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por Josias Pires

 

Travei contato com a obra de Juraci Dórea na década de 1980 e, desde sempre, aprendi a admirar a pesquisa artística instigante deste criador, o primeiro (e até agora o único) a levar o Sertão da Bahia para a Bienal de Veneza (1988) e outras exposições internacionais. Escrevi algumas reportagens em revistas e jornais sobre facetas diversas da sua obra. Pude travar contatos mais próximos com Dórea no período que residi e fiz jornalismo em Feira de Santana, sua cidade natal.

Logo que soube louvei a iniciativa do cineasta Tuna Espinheira em fazer um documentário sobre Juraci Dórea. Foi movido de enorme curiosidade que assisti ao filme  “O Imaginário de Juraci Dórea no Sertão Veredas”, exibido em avant-premiere no dia 17 de dezembro. Bem impressionado com o resultado, resolvi escrever um texto com as minhas primeiras impressões. Antes de publicar o texto fiz uma primeira versão que continha algumas imprecisões. Enviei o rabisco para Juraci Dórea, que fez alguns “esclarecimentos técnicos” incorporados ao texto publicado no Caderno de Cinema. Contudo, faltou incorporar um dos principais esclarecimentos feitos pelo artista, o que faço agora.

No começo do filme, alguns moradores do povoado de Acaru, distrito de Monte Santo, travam uma discussão acerca do lugar exato da velha casa da fazenda que – soube depois pelo próprio Juraci Dórea – ficava (provavelmente) na rota das tropas do Exército que se deslocaram de Monte Santo em direção a Canudos no final do século XIX.

É uma sequencia desconcertante do filme pois evidencia, de modo cômico, as armadilhas da memória. As dificuldades da memória em fornecer referencias precisas sobre fatos e objetos do passado. As dúvidas daqueles roceiros acerca do exato local da antiga casa que ali existiu funcionam como uma espécie de contraponto ao restante do documentário, que reitera o fato da obra artística de Juraci Dórea inscrever-se fortemente no campo da memória.

Leiam o que esclarece Dórea sobre o povoado do Acaru baseando-se em Euclides da Cunha: “Em Os sertões o Acaru aparece nos mapas, próximo à serra do Acaru, e é citado no início da parte intitulada “A luta”: “Travessia do Cambaio”. O subtítulo é “Em marcha para Canudos”, que diz o seguinte:

“Transcorridos alguns quilômetros (o Acaru fica a 20km de Monte Santo), porém, acidenta-se (a estrada); perturba-se em trilhas pedregosas e torna-se menos praticável à medida que se avizinha do sopé da serra do Acaru. […]”

O Acaru tem hoje poucas casas. Quando conheci, tinha quatro ou cinco apenas, e uma escola. Na época da Guerra, provavelmente, a casa da fazenda era seguramente a principal referência do lugar, chegando a constar do mapa de Euclides”.

O registro feito por Euclides, como fica evidente, é o único modo que temos de superar e/ou contrapor-se de modo medianamente consistente, neste caso, às imprecisões das lembranças humanas. Esta informação é decisiva para comprovar a tese aqui enunciada: a memória permanece com alguma fidelidade ao real quando pode ser fixada em algum modo de registro. Neste sentido, em última análise, a obra de Juraci Dórea inscreve-se no mesmo sentido alcançado pelo registro de Euclides da Cunha, ou seja, a busca em fixar memórias de uma cultura/sociedade ameaçada.

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Juraci Dórea

O próprio artista-personagem do filme diz buscar no sertão mais recuado referencias culturais que foram perdidas na sua cidade natal, a quase metrópole Feira de Santana. Nesta busca, a sua pintura fixa em suportes variados – couro, madeira, tela – elementos típicos do mundo sertanejo. Naturalmente aquele é um mundo que também se transforma. Mas o que interessa ao artista não é documentar ou refletir sobre tais processos de transformação. A sua intenção, poderíamos dizer, é escapar da fragilidade da memória e, para além das mudanças, fixar nos quadros as histórias do sertão por meio de elementos característicos lançando mão de uma forma que dialoga fortemente com imagens de xilogravuras.

Contudo, talvez ainda mais importante do que fixar aqueles elementos em quadros pintados, merece destaque outro dado inovador – e profundamente generoso – da obra deste artista: expor as pinturas nas feiras e mercados das cidades da região, fazendo interagir as telas diretamente com os roceiros e vaqueiros. Neste gesto inovador, Juraci Dórea recusa os museus e galerias das grandes cidades e propõe criar museus a céu aberto nas cidades das caatingas. Ao mesmo tempo tudo isto é meticulosamente fotografado e as imagens daqueles encontros são levadas para os museus e galerias das metrópoles. Neste registro a obra vai além das pinturas, pois os próprios homens e mulheres sertanejos – com suas indumentárias, gestos, etc – tornam-se referenciais. O registro fixa a memória. A memória permanece pelo registro e não apenas como lembranças humanas fugazes.

Lembranças fugazes como aquelas registradas pela câmera super-8 do fotógrafo Robinson Roberto que acompanhou Dórea numa das suas viagens pelos sertões, exatamente para o povoado do Acaru, onde foi levantada uma das esculturas abstratas de couro e madeira – figuras fantásticas que dialogam com as paisagens sertanejas. Nesta viagem Robinson Roberto gravou a fala de uma personagem quase lendária, a Edwirges, de Monte Santo – figurante do filme Deus e Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Edwirges lembra confusamente nomes de atores e atrizes que teriam atuado no filme, em mais uma demonstração de como a memória é imprecisa, ainda que impressionante, apaixonante, desconcertante.

Mas Juraci Dórea vai além da imprecisão da memória. Saindo dos quadros para as instalações, embrenha-se nos sertões para levantar as esculturas abstratas de couro e madeira em locais inóspitos. Como afirma o poeta Antonio Brasileiro, com estas obras Dórea institui uma nova visualidade sertaneja. Rompendo de modo radical com o imaginário e/ou figuração típica do sertão, as esculturas impactam fortemente a imaginação do homem rural e, registradas pelas fotografias do próprio artista, chamam a atenção do mundo ilustrado das artes, das bienais internacionais e da crítica bem informada.

Como a comprovar a impermanência da memória, a fugacidade de todas as coisas, as esculturas de couro e madeira constituem obras efêmeras, que são reconstruídas e, por fim, destruídas pelo tempo. O tempo que apaga e reconstrói as memórias, remodelam e transformam tudo o que existe.

Tuna Espinheira trouxe do sertão da Bahia uma jóia rara: o imaginário de Juraci Dórea. Parabéns, mestre!

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2 Comentários...

  1. Antonio Olavo disse:

    Belo texto, sobre o importante documentário de Tuna. Nas minhas primeiras andanças pelo sertão de Canudos, no início dos anos 1980, de repente, do nada, surgiam as impávidas esculturas de Juraci Dórea. Quanta generosidade desse artista em doar a sua arte ao Sertão quase despovoado. Alguns anos depois, conheci o artista e passei a admirá-lo também enquanto pessoa. PARABÉNS, Juraci. OBRIGADO, Tuna.

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