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por Tuzé de Abreu

 

 

Conheci Rogério Duarte num carnaval, fantasiado de índio. Mas eu já sabia muito sobre ele  através de Caetano Veloso, seu amigo, e mais tarde compadre. Rogério foi o padrinho de Moreno Veloso. Era um sujeito muito inteligente e multitalentoso. Foi uma das pessoas centrais do Tropicalismo, embora não esteja na capa do disco ícone do movimento. Ele também trabalhou com Smetak , tendo sido com Gilberto Gil, os únicos da nossa turma smetakiana a estudar a Eubiose, dissidência brasileira da Teosofia,  que norteou  seus (de Smetak) trabalhos  a partir do final dos anos de 1940 e  principalmente a partir da sua chegada à Bahia, em 1957.

Rogério, da nossa turma, foi o que foi mais longe no estudo da Eubiose. Mais tarde tornou-se” Hare Krishna”, estudou sânscrito, falava e escrevia perfeitamente este idioma, traduziu livros e poemas  dele para o português. José Walter Lima, também nosso amigo há décadas, fez um filme sobre Smetak (O Alquimista do Som ) e outro sobre Rogério Duarte. Seria uma temeridade minha pretender  escrever amplamente sobre Rogério.  Poeta, designer, músico, enxadrista,  escritor, fazendeiro, geólogo (sem diploma) e muitas coisas mais. Vou apenas falar um pouco de contatos  pessoais meus  com ele.

Fizemos parte do primeiro “Violão de Microtom”, criação de Smetak. Um Violão de Microtom divide-se em seis violões , com preparação diferente do violão mais comum. Não vou entrar em detalhe porque é complicado, mesmo para quem sabe música. Este grupo era formado por; Fredera (guitarrista que tocava com Gil), no violão com as cordas mi prima, Gereba, no violão com as cordas si, Gilberto Gil , no violão com as cordas sol, eu, no violão com as cordas ré, Rogério, no violão com as cordas lá , e Capenga (baixista que tocava com Gereba) no violão com as cordas mi bordão.

Vivemos algumas aventuras juntos, fomos vizinhos, morando em apartamentos frente a frente, bastava atravessar o corredor, no Tambá, no morro do Vidigal no Rio de Janeiro. Fizemos uma canção de parceria (Prece), tocamos certa vez a Bachiana número cinco de Villa-Lobos (violão e flauta) no teatro do ICBA – com muita emoção toquei  no funeral dele em Santa Inês, a Ave-maria de Bach/Gounod, acompanhado ao violão pelo querido Moreno Veloso, como já disse antes, afilhado de Rogério.

Há alguns anos houve um evento smetakiano na Reitoria da UFBA. Entre os músicos convidados para tocar, a maioria jovem, estávamos Gereba, Rogério e eu, únicos que tinham trabalhado com o próprio Smetak. Vale dizer que  nesta época  Rogério tinha feito apenas uma viagem ao exterior, ao Paraguai. Anos depois disto foi feita uma belíssima exposição em Frankfurt, com suas obras visuais, onde ele foi, tendo sido muito bem aceito.

Mas, voltando à Reitoria.

Enquanto a equipe de montagem fazia o seu trabalho com equipamentos e elementos cênicos, Rogério, cercado pelos músicos jovens, falava brilhantemente sobre a Índia, sua cultura, sua religiosidade e muitas outras coisas. Ouvir Rogério falar de um dos muitos assuntos que conhecia, era maravilhoso. Depois de um bom tempo, um dos jovens, fascinado, perguntou: “Rogério , você já esteve na Índia?”

Ele:  “Não , eu ESTOU na Índia”.

Como ele tinha um apartamento aqui perto, várias vezes sinto falta de ir até lá, como fui muito, para desfrutar da sua conversa  extraordinária.

 

 

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