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Minha, sua, nossa

 

por Sara Victoria

 

Todas as vezes que percebo que há um acidente no asfalto, na pista, e vejo um amontoado de gente em volta, presumo que existe um cadáver, ou quase, no caminho, bem próximo… CADÁVER!

Não importa! O fato é que sinto uma enorme angústia, uma angústia tão forte, que instantaneamente viro o rosto para não vir a ver, e porventura a guardar a imagem por horas, dias, meses, anos na cabeça. Imagem de um corpo que não conheço.  Detesto qualquer corpo estendido no chão. Detesto qualquer corpo ensanguentado e um monte de gente vivenciando momentos “tristes”, ”compadecidas”, mas sem fazer nada, e de quebra roubando o fluxo de ar necessário de quem padece ou quase morre. As pessoas em volta se alimentam de alguma coisa que não consigo entender, mas elas suprem o seu sofrimento e seus semblantes tristes melhoram com um eufórico desespero. Minha angústia grita dentro de mim, dizendo que não preciso desta fonte de sentimento, de energia, desta imagem. Grita dizendo que não sou médica, que não poderei fazer nada. Minha razão me lembra do código de trânsito em caso de acidente.

Não gosto de ver um corpo estendido no chão.

Tenho uma mania insuportável de conversar com qualquer pessoa, mesmo que não saiba de quem de fato se trata. Gosto de uma conversinha.  Recentemente “alguém”, que não sei quem, que provavelmente nunca venha a saber, me procurou para conversar fiado.  Não andava nem tão disposta, mas ele escrevia em alemão e isso encheu meus olhos, afinal, poderia treinar, aprender mais um pouquinho de alemão, e pensei: “por que não?”.

Conversamos toscamente em alemão, pelo Facebook. Estava bacana até eu resolver compartilhar uma fotografia minha, tirada do meu celular, a tal da “self”. Compartilhei junto com minha inversão das três coisas que um homem tem que fazer na vida, para vir a ter sua missão cumprida, porém de forma invertida, pois para mim essa ordem nunca importou.

Escrever um filho

Ter uma árvore

Plantar um livro

Quase todos nós sabemos isso desde criança. Desde criança brinco de inverter, trocar os verbos dos objetos e do sujeito.  Cresci brincando de inverter a ordem.

Fiz e inverti a ordem das coisas muitas vezes. Minha brincadeira de infância. Na infância achava graça destas três coisas, que nunca iria fazer na vida. Não é que o “sujeito”, por olhar a minha foto, escreve pra mim em alemão que a mulher da fotografia, no caso, eu, já havia feito muitos homens se matarem, se suicidarem?

EU:

-COMO? Não entendi! (auf Deutsch, Alles klar!).

“SUJEITO”, suposto “alguém”:

–Essa mulher da fotografia já fez muitos se matarem por amor.

Travei uma conversa truncada, que ficava cada vez mais tosca e em alemão ainda mais tosco. Tentei explicar que eu era eu, que não era assassina, que nunca soube que ninguém havia se matado por mim, por amor… E aquilo foi me enlouquecendo, piorando o entendimento, a insensatez do tosco alemão, que por natureza já é extremamente sensato, coerente, deixou simplesmente de fazer sentido… Quase enlouqueci sem entender nada sobre corpo algum. Expliquei, falei que era uma pessoa boa, bacana, do bem. Falei que nunca ninguém havia me dito que iria morrer; morrer simplesmente não, se matar por mim.  Falei do rumo estranho da conversa e encerrei a loucura. Melhor colocar um ponto e correndo. Mas nunca encerramos por inteiro nossas loucuras! Deve ser uma das graças da vida!

Parando para pensar com calma, depois de uma noite bem dormida, fiquei com a seguinte questão, e firme na minha decisão:

– QUERO VER OS CORPOS! Quero ver todos os corpos etiquetados e enumerados. Quero reconhecer os cadáveres. Quero contar quantos corpos foram no total. Quero saber de todos os “aqui JAZ”, todos os fulanos de tal. Quiçá eu consiga internalizar isso e melhorar meu semblante. Bem como compreenderei a morte matada, morrida, sofrida, entalada na rua, no asfalto em que passamos, pisamos, mas que não nos pertence… Compreenderei de um jeito ou de outro a morte.  Será que nenhum destes corpos, quando em vida, parou para pensar que poderia vir a me fazer um mísero bem? Que me faria bem e que eu poderia muito precisar deste bem, deste sentimento? Que talvez me faltasse amor?…

Quanto poder fora delegado a um amor que nem viu, nem sentiu e ficou só! Quanto amor desperdiçado com um Involuntário “agente assassino”, por corpos de cabeças moribundas? Amor não correspondido se contrapõe com raiva, com ira contra o ser outrora amado, que, transformado em objeto de desejo, quando não conquistado, queremos mais é que morra esquartejado, dilacerado, estilhaçado e claro que, por fim, DESFIGURADO no chão.

Não, eu nunca soube de alguém que tenha morrido de amor por mim. E esse amor de morrer calado, sufocado, bem guardado, que não era para vir a saber, a viver, deve ser enterrado. Amor é sentimento para viver, e vivemos sem nenhuma puta explicação, mas com uma grande existência. Sem razão, mas com existência. Amor, mesmo que não venha com uma puta explicação justificando a existência, existe e é vida ridiculamente compartilhada.

Existência é amor à vida!

Compartilhado o amor, doamos, entregamos para quem queremos ou não, e ou temos amor para dar ou não. Amor é um sentimento pessoal, transferimos para quem e quando queremos. Se alguém morre por amor é porque desonestamente sufocou seu próprio sentimento. Coisa que me pareceu mesquinha para um sentimento tão nobre. Sempre precisei muito ser amada, e quem não precisa? Sempre quis e precisei me sentir amada. Bom! Cada qual sabe a dor do seu ser, sabe o tamanho do seu vazio, das suas carências…

Quero ver os corpos, para me certificar por quantos fui, na verdade

des-amada.

E esses eu colocarei numa vala rasa e comum com muito pouca areia… Pois faltou, antes de tudo, piedade, mas não faltaram traços de crueldade recheados de mosquearias , afinal se sentir amada nos faz melhorar com e em todos os sentidos, e eu nunca fui uma pessoa radiante, ainda que minta um pouco, só um pouquinho, pois meu amor sempre foi meu.

Precisava de amor, mas enquanto eu precisava de amor para viver, alguém simplesmente negava amor para morrer…

 

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