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Sinais de Cinza, A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade

2013 – doc – digital – 88min.

O filme procura dar a dimensão da importância do cinema de Olney São Paulo, assim como, denunciar os absurdos cometidos pela Ditadura Militar na vida desse cineasta Caboclo e sertanejo que tinha a idéia de mudar o mundo a partir do seu cinema revolucionário e que morreu, vítima do longo processo de tortura, diante da sua corajosa postura de fazer filmes. O filme se propõe a trabalhar a memória num conceito que chamo de “Memória Esgarçada”, onde, por conta do esquecimento dos filmes e da história de Olney, foi desenvolvido uma linguagem a partir das projeções de filmes do autor, em arquiteturas e lugares também desgastados, por onde o biografado passou, como a sala de tortura, o lugar de seu nascimento, o local onde morava e trabalhava, etc, gerando uma nova imagem. É como se o fio do tecido esgarçado fosse reunido numa nova roupa, numa roupa feita de memórias e imagens.

Elenco:

Orlando e Conceição Senna, Nelson Pereira dos Santos, Edgar Moura, José Carlos Avellar, Antonio Manoel, Emanuel Cavalcanti, Olney São Paulo Jr., Ilya São Paulo, Pilar São Paulo, Tuna Espinheira, Alba e Chico Liberato, Helena Inês, Luiz Paulino dos Santos, Oscar Santana, Sonélio Costa(Índio), Márcio Curi, Regina Machado,

Ficha Técnica:
Roteiro e Direção: Henrique Dantas
Direção de Fotografia: Pedro Semanovich
Direção de Arte: Henrique Dantas
Montagem: Henrique Dantas, Irís de Oliveira e Ilo Alves
Direção de Produção: Marcello Gurgel
Produção Executiva: Mariana Vaz e Henrique Dantas
Finalização de Imagem: Kico Povoas
Edição de Som: Waldir Xavier
Finalização de Som: Damião Lopes
henrique

Henrique Dantas

por Celso Sabatin

(na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes)

 

Gosto de documentários que documentam. Pode parecer uma simples frase de efeito, mas não é. Na minha modesta opinião, saio gratificado de uma sessão de cinema quando vejo um documentário que realmente documenta o objeto que se propôs a documentar. Ou seja, informa, mostra, conta, exibe, provoca, faz pensar, que se apaixona pelo que está documentando, que emociona. Sem preguiça.

Em contraposição, há o documentário narcisista, até onanista, que se apaixona por si próprio, que gosta tanto de estar sendo feito que não quer cortar, que adora balançar a câmera pelo simples prazer lúdico de balançá-la, que em nome de uma suposta configuração artística se alonga indefinidamente em planos que pouco ou nada têm a dizer, pensando em seu íntimo: “Quantos minutos o filme precisa ter mesmo para eu inscrevê-lo nos editais de longa metragem?”.

Mas hoje eu quero falar de documentários que documentam. Caso do ótimo “Sinais de Cinza”, exibido ontem aqui na 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O diretor baiano Henrique Dantas resgata passagens importantes da vida e da obra do cineasta Olney São Paulo, figura emblemática nos anos 60 e 70, mas que a História (“sempre contada pelos vencedores”, como lembra Dantas), se incumbiu de quase apagar. É a partir desta “memória esgarçada”, como também diz Dantas, que o filme levanta a trajetória de Olney.

“Sinais de Cinza” costura com destreza vários depoimentos de parentes de Olney e de cineastas que o vivenciaram, casos de  Conceição Senna, José Carlos Avellar, Orlando Senna, Silvio Tendler e Nelson Pereira dos Santos, entre outros. Entremeia os textos com cenas de filmes (ou do que resta deles) dirigidos por Olney, poeticamente projetados sobre paredes, portas, janelas e grades que de alguma forma fizeram parte do universo do biografado. E também investiga aquele que é provavelmente o grande momento-chave da vida do cineasta: o sequestro de um avião para Cuba, onde Olney, um dos sequestradores, teria
projetado um de seus filmes, proibido pela ditadura militar, para os passageiros e tripulação.

Mais do que documentar, “Sinais de Cinza” abertamente homenageia o cineasta, e inicia publicamente uma campanha (imediatamente acatada pela Mostra de Tiradentes) em busca de patrocínio pela restauração da obra de Olney, que soma 14 filmes.

Ainda não há distribuidora para o filme. Fica a dica.

  sinais

 

Por  Marcio Curi

Mesmo acreditando que o filme merece um aperto para valorizar ainda mais suas enormes qualidades, foi para mim uma emoção fortíssima assisti-lo. A elaboração obsessiva das imagens e a costura sutil do discurso cinematográfico, que ressalta a inquietude humanística e artística de Olney, bem acima de suas eventuais convicções políticas, me dá a sensação de estar mergulhado o tempo todo dentro dos próprios pensamentos atormentados da cabeça inquieta do meu amigo.

Olney foi exatamente o que você alcançou retratar no filme. Um artista inquieto e preocupado com tudo que afeta diretamente o homem, seja no plano político, no plano social ou no plano pessoal. Sua pequena grande obra atesta isso à farta. Com a mesma intensidade com que mostra a perseguição implacável de que são vítimas os que se atrevem a discordar, no filme que, tragicamente, o tornou mais famoso, a obra de Olney nos revela os dramas humanos dos ciganos pobres do nordeste, a dureza da vida do homem sertanejo, às voltas com as incertezas do clima, a sensibilidade artística de outro sertanejo como ele, o artista Raimundo de Oliveira, o esplendoroso sítio arquitetônico da cidade de Cachoeira, erguida às margens serenas do Paraguaçú, por onde foi subtraída a riqueza do sertão e do recôncavo no período colonial.

“Sinais de Cinza” revela tudo isso de maneira brilhante. No esplendor dos planos fordianos de Olney – muito bem destacados por, se não me engano Vladimir – nos comentários sobre o destino dos baianos que teimavam em  “fazer cinema” – pela voz de Tuna Espinheira – na curiosa e reveladora história do interesse de Orson Welles – trazida por Orlando Senna. Mas vai além.

Há uma outra camada na qual vai se construindo a figura humana de Olney, pelas pequenas revelações que vão fazendo os seus inúmeros amigos. Cada um deles, com um pequeno testemunho, ajuda a erguer a imensidão da sua figura humana. Do amigo, do pai, do artista, do sertanjo, do homem ….

Paralelamente, pouco a pouco, “Sinais” constrói também a epopéia da família, cuidadosamente construída pela obstinação maternal da – também sertaneja – Maria Augusta, domadora do espírito inquieto de Olney, cidadão do mundo por natureza, e covardemente destruída pela insensibilidade da ditadura militar. Mostra a farsa da cópia que nunca saiu do Rio de Janeiro – revelação cuidadosamente guardada para o último ato – e a brutal destruição moral e física de que foi vítima o cineasta.

Minha emoção chegou ao limite com as participações dramáticas de Olneyzinho, Ilya e Pilar, que tecem a trajetória patética da família, seqüestrada de sua dignidade e, logo depois, do seu líder e principal mentor. Calam fundo as ausências inevitáveis de Maria Augusta e Irvinho, os primeiros a partirem ao encontro do companheiro ausente. Só me resta te agradecer e te dar os parabéns!

 

 

Um Comentário...

  1. Henrique Dantas disse:

    Valeu Jorginho, Obrigado rei….

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