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por Adalberto Meirelles

 (publicado, em 2011, no C de Cinema)

 

É pecado falar sobre A Crítica Cinematográfica na Bahia sem se deter no papel da Sala Walter da Silveira na formação de críticos, cinéfilos e o público interessado em um cinema que não é absorvido pelas salas comerciais. Durante um longo período, foi como um templo da cultura cinematográfica baiana. Inaugurada no final dos anos 1970, teve como responsável, por vários anos, o cineasta Walter Lima, que passou a programar filmes no então auditório da Biblioteca Pública do Estado, nos Barris, ao receber um projetor em 35mm do Palácio de Ondina. Na Walter da Silveira se formaram pelo menos duas gerações de críticos e cinéfilos, que tiveram acesso à escola russa, ao expressionismo alemão, ao cinema japonês, ao neorrealismo italiano, à nouvelle vague francesa, aos cinema novo brasileiro, às mostras dos grandes autores do cinema como Bergman, Fellini, Antonioni, Visconti, Wajda, Pasolini, ao cinema transgressor de Polanski, em sua nascente, A Faca na Água. Havia alguns outros cinemas de arte na Bahia, nos anos 1980. O cine Rio vermelho exibiu grandes mostras durante algum tempo, tudo do novo cinema novo alemão e do expressionismo podia ser visto no cine-teatro do Icba, que vinha de um momento de efervescência nos anos 1970, com a realização da Jornada de Cinema da Bahia. O teatro Maria Bethânia marcou época alternando exibições do então chamado cinema de arte com espetáculos musicais e teatrais e o Bahiano de Tênis destinou seu auditório ao cinema e ao teatro. Era o chamado Expresso Bahiano, que teve sua boa fase, muito antes de surgir o circuito Sala de Arte.Mas foi a Sala Walter da Silveira, antes chamada de Cinema de Arte da Bahia, ou simplesmente a sala da Biblioteca Central, a régua e o compasso. Para lá corriam todos os grandes filmes que o circuito comercial não conseguia segurar por mais de uma semana ou que se recusava a exibir, por considerá-los difíceis. Ali, a partir do final dos anos 1980, acompanhamos vários booms cinematográficos. O do cinema chinês, por exemplo. Um filme de Zhang Yimou não ia bem em outro cinema, ou seus primeiros filmes não interessavam ao circuito comercial? A Walter da Silveira exibia. O badalado Wong Kar-Wai teve seus primeiros filmes vistos na Bahia ali. E o que dizer de Kieslowski, alçado a cult depois que não Amarás e Não Matarás, extraídos da série para televisão Decálogo, fizeram sucesso na Europa? A Trilogia das Cores – A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha –, do mesmo Kieslowski, encontraram pouso por várias semanas na Walter da Silveira, assim como o cinema iraniano, para o qual se deslocava quase todo o interesse dos circuitos alternativos em meados dos anos 1990.Com o fechamento da Biblioteca Pública para reforma, em 1996, o cinema alternativo foi transferido, com sucesso, para o Cinema do Museu, retornando depois para os Barris, onde encontrou público em curva ascendente até atingir o clímax com Buena Vista Social Club, filme de Wim Wenders que ficou quase um ano em cartaz na Sala Walter da Silveira e foi um dos maiores sucessos do cinema alternativo no país.

O tempo então, já no início dos anos 2000, era outro, com a burocracia exigindo documentos e documentos para abrir processos e pagar o aluguel de filmes, o que inviabilizou a Sala Walter da Silveira em seu papel de espaço de lançamento de filmes alternativos, cedendo lugar, então, ao cinema do Bahiano de Tênis e, então, ao sucesso do circuito SaladeArte. Ainda hoje há um trabalho importante de curadoria desenvolvido pelo programador Adolfo Gomes, mas as exibições, como na Sala Alexandre Robatto, são em DVD.

Hoje temos o circuito Sala de Arte e o Espaço Unibanco Glauber Rocha, que cumprem função intermediária entre o cinema dito alternativo e o comercial. Mas é pouco. Há alguns meses uma grande mostra de Alfred Hitchcock foi exibida no Rio e em São Paulo. O mesmo aconteceu com Vincente Minelli e Claude Chabrol. Cópia de uma das obras-primas de Luchino Visconti, Violência e Paixão, circula pelo país. E Salvador fica a ver navios. A Sala Walter da Silveira precisa voltar a ser aquele templo de cinema, com um bom sistema de projeção digital e projeção em 35mm. A menos que o governo do estado guarde outro coelho na cartola.

Sala Walter da Silveira

por André Setaro

(publicado no espaço de comentários no artigo acima)

 

Para registro histórico;

Instalada a Coordenação da Imagem e do Som no sub-solo da Biblioteca Central dos Barris (a Fundação Cultural da Bahia surgiu em 1974), o seu primeiro coordenador (assim se chamava), Geraldo Machado, que depois viria a ser o diretor-executivo da Fundação, sucedendo a Valentin Calderon de la Barca, conseguiu que dois projetores 35mm fossem instalados no auditório da Biblioteca vindo do Palácio de Ondina, quando governador Antonio Carlos Magalhães., Mas Machado foi logo chamado para auxiliar o diretor-executivo, deixando, em seu lugar, como Coordenador da Imagem e Som, José Umberto, em 1976, que já era funcionário efetivado. A Fundação Cultural do Estado da Bahia funcionava num espaço exclusivo do Solar do Unhão. O controle e programação do auditório ficava a cargo da diretora da Biblioteca Central, que o destinava para a promoção de solenidades de formaturas das bibliotecárias e quermesses outras, deixando os dois projetores 35mm completamente inativos. Entre 1974 e 1977, o auditório ficou completavamente dasativado como cinema. José Umberto, então Coordenador da Imagem e do Som, realizou, então, duas contratações como prestadores de serviços: a de Alonso Rodrigues (já falecido) para a manutenção dos equipamentos (principalmente das duas moviolas recém-adquiridas e câmeras) e a de André Setaro (sim, sou eu mesmo) para programar com filmes o auditório. Umberto, conversando com Valentin Calderón, conseguiu deste que enviasse um ofício à diretora da Biblioteca para destiná-lo somente às quartas para as sessões de cinema.

Com os parcos recursos disponíveis, apesar da existência dos projetores 35mm, a única saída foi realizar sessões com filmes em 16mm conseguidos através da Embrafilme, que possuía um bom acervo de fitas brasileiras. Assim começou a existência do auditório como sala alternativa “meia-boca”. O primeiro filme que foi exibido, em junho de 1977, “Como era gostoso o meu francês”, de Nelson Pereira dos Santos, foi um sucesso. A sala (que ainda não se chamava Walter da Silveira, mas Auditório da Biblioteca Central – ficou com o nome do ensaísta a partir de 1986)) lotou complemente, com gente saindo pelo “ladrão”. O ano de 1977 registra o início das atividades cinematográficas do citado auditório e, durante os demais meses, a programação foi toda feita de fitas brasileiras, excetuando-se uma mostra do cinema português e uma mostra do novo cinema alemão (que conseguiram ser exibidas de quarta a sexta), e uma inesquecível projeção de “O ano passado em Marienbad” (outubro de 1977), de Alain Resnais, com a presença de seu roteirista Alain-Robbe Grillet, que deu uma palestra para atônitos espectadores. Grillet (a projeção foi em 16mm com cópia cedida pela Aliança Francesa e sem legendas), aborrecido com a qualidade da projeção, foi comigo (responsável pela programação) à cabine de exibição para ver se dava um jeito, e falou em francês com o operador, seu Vitório, homem simples, operoso e humilde, que ficou estupefato sem nada entender. No ano seguinte, 1978, a duras penas, Calderón conseguiu da Professora Esmeralda (acho que era esse nome) a disponibilidade do auditório para filmes de quarta a sexta. E com mais um pouco de folga nos recursos ainda parcos, foram alugados, nas distribuidoras da Cidade Baixa, principalmente a Art, filmes em 35mm do cinema europeu e, entre as programações, de quarta a sexta, uma das mais notáveis foi uma mostra dedicada a Bergman, um filme por dia, que levou um mês. A independência do auditório das garras das bibliotecárias somente viria, porém, na gestão de Geraldo Machado, que ficou como substituto de Calderón à frente da Fundação, e colocou, como Coordenador da Imagem e Som, José Walter Lima à frente da programação, executada, e também programada, por José Umberto. André Setaro saiu da responsabilidade de programar para entrar, como professor, na Escola de Biblioteconomia e Comunicação, além de continuar, desde 1974, como comentarista com coluna diária da Tribuna da Bahia, antes passando por uma experiência como redator do Diário de Notícias nos seus estertores, quando uma torre da Tv Itapoã caiu em cima da redação e o jornal se extinguiu. Não havia, naquela época, vhs nem dvd, e a ditadura imperava forte, e os baianos somente tinham como alternativa o auditório da Biblioteca Central, que ficava lotada com as mostras de Godard, Buñuel, entre tantas!

Mas, para encerrar o registro histórico dos primórdios do cinema no auditório da Biblioteca Central, vale ressaltar que José Walter Pinto Lima (mais conhecido como Waltinho, que, atualmente, organiza e é o idealizador do exitoso Cine Futuro, além de cineasta), levou anos para conseguir (vejam o que é a burocracia) reformar a sala e dar, a ela, o nome do ilustre Walter da Silveira, que afinal aconteceu em 1986. Reinaugurada com o nome do maior ensaísta cinematográfico baiano de todos os tempos, instalado o desastroso governo Waldir Pires (votei nele, votei nele…), a inoperância administrativa foi tamanha que a Sala Walter da Silveira fechou suas portas por algum tempo – não confundir com o fechamento para bela reforma em 1996, quando as exibições foram transferidas para o simpático Cinema do Museu (hoje em petição de miséria). Nos anos 90, com a volta de ACM (não sou carlista, constato apenas fatos), volta também a coordenar a DIMAS o operoso Walter Lima, que contratou Adalberto Meireles para a ser o executivo da programação da sala, que, reformada, ajeitada, trouxe aos cinéfilos baianos uma programação excelente. O momento maior da sala está na adminstração do autor deste blog no qual me atrevo a fazer esse pequeno histórico. Capacidade perceptiva acima da média na percepção da poética cinematográfica, atento observador da arte do filme, Adalberto Meireles, sobre ser um excelente crítico e amante do bom cinema, soube fazer uma programação que, em certos momentos, dava a impressão de a Sala Walter da Silveira ser uma pequena cinemateca. Os anos 90 viram, sob a sua direção programativa, as luzes da arte e do bom cinema. Mas não posso encerrar sem fazer outra ressalva. Com a saída de Meireles, entrou Adolfo Gomes, fino conhecedor dos labirintos da arte fílmica, crítico penetrante, ainda que bissexto.

Um Comentário...

  1. Marivaldo dos Santos Mendonça disse:

    Muito bom artigo e um apelo ao aprendizado.Passarei a frequentar sempre que for possível.A propósito, assisti a entrega de prémios pela academia de ciência cinematográficas do Brasil e me ressenti da produção baiana de cinema .Uma verdadeira aula,fiquei a saber da instalação do primeiro curso de cinema pela UFF e que o cineasta Nelson Pereira dos Santos foi o seu grande mentor.

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