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Por Giovanni Soares

 

Depois que Rita Lee deixou os palcos — voltando-se para a família, especialmente para a neta Ziza e os inseparáveis bichos —, a roqueira-mor do Brasil resolveu contar um pouco da sua vida, escrevendo ela mesma a sua biografia, sem auxílio de ghost-writers.

E Rita Lee foi escrevendo o seu livro sem se preocupar muito com datas, dados e certos detalhes. Não por acaso, aparece um Phantom de quando em vez para corrigir e ajustar alguns fatos que a cantora e compositora não se lembrou ou foi traída pela memória.

Engraçado que, como Arnaldo e Sérgio Dias Baptista moravam na Pompeia no período dos Mutantes, muita gente achava que Rita Lee também era de lá. Mas não. Ela nasceu e morou anos e anos em um antigo casarão na Vila Mariana.

O pai era filho de imigrantes norte-americanos (descendentes de uma índia da tribo Cherokee com um branco de ascendência escocesa), e a mãe, filha de imigrantes italianos. Ou seja, filha de mestiço, mestiça é.

O sobrenome Lee Jones não pegava muito bem nos tempos da ditadura militar, nos anos de 1960, sobretudo entre os comunistas. Tanto que ela até pensou em abrasileirar o nome para “Rita Lea Gomes”. Mas, para o bem da música popular brasileira, acabou assumindo a “hiponga comunista com um pé no imperialismo”.

Fã ardorosa de James Dean, Rita Lee ingressou na música através das apresentações colegiais. Foi quando conheceu os irmãos Dias Baptista e começaram a tocar juntos. O nome “Mutantes” foi uma sugestão de Ronnie Von, a partir do livro O império dos mutantes, que conta a história de seres de outro planeta que se transformavam em infinitas formas de vida para conquistar a Terra.

Na época dos festivais da Record, nos anos sessentas, os Mutantes foram convidados pelo maestro Chiquinho de Moraes para fazer backing vocal na gravação de Nana Caymmi da música “Bom dia”, de Gilberto Gil. E assim os Mutantes acabaram conhecendo o cantor e compositor baiano nos estúdios, que ficou impressionado com as guitarras e a parafernália high-tech dos roqueiros. Na mesma hora aconteceu o convite para a banda participar da gravação e da apresentação de “Domingo no parque”, no próprio festival. Era o rock brasileiro, ao lado do pessoal da Jovem Guarda, botando as asas pra fora.

Rita Lee colou nos baianos e na trupe dos tropicalistas, frequentando o apartamento de Caetano e Gil na avenida São Luís, região central de São Paulo, que ela chama no livro de “QG Bahia”. Rita diz: “Gil e Caetano deram o mapa de como fazer letra e música em português, além de nos presentearem com ‘Panis et circenses’, cuja composição em apenas quinze minutos eu, deslumbrada, testemunhei. Observando a facilidade com que os caras compunham músicas enquanto conversavam aleatoriamente, aprendi a respeitar o ‘santo’: aquela inspiração espontânea que baixa como um sussurro e te faz registrar no papel um pedaço de letra, dedilhar uma melodia, uma harmonia. A coisa ia se delineando sem querer querendo e, quando ia ver, já estava pronta.”

Por falta de “calibre como instrumentista” para desenvolver um rock na linha “progressiva-virtuose”, Rita Lee conta que foi posta para fora dos Mutantes por Arnaldo Dias. Para muitos, ou quase todos, era preciso ter culhões para ser roqueiro nessa época. Contudo, Rita Lee nunca se intimidou com esse tipo de preconceito. Foi a partir daí que ela se juntou a Luis Sérgio Carlini, Lee Marcucci e outros músicos da banda Tutti Frutti. Lançaram inclusive um álbum antológico do rock brasileiro: Fruto proibido. Um clássico. Basta conferir “Ovelha negra”, “Agora só falta você”, “Luz del fuego”, “Dançar pra não dançar” e “Esse tal de roquenrou”. Sucesso total! Um tempo em que Rita Lee fez várias músicas com Paulo Coelho, “recém-separado de Raul”.

Um ponto de virada na vida e na carreira. Certa feita, Ney Matogrosso pediu uma música para Rita Lee e ela compôs “Bandido corazón”. Na sequência, Ney mandou uma fita K7 com uma gravação da música, que Rita Lee ficou completamente apaixonada pela guitarra do arranjo. Quando foi ver, era Roberto de Carvalho, que ela conheceu, se apaixonou, se casou, teve três filhos e produziram uma série de músicas e discos. Um sucesso atrás do outro.

“Lança perfume”, por exemplo, estourou nas paradas, aqui e no exterior. Entre as diversas versões, em diversas línguas (até em hebraico!), a que Rita Lee mais curte é a francesa de Henri Salvador, “Question de choix”, muito executada nas rádios europeias na época.

Para surpresa de muitos, Rita Lee foi amiga-irmã de Elis Regina, a quem chamava de “Maria Elis”, que retribuía chamando Rita Lee de “Maria Rita”. Está aí, então, a origem do nome da filha de Elis e Cesar Camargo Mariano, hoje também cantora.

Em 1991, Rita Lee lançou Bossa’n’roll — ao vivo, disco pioneiro no formato acústico, que acabou incorporado pela MTV. Outra coisa: ela é a cantora com o maior número de músicas em trilha sonora de novela no Brasil.

O seu último show aconteceu no dia 25 de janeiro de 2013, no aniversário de 459 anos da cidade de São Paulo, numa apresentação no Anhangabaú. Segundo ela: “Missão cumprida au grand complet.”

Capricorniana e intensa, criada numa família de seis mulheres, Rita Lee curtiu todas e muitas e muitas vezes perdeu o tom. Entre uma overdose aqui, um internamento ali e um fundo do posso acolá, Rita Lee foi vivendo e sobrevivendo. Afinal, loucura pouca é bobagem.

No final do livro, Rita Lee declara: “Não faço a Madalena arrependida com discursinho antidroga, não me culpo por ter entrado em muitas, eu me orgulho de ter saído de todas. Reconheço que minhas melhores músicas foram compostas em estado alterado, as piores também.”

E faz um presságio: “Quando eu morrer, posso imaginar as palavras de carinho de quem me detesta. Algumas rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá, colegas dirão que farei falta no mundo da música, quem sabe até deem meu nome para uma rua sem saída. Os fãs, esses sinceros, empunharão capas dos meus discos e entoarão ‘Ovelha negra’, as TVs já devem ter na manga um resumo da minha trajetória para exibir no telejornal do dia e uma notinha de obituário de alguma revista há de sair. Nas redes virtuais, alguns dirão: ‘Ué, pensei que a véia já tivesse morrido, kkk’. Nenhum político se atreverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca compareci ao palanque de nenhum deles e me levantaria do caixão para vaiá-los. Enquanto isso, estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus: ‘Thank you lord, finally sedated’. Epitáfio: Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa.”

Mas as histórias de Rita Lee não vão parar por aí. A cantora e compositora paulistana assinou recentemente contrato de produção com a Biônica Filmes para realização de um longa-metragem baseado no livro. O roteiro ficará por conta de Nelson Motta e Patrícia Andrade. Vamos então aguardar a cinebiografia de uma menina loira da cidade industrial, que apareceu solta, decidida, cheia de vida etcétera e tal, cantando yê, yê, yê, yê, yê, yê, yê…

 

 

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