavam histórias de além mar. Os saveiros traziam do recôncavo muita fruta, pescado, verdura, farinha de primeira e mel de abelha. Por ali também era fácil comprar uma calça Lee, um perfume francês e o uísque de contrabando.

Como se não bastasse, nas imensas coroas da maré vazante, milhares de famílias tiravam seu sustento catando papa-fumo, pescando camarão, colecionando búzios e contas para colares. Na maré cheia era só jogar o anzol da balaustrada e pescar curimãs e tainhas à vontade. Uma fartura. Não se morria de fome na Ribeira. Talvez essas características quase paradisíacas do local justifiquem o sentimento bairrista que os moradores da Ribeira sempre cultivaram ao extremo, passando isso de geração em geração. “Na natação e no confete, no remo e no basquete, só dá Itapagipe”, ufanavam-se. De fato, a performance itapagipana em competições esportivas era de alto nível. E tinham as festas da Boa Viagem, do Bonfim e da Segunda-feira Gorda da Ribeira – esta, uma festa tipicamente pagã, primeiro grito de carnaval da Bahia, quando sempre o trio elétrico de Dodô e Osmar estreava o carro de som para o reinado de Momo.

Em geral, rapazes e moças de Itapagipe namoravam, noivavam e casavam por lá mesmo, entre eles. Um rapaz de outro bairro não tinha boa receptividade dos nativos. Havia até um pacto entre os da tribo da Ribeira de não deixarem os forasteiros manchar o nome do bairro. “Malandros, só os daqui mesmo.” Um delírio tribal.

Apesar do bairrismo dos itapagipanos, meus pais, em 65, me colocaram para estudar na cidade alta,  no Ginásio São Bento. Isso foi muito bom para minha formação; ampliou meu horizonte social e físico da cidade de Salvador. Foi lá que eu tive o primeiro contato com a política, no grêmio estudantil; era tempo das passeatas e manifestações de protestos. Mas principalmente, foi lá onde aprendi  alguns segredos da língua de Camões com Dom Norberto, ele explicava as origens das palavras, do latim, do grego, do tupi-guarani, e foi também no São Bento que aprendi com alguns colegas a ler cifras para violão e piano.

Eu vinha da Ribeira de lotação, saltava na praça Cairu, subia o elevador Lacerda, andava pela rua Chile, praça Castro Alves e subia a ladeira de São Bento todos os dias. Cuíca de Santo Amaro, a mulher de Roxo e Florípes eram figuras que habitavam meu dia a dia. Na cidade alta fiz novos amigos e  logo me matriculei no ICBA para tomar curso de alemão e conseguir ler Rainer Maria Rilke.

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Um certo dia, passando pelo Campo Grande; acompanhado por um colega, Zezinho, que sabia falar inglês e gostava de tocar músicas americanas, presenciamos uma cena inesquecível; um grupo parado ao pé do caboclo, provavelmente músicos, já que carregavam caixas de instrumentos musicais, e no meio deles uma mulher de traços fortes, vestida de forma muito estranha, gesticulando muito, rindo à toa, com um comportamento, que apesar de agressivo, tinha uma aura, um troço que eu nunca tinha visto antes em ninguém. Paramos e ficamos ali observando o que estava acontecendo, já que não era uma cena do nosso cotidiano. As roupas, os cabelos, os anéis, tudo era muito interessante. Seriam hippies estrangeiros? A língua que eles falavam era inglês, isso eu não tive dúvida, mas eu não entendia quase nada do que eles diziam. Zezinho, ao contrário, sacou nas entre linhas da conversa deles, que eles tinham sido expulsos do Hotel da Bahia por promoverem uma quebradeira num dos apartamentos. Hippies no Hotel da Bahia?  Isso não fazia sentido, eu pensei, meu amigo precisa estudar mais inglês. Eu sabia o que era isso, eu já estava no segundo ano de alemão e nos filmes que o ICBA exibia eu não entendia nada do que se falava. Normal… Ficamos um bom tempo ali achando tudo muito louco e surpreendente. Num dado momento, ela dirigiu um olhar para nós e falou umas coisas. Zezinho traduziu para mim que ela dizia “que se não fosse aquela hora tão inoportuna ela nos levaria pro quarto do hotel.”  Continuei achando que Zezinho precisava estudar mais inglês. Eu fiquei impressionado com o jeans que um dos rapazes vestia, era de um desbotado genial, tudo neles parecia moderno demais, mas eu tinha o que fazer e não quis permanecer mais tempo ali de bobeira. Saí dali impressionado, sozinho, já que Zezinho disse que ia dar mais um tempo. Meses depois, assistindo no Cine Capri o filme Woodstock eu senti um calafrio quando reconheci na tela grande aquela mulher que eu vira no Campo Grande. Era Janis Joplin, que se consagraria junto com Jimi Hendrix, naquele grande festival, e se tornariam grandes ídolos da minha geração. Até hoje eu me pergunto por que diabos eu não acreditei no inglês de Zezinho.

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foto de Suki Villas-Boas

 

 

11 Comentários...

  1. Bohumila Araujo disse:

    Adorei o artigo que mostra como é importante resgatar a memória das nossas vivências.

  2. Anete Carvalho disse:

    Península maravilhosa

  3. Mirtes Ribeiro disse:

    Quanta lembrança boa em ler e reler tudo que João Alfredo escreveu, muitas coisas vivenciei, só quem morou ou ainda mora na Ribeira desde aquela época sabe o quanto foi bom . Quanto aos namorados que não eram da Península realmente não eram aceitos, eu mesmo tinha que esperar no ponto de ônibus e na hora de ir embora colocá-lo no ônibus senão era capaz de sair de lá apanhado. Quando a gente dizia que morava na Ribeira ninguém queria ir lá. Mas, também era muito gostoso ir para festa no Clube que tinha na calçada na rua Barão de Cotegipe e retornar no final da festa andando com os pés descalços e os guardas noturno nos acompanhava sem perigo algum dos riscos que enfrentamos hoje.As festas no Itapagipe inesquecíveis. Todos nós daquela época éramos felizes e não sabíamos. Valeu por tudo. Adorei !

  4. Carlos Costa disse:

    Amigos e irmãos, eramos todos assim, todos tinham seus grupos suas tribos , mais a alegria, da rua da Alegria, sempre nos deixa saudades, dos Palhaços, do pau de sebo, dos babas na chuva, nas festas de radiola , do encontro certeiro e festivo da balaustrada, uma festa só. Saudades dos amigos que se foram e de muitos que não vemos mais. Tinha um tal de Santana que fazia as artes, KKKKKK.

  5. Reinaldo Nunes disse:

    Parabéns pelo testo, fantástico, eu sou morador da Ribeira e digo que mesmo sendo de 1969 pra cá, e vivendo em outros bairros e estados, sempre vou me considerar Nativo da Tribo Ribeira! Amo esse lugar!

  6. Vera Marina Politano disse:

    Ribeira da minha infância, da minha família e de lembranças que até hoje alimentam meus melhores sonhos!!! Linda crônica!!

  7. taya soledade disse:

    Maravilha, jorge alfredo! Sou da turma da ribeira!!! Abs taya

  8. Muito bom Jorge, você é um grande cronista. Um Axé.

  9. Zeco disse:

    Genial, Bode! Se Joplin tivesse a oportunidade pretendida, quem sabe não tivesse aprendido a amar a vida?

  10. Mauricio disse:

    Lindo! “Foi na Ribeira nesse barco amigo
    Que aprendi contigo coisas sobre o mar…..
    …..
    Foi lá, no dique velho ou na balaustrada
    sempre em disparada lá toda manhã,
    Compreendia que o cigarro aceso
    Era mais um segredo para curimã….”

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