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por Alba Liberato

 

Caro Jorge, recebo “Extrafino” de Orlando Senna e não me contenho em reclamar sobre algo que só você deu a devida importância.
Bacana mesmo, Orlando! Vi Sangue Latino de Eric e Felipe Nepomuceno. fotografia de Walter Carvalho, que luxo!,  esta semana pela primeira vez. Fiquei encantada. Agora gravo dia e hora, anunciado por você. E lanço um questionamento que há tempo me vem futucando em relação às matérias de cinema e arte de modo geral. Porque não se encontram animadores entre esses entrevistados? É um estigma ainda acalentado pela visão titibitate da animação? Coisa para crianças (e se fosse assim, existe etapa a ser encarada com mais seriedade?) No máximo se comenta em espaços bem restritos, obras, digo seriados, que a mídia mais comercial passa para entreter crianças por décadas se são bem ou mal feitos, se prendem as crianças na telinha, enfim… aspectos circunstanciais que nunca tocam o fundamento humanístico que sempre esteve presente nos melhores autores de animação. Para nossa geração, basta lembrar de Jiri Trinka na década de 70 e seus companheiros tchecos, belgas, canadenses, franceses. Não vou nem lembrar a inventividade de Norman MacLaren, arretado nas suas aulas/obras geniais, verdadeira escola de arte em forma de imagem em movimento.

Pois bem, fomos este ano ao júri do Festival de Animação de Lisboa/ Monstra, que abriu que nossos dois longas modestos, onde 12 longas do mundo concorreram, sendo que dos premiados belíssimos dois eram documentários: “Preparado para Adoção”, sobre as crianças vietnamitas que eram pegas nas ruas do Vietnam destroçado e dadas a famílias ocidentais para criar. Feito pelo próprio adotado, tambem animador e diretor hoje, imagine a carga dramática! E outro foi “Crulic, um Caminho para o Além” , que trata de um caso de descaso com imigrante, envolvendo autoridades de dois paises, que é de tirar o fôlego. Tanto na estética como na expressào trágica de um destino trágico!
Pois aí está minha reclamação, fica o registro com quem de direito.
Um forte abraço, Alba

 

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Por Orlando Senna

Um programa do Canal Brasil, que tenho visto com certa constância, me faz pensar sobre a confusão do telespectador entre o bom e o que é fartamente anunciado como bom. É um programa de entrevistas, um talk show, e nunca o vi mencionado entre os melhores talk shows do país ou exaltado pela crítica. Possivelmente já foi elogiado, porque é muito bom, mas discretamente, tanto que não tenho notícia disso. Pensando nessa barreira criada pela propaganda e pela crítica entre o espectador e bons conteúdos, telefonei para uma dúzia de “formadores de opinião”, principalmente jornalistas,  e perguntei qual o melhor programa de entrevistas que está no ar. Alguns mencionaram programas estrangeiros, outros apontaram programas brasileiros desenhados a partir desses programas estrangeiros, todos na TV comercial, dita privada. Apenas um deles não foi por esse caminho e se lembrou de Provocações, da TV Cultura, comandado por Antonio Abujamra.

O admirador de Provocações logo acrescentou que não sabia se o programa ainda estava no ar, ou seja, não era um fã confiável mas era uma pontuação para a TV pública, onde existem bons programas dessa modalidade. Também sou admirador, faz tempo e confiável, do instigante talk show de Abujamra, e também do Arte do Artista de Aderbal Freire-Filho na TV Brasil. Mas minha curiosidade tinha sido despertada por outro talk show, o Sangue Latino do Canal Brasil, apresentado por Eric Nepomuceno, dirigido por Felipe Nepomuceno (pai e filho) e fotografado com virtuosismo por Walter Carvalho. É o talk show mais bem iluminado do país, com suas cores suaves e seu jogo tranquilo de luz e sombra fazendo-me crer em uma homenagem à simplicidade, à beleza e à força de uma referência do gênero: Advogado do Diabo, de Sargentelli, 1979/1980, uma das atrações (ao lado de Glauber Rocha) do revolucionário Abertura da TV Tupi. Acho que homenageia igualmente, em uma leitura atual, paradigmas da TV brasileira em preto-e-branco como o Câmera Um de Jacy Campos, o inesquecível teleteatro com uma só câmera, também da Tupi.

Sangue Latino me interessou inicialmente por ser um programa bilíngue, português e espanhol, dedicado a um entendimento mais profundo entre os povos latino-americanos, seara onde também floresce este blog. Mais profundo no sentido de expor e esmiuçar o pensamento, a visão de mundo, de grandes intelectuais e artistas do nosso continente.  Mas o que me tocou, o que me fez e faz continuar vendo o programa é a sua qualidade estética, o seu ritmo calmo e intimista, adequado à reflexão sobre o que estamos vendo/ouvindo, e a inteligência jornalística, o minimalismo jornalístico dos Nepomuceno, as frases curtas que são mais que perguntas, são estímulos, alusões, ilações, induções abertas ao uso racional ou imaginário que os convidados acharem mais esclarecedor. Filosofia e prazer são duas palavras que definem bem Sangue Latino, Canal Brasil, quartas-feiras às 21:30.

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