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Por Henrique Dantas

 

“Silêncio” contemplado no PRODECINE 1

No mês de outubro saiu o resultado final do PRODECINE 1, um dos editais mais disputados do país. Ganhamos com uma proposta de longa metragem de ficção chamada “Silêncio”. A produtora da qual sou sócio fundador, a Hamaca Filmes, fundada em 2008, surgiu junto com a produção do meu primeiro filme, o longa metragem documental “Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano”, lançado no Festival de Brasília de 2009, de onde saiu premiado com alguns candangos, e que ainda hoje é a terceira maior bilheteria baiana na retomada do cinema brasileiro. De lá para cá, percorri um significativo caminho como diretor, roteirista, montador e produtor executivo, e “Silêncio” chega em um momento importante da minha trajetória profissional, logo após a entrega da nossa primeira série de ficção infantil “A Bicicleta do Vovô”, resultado do Edital de Arranjos Regionais, o PRODAV 9.

A Arte como Cura

O processo de escrita de “Silêncio” vem como resultado do Edital de Roteiro do Estado da Bahia, em 2012. Nasce a partir de uma experiência muito complexa que aconteceu comigo neste mesmo ano, quando, durante a montagem do meu segundo longa documentário intitulado “Sinais de Cinza, A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade” – um filme sofrido que fala da vida e obra do grande cineasta brasileiro Olney São Paulo – começaram a morrer diversas pessoas afetuosamente relacionadas à minha vida. E dentro de um período de quatro meses, a cada sete ou oito dias morria alguém próximo ou muito próximo a mim. Quando findou este processo, tinham morrido 13 pessoas queridas no meu entorno, entre tios, amigos, avó, filhos de amigas, etc. Isso gerou um estranho processo “silencioso” e visceral dentro de mim e me colocou num estágio alterado de consciência. Depois da 4ª morte, fiquei completamente anestesiado, “amortecido” com as outras mortes que se sucediam, como se meu organismo tivesse me protegendo diante desses fatos impactantes, protegendo a minha sanidade. Me senti como um soldado numa guerra, que sofre muito diante da primeira pessoa que mata, mas que acaba normatizando esse comportamento e incorporando a morte como algo normal. A maior parte do que eu senti naquele período era impossível de se expressar em palavras e acabou por ser silenciado, dando assim origem ao titulo do projeto.

“Silêncio” conta a trajetória de TUÃ, um médico oncologista, negro, baiano, que, após vivenciar uma série de tragédias ocorridas no período militar envolvendo a sua família, foi, ainda criança, viver com sua mãe em Amsterdam. Já adulto, movido por estranhos sentimentos diante do suicídio da mãe, volta a Bahia para resgatar a relação com seus avós, refletir sobre o seu passado e procurar novos significados para sua existência. A vida de TUÃ muda quando ele recebe um telefonema da sua avó, que comunica estar com câncer em estado terminal e do seu desejo de morrer em casa, sem maiores intervenções, obedecendo ao tempo da chegada da morte. O suicídio da mãe e a situação dos avós, o leva a uma viagem de retorno a sua terra natal, e a uma travessia de resgate da sua história e das suas raízes.

Outra identidade da morte

A morte na sociedade ocidental é sempre vista como algo negativo, a ser evitado e combatido. No filme, a partir da personagem de VÓ SINA, buscamos identificar essa poesia perdida–presente nesses acontecimentos. Com “Silêncio” pretendemos trazer possibilidades de interpretação e de vivências poéticas existenciais, e de como as pessoas podem aprender algo com a experiência da morte do outro. Ou seja, estamos falando de morte, mas também de reconstrução, de resgate, das buscas interiores que o fim de uma vida pode gerar. A morte se aproxima cada vez mais à medida que os anos passam. Quando somos crianças, a possibilidade de convivermos com a morte é quase sempre reduzida, seja por proteção das famílias ou por conhecermos poucas pessoas idosas que se aproximaram desse momento. Com o tempo vivido, as pessoas que conhecemos envelhecem e a morte começa a se tornar algo mais cotidiano do que esporádico e esse processo é crescente até a nossa hora.

“Silêncio” terá suas filmagens realizadas entre Amsterdam, capital da Holanda, e localidades presentes no Sul e no Baixo Sul do estado da Bahia, tais como: Ilhéus, Itacaré, Serra Grande, Nilo Peçanha ou Taperoá. As filmagens em outro país potencializam o caráter universal do filme, fortalecendo a sua penetração em outros mercados cinematográficos. Por outro lado, ao mostrar os cenários, a cultura, as histórias, e as tradições do Baixo Sul da Bahia, no Nordeste do Brasil, apresentamos as complexidades e belezas de um Brasil profundo, ainda por ser descoberto. Neste sentido, “Silêncio” é, ao mesmo tempo, local e global, particular e universal, tanto no âmbito da sua abordagem temática quanto das suas pretensões estéticas.

O filme é também uma defesa do espaço do silêncio na existência das pessoas como forma de sobrevivência. Em tempos de filmes violentos, de estéticas de Tropas e Favelas, falar da morte morrida e não da morte matada se torna importante. “Silêncio” procura trabalhar em cima de pensamentos, de reflexões, de poesias e não do medo, não do medo da morte. Acredito que este seja o principal motivo que justifique a realização deste filme: o caráter universal proposto pelo projeto, que traz à tona questões tão contemporâneas e atemporais. Neste sentido, o filme foge conscientemente do estereótipo de uma Bahia apresentada sempre como lugar de festa que nos escraviza numa prisão de pífias alegrias, trazendo o que de universal nos conecta com o mundo.

Roteiro e Elenco

O roteiro de “Silêncio”, de minha autoria, tem a colaboração da roteirista Tacilla Siqueira e contará ainda com a consultoria do roteirista franco-venezuelano George Walker, para etapa de amadurecimento e releituras.

Para vivenciar os seus principais personagens, já contamos com um elenco “de peso” – tanto dramatúrgico/cinematográfico quanto afetivo –, que tem se formado por conta da sensibilização que o roteiro tem provocado nos atores. Para o papel de TUÃ temos a querida participação do ator baiano Fabrício Boliveira. VÔ HORÁCIO, por sua vez, conta com a luxuosa participação do brilhante ator baiano Antônio Pitanga. E no papel de VÔ SINA, temos a feliz participação da atriz baiana Helena Ignez. Um elenco de atores maravilhosos que acrescentarão muito ao trabalho.

A equipe técnica será basicamente a mesma turma que tem trabalhado comigo, pessoas incríveis que além de termos afetos em comum, são profissionais maravilhosos, parceiros de vida, dentre eles destaco meu querido amigo Pedro Semanovschi, um diretor de fotografia que tem me ajudado muito a construir o meu olhar cinematográfico e Marcello Gurgel, que vem agregando com sua experiência em Produção.

Com a escolha deste elenco, saliento que ao longo da minha vida, eu só fui atendido uma única vez por um médico negro, assim como, durante toda a minha infância e adolescência na região do cacau, nunca conheci um dono de fazenda que fosse negro. De que forma alteramos esta realidade senão com a provocação de histórias que nos tragam outras matizes, outras possibilidades? A cada dia sinto meu cinema se tornar mais caboclo, mais negro, mais índio, mais resistente, mais próximo das questões sociais que me dizem respeito, que incomodam, como o racismo, por exemplo.

Por fim, vale mais uma vez salientar que este filme surge em um momento de maturidade de minha carreira. Já são mais de 20 anos dedicados ao cinema, período no qual atuei como Diretor de Arte de três longas metragens; como roteirista, diretor, produtor executivo e montador de três longas documentais e três curtas metragens (ficção e documentário); como roteirista, diretor, montador e produtor de uma série de ficção; tendo a maior parte destes trabalhos reconhecidos com prêmios e seleções em festivais nacionais e internacionais. Diante desta trajetória, aguardo a realização de “Silêncio”, um filme que reflete sobre o exercício necessário de se aprender a morrer no outro e em si.

 

Filme em longa metragem Ficção: “Silêncio”

Roteiro e Direção: Henrique Dantas

Roteirista Colaboradora: Tacilla Siqueira

Produtora: Hamaca Filmes

foto da capa – Flávio Lopes

2 Comentários...

  1. Elis disse:

    A alma do seu projeto é fantastica! Parabéns! necessitamos todos de renouveau no mundo da comunicaçao sob todas as formas!
    Como amante da arte e atriz de paixão, fiquei tao apaixonada pelo filme que ja me sentia profundamente na pele da mãe do médico!!
    Henrique, constato que temos bastante em comum em relaçao á todas as perdas em espaço curto de tempo…

    Me deixe um contato para que eu possa te deixar um CV com alguns trabalhos , e aqui ja te adianto estas info:

    Tenho 61 anos, mae, avó, falo frances fluente, ingles e espanhol basicos, morei na Europa 25 anos, tenho um premio com artista plastica, participei do telefilme , O RETORNO DA DUQUESA , Prod.franco americana, trabalhei como intérprete de Carlinhos Brown Alceu Valença, no FESTIVAL DE MONTREAUX .
    Sinto teu filme sucesso garantido! E como dizem os franceses: “merde”!
    Abraço e um Feliz Natal!
    .

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