Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Saudade, de Paulo Caldas

 

 

Por Giovanni Soares

 

SAUDADE, do diretor Paulo Caldas, é um documentário poético-investigativo que busca entender essa palavra-sentimento. Aliás, só o fato de se tratar de uma palavra sem equivalente exato em outras línguas, conferindo originalidade à língua portuguesa, já justificaria se debruçar cinematograficamente sobre o tema. E o filme SAUDADE faz isto com maestria, fugindo dos clichês e das obviedades, surpreendendo e emocionando.

Em seu livro Mitologia da Saudade, o ensaísta e professor português Eduardo Lourenço afirma que a saudade é “o mais misterioso e o mais precioso dos sentimentos… que no seu berço céltico, o da Galícia e Portugal, parece modulado pelo ritmo universal do mar”.

 

 

No século XV, período das cruzadas oceânicas, um rei de Portugal, chamado d. Duarte, realizou o primeiro tratado sobre a saudade, o Leal Conselheiro, para tentar entender o estado nostálgico-melancólico que se abateu sobre o povo português, diante da falta dos entes queridos que partiam nas grandes navegações. É uma explicação para uma certa nostalgia enraizada na alma do povo lusitano, que sempre recorre a um passado glorioso. Para o cineasta Miguel Gonçalves Mendes, o português acabou com isso comprando sempre o papel de vítima, especialmente após os longos anos de ditadura.

Mas antes mesmo do trovadorismo medieval e de Camões, o professor Durval Muniz, estudioso do tema, nos garante no filme que a saudade seria uma condição ontológica do homem. Uma questão metafísica, muito mais ampla do que se imagina, pois nós humanos seríamos originalmente seres saudosos porque fomos expulsos do paraíso.

SAUDADE é um filme que instiga, que desconcerta, mostrando variações e contradições acerca do tema, inclusive com definições inusitadas, sensações e vivências. “Não é um sentimento pacificador”, afirma o escritor Milton Hatoum, que fala ainda (com propriedade) da origem árabe da palavra “saudade”.

 

 

Foram realizadas mais de 300 horas de material de gravação, com depoimentos de artistas, escritores, atores, poetas, músicos, cineastas, escritores, historiadores, arquitetos, coreógrafos, pessoas comuns e até um astronauta. Editado pela competente Vânia Debs, SAUDADE faz uma viagem bem conectada, intercalando falas com cenas poéticas de espetáculos de dança, peça de teatro, instalações de museu, bailes, o cotidiano citadino e a poderosa natureza. Todas as cenas e falas de SAUDADE — gravadas no Brasil, Angola, Alemanha e Portugal — são inéditas. A direção de fotografia traz a sensibilidade de Pedro Sotero.

A produção executiva é da onipresente Bárbara Cunha, da 99 Produções, que também é diretora de cena, roteirista e fotógrafa (still) de mão cheia. Distribuição da Lira Filmes, de Juliana e Lee Swain.

A trilha sonora é eclética e também sai do lugar comum: vai de Mayra Andrade a Otto, de Dalva de Oliveira a Marina Melo.

SAUDADE é o quinto filme de Paulo Caldas, depois de Baile Perfumado (1996), com Lírio Ferreira; Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas (2000), com Marcelo Luna; Deserto Feliz (2007); e País do Desejo (2011). “Vi o que me pareceu o melhor filme do Paulo, e confesso que ainda estou digerindo”, salientou o crítico Luiz Carlos Merten, do Estadão. Esse é o sentimento de SAUDADE. Um filme feito cuidadosamente para tocar as pessoas.

SAUDADE entrará em cartaz no Rio, São Paulo, Santos, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, a partir de 18 de janeiro. O projeto SAUDADE ainda contempla uma série de TV com oito episódios, que será exibida em breve no Arte1. Vale a pena conferir.

 

Deixe um comentário