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por Jorge Alfredo

O ICBA inaugurava o seu teatro em 1974 e Salve o Prazer foi o segundo show a ser realizado ali; o primeiro foi o do Grupo Bendegó. Havíamos ensaiado durante meses o nosso repertório; os encontros na Ribeira se tornaram mais frequentes. Armandinho se revelava um arranjador com uma criatividade fora de série; o arranjo que ele fez pra Contando Estórias é de uma originalidade espantosa e se tornou parte indispensável nessa composição minha em parceria com Jonar Brasileiro.  As minhas músicas não se situavam em padrões tradicionais; era um caldeirão de transgressões harmônicas. E com Armandinho isso tomou novos rumos. Eu nessa época influenciado pela sonoridade do disco Araçá Azul, que  Caetano fez praticamente em casa no gravador de 4 canais Teak, misturava todas as minhas lembranças musicais de forma tão avassaladora que me sentia um aprendiz de feiticeiro. Antonio Risério escreveu o texto do folder (vale a pena conferir) e em Ver de Ver e na versão de Blackbird, de John Lennon e Paul Mackartney, dava o start de uma parceria que resultou em muitas canções. O tratamento dado por Armandinho Macedo àqueles meus arremedos de canções anarquistas, as tornavam bem mais inteligíveis aos ouvidos e mentes pós tropicalistas. Mamoeiro Azarado, Notícias Suburbanas, Rato Miúdo, Falta Total, Contando Estórias, fizeram parte da lista de músicas de shows que realizei nessa época, mas permanecem até hoje inéditas em disco. Em 1979 quando gravei meu primeiro Lp Quem fica é quem traz o sol, eu as retirei do repertório porque Armandinho não pode participar do disco. Sem os arranjos dele nada daquilo fazia sentido pra mim. Ainda bem que tenho uma gravação caseira dessas músicas feitas na casa de Caetano, em 1975, no tal gravador Teak. Em Salve o Prazer, no final do show, Osmar Macedo subia no palco para uma participação especial e fazia malabarismos com o pau elétrico; número que se tornou bastante conhecido no ano seguinte com Moraes Moreira.

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Jorge Alfredo e Era Encarnação

Junto com Salve o Prazer veio a amizade com Anamelinha, Sylvinha, Mônica, Augusto de Campos e Ligia, Toni Costa, Erthos Albino que editava a revista Código, André Luiz, Pepeu, Renatinho. Através de Caetano e Dedé isso se ampliou ainda mais e veio Nando, Mauricio e Lucila, Tenório e Zélia, Péricles Cavalcante, Gil e Sandra, Gal, Mautner, Ruth e Carneirinho, Rogério Duarte e Telma, Zé Agripino… Foi com essas influencias que os ensaios de Salve o Prazer aconteceram. O grupo era formado assim; eu no violão e na voz, Era Encarnação, voz, Armandinho Macedo, arranjos, bandolim, guitarra portuguesa, craviola, guitarra e guitarra baiana,  Aroldinho, ainda muito jovem, na guitarra baiana, em alguns números, Ari Dias, bateria e percussão, Betinho, baixo elétrico, Alberto Nascimento, na percussão e Sérgio Souto, na flauta e sax alto (depois substituído por Tuzé de Abreu). Logo depois dessa temporada, de quarta a domingo no ICBA, voltamos a nos apresentar em outros lugares, e principalmente fomos convidados para ir pra São Paulo na Feira da Bahia, evento organizado pela Bahiatursa no Centro de Convenções do Anhembi para divulgar a cultura popular da Bahia.Lembro que Augusto de Campos foi comigo e Risério na casa de José Lino Grundwald e nos apresentou a gravação original (1932) de  “Alegria”, em 78 rpm, na voz de Orlando Silva. Eu cantava a musica de Assis Valente mais de memória mesmo, de ter escutado meu pai cantar. A nossa apresentação em São Paulo repetiu o sucesso de Salvador; mesmo com todas as grandes estrelas baianas da MPB sendo o centro das atenções – tinha de Dorival Caymmi a Riachão, dos tropicalistas aos Novos Baianos, só quem faltou mesmo foi João Gilberto; estava programado, mas não apareceu no dia. Mesmo assim causamos boa impressão. Principalmente o virtuosismo de Armandinho marcou forte presença naquele evento.

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contracapa do folder de Salve o Prazer – veja o set list do show.

Quando retornamos à Bahia, os fatos aconteceram muito rapidamente e eu vi escapar das minhas mãos o controle que eu julgava ter de certas coisas. Moraes Moreira, que havia iniciado uma carreira solo, a convite de Osmar gravou Jubileu de Prata e começou a tocar com Armandinho, subiu no trio elétrico cantando como eu fazia nos shows, e isso era mesmo natural que acontecesse. O fato é que não tinha espaço pra mim naquele momento!  As trilhas sonoras de novelas passaram a exercer influência muito forte na formação dos sucessos musicais. Como compositor talvez eu conseguisse ser gravado por um dos meus ídolos; (Gil em 73, grava com muito sucesso Eu só quero um xodó de Dominguinhos, em 74, Maracatu Atômico de Jorge Mautner.) Ele nessa época me chamou pra ir na casa dele gravar umas músicas minhas pra ele mostrar pra Roberto Menescal, diretor artístico da Gravadora Philips. Gilberto Gil morava no Stiep com Sandra e os filhos e estava num momento muito especial e bonito, quase um retiro espiritual…Gravamos na sua casa, num gravador dele, seis músicas, Rato Miúdo, Notícia Suburbana… tinha também um rock muito doido e Assim Preto, Brasa Branca, um baião, e Quando Nada, um fado, ambas  em parceria com Risério, os dois, eu e Gil, tocando violão e ele vez ou outra fazendo vocais ou solfejos de contraponto. Ildázio Tavares que apareceu por lá, gostou do que ouviu.

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capa do folder de Salve o Prazer – leia o texto de Antonio Risério.

Em junho de 1975, eu decidi ir para o Rio de Janeiro; fiquei por um tempo num apartamento em Ipanema, que Evelina conseguiu com uma amiga dela. Essa minha estadia no Rio foi muito intensa e marcou para sempre a minha vida. Fiquei nesse apartamento um tempo, até que Dedé Veloso me convidou para ficar lá na casa dela na Delfim Moreira, no Leblon. Morei com a família Veloso durante uns meses. Como havia me aproximado muito de Gilberto Gil, na Bahia, e sabia tocar e cantar as músicas inéditas dele que fariam parte do próximo LP Refazenda, Caetano encantado com Pai e Mãe, um certo dia, me pediu pra cantar a música pra Milton Nascimento ouvir. Rapaz… nunca fiquei tão nervoso na vida. Nessa época, estavam ensaiando para o show “Milton Buarque Veloso”. Engraçado que esse show inusitado ficou meio que perdido na memória da MPB. Aconteceu porque Milton Nascimento estava com dificuldades financeiras e tentando vender seu piano. Aí, Chico Buarque e Caetano Veloso se juntaram a ele e fizeram juntos esse show no Canecão. Também acompanhei parte da gravação do disco Minas, no estúdio da Odeon no centro do Rio. Milton rodeado de jovens e meninos. Desfrutei da companhia de Gal Costa, Sonia Braga, Julio Barroso, Artur e Maria Helena, Fafá de Belem, Lodo, Caniço, Jorge Salomão, escrevi artigo pra Revista Música do Planeta Terra, conheci Raul Seixas que me levou até seu apartamento também no Leblon, fui pro festival de Saquarema, e muito, muito mais… As noites cariocas lapidaram o meu perfil provinciano.

Aí, Gilberto Gil chega ao Rio de Janeira para a gravação do LP Refazenda e inclui a minha música Rato Miúdo no disco. Que felicidade!

Essa dor assim como apontamentos

eu sei escrever amor

em dimensões contrárias

áreas claras, eu sei escrever você

mas esse rato miúdo

passeando no quarto

esse rato miúdo, esse rato me mata

me tira da cama, me joga no chão

mais cedo, mais ágil

mais forte e mais frágil

no chão…

por ter sido julgado incapaz

definitivamente

podendo exercer atividades civís.

A gravação de Gil é muito bonita, mas infelizmente foi proibida pela Censura. Se a gravação de Rato Miúdo tivesse sido incluida em 1975 no LP Refazenda provavelmente seria considerado o primeiro reggae brasileiro. Gilberto Gil, na voz e no violão Ovasion, Dominguinhos, no acordeão (que não aparece nessa gravação/base, acima), Moacir Alburquerque, no baixo e Chiquinho Azevedo, na bateria. Swingue puro.

Rato Miúdo  foi censurado por causa do refrão que reproduzia os dizeres do meu certificado de reservista; “por ter sido julgado incapaz, definitivamente, podendo exercer atividades civis.”. Gil teve que retirar a música do show e do LP Refazenda, e não colocou nenhuma outra no lugar.

Quando Era foi passar uns dias comigo no Rio, fomos fazer uma fita demo na Philips com arranjos de Perinho Albuquerque com as músicas Ao Gosto Dela e Mudas de Tangerina. Sem eu saber, Caetano, a pedido de Era, inclui a minha música no repertório do show Bicho, no Teatro São Caetano. Ao gosto dela, um blues que eu havia composto recentemente e que fazia muito sucesso nas rodinhas de amigos e que Era cantava no Salve o Prazer. Caetano Veloso cantava meu blues ao violão, na parte do meio do show

Eu que sei o quanto eu gosto dela

eu que sei a falta que me faz

a paz que não me falta quando ela me abraça

eu sei o quanto eu gosto dela

até pensei na dita amarga vida mal vivida

ao menos desta vez sabendo que o que a gente quis

eu fiz, aos poucos, mas eu fiz

agora quanto ao gosto dela ela é quem diz…

eu que sei o quanto eu gosto dela

agora quanto ao gosto dela ela é quem diz…

Lembro de algumas pessoas me dizendo;  “Puxa Jorge, Caetano cantando uma música sua. Que barato! Que compositor não gostaria disso?”.

A estadia carioca foi muito boa, uma experiência inesquecível, mas eu retornei pra Salvador sem conseguir gravar meu tão sonhado primeiro disco.

2 Comentários...

  1. André Luiz Oliveira disse:

    Puxa Jorge que história emocionante! Me identifiquei inteiramente e ficou ainda mais claro para mim que a vida apronta e borda caminhos inesperados. De certa forma ela acabou revelando o cineasta e isso foi muito bom para o cinema baiano/brasileiro. A música Rato Miúdo é linda! Abraço

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