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Exposição resgata a história do poeta que teve a própria existência questionada

por Raul Moreira

 

Primeiro a traduzir em essência a Bahia nas suas belezas e misérias, que se sustentam até hoje, como se fossem benção e maldição, o poeta Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695) ganhou em Salvador uma exposição que leva o seu nome pluralizado: Gregórios, aberta ao púbico na Galeria da Cidade, de quarta-feira a domingo, no Teatro Gregório de Mattos.

Nada mais justo, porque ao longo dos últimos 170 anos, ele e a sua obra barroca estiveram na mira de letrados de correntes as mais diversas. Assim, do degenerado, obsceno e plagiador dos espanhóis Góngora e Quevedo, como disseram alguns, ao riponga, revolucionário, gênio e primeiro representante de uma poesia genuinamente nacional, como afirmaram outros, Gregório de Mattos transformou-se em muitos.

Mas, independentemente de quem realmente foi, ou é, até porque continua mais vivo do que nunca, a exposição nos oferece pistas para compreenderemos a partir de quando e em que condição se plasmou o que se chama de baianidade, estado de espírito que ele foi o primeiro a celebrar, como também criticar, de forma contundente.

Por sinal, dois dos seus mais famosos poemas, Triste Bahia e Senhora Dona Bahia, confirmam que, no século 17, Salvador já era o que é hoje: uma cidade desigual e madrasta para com os locais e, por vocação, mãezona quando se trata de gente de fora.

Rusgas e amores à parte, por via dos seus poemas, sejam satíricos, lírico-amorosos, sacros e eróticos, está impresso o jeito de viver da Salvador e do Recôncavo seiscentistas. Em tais territórios, ele corria solto, independentemente das camadas hierárquicas da colônia.

Prato cheio para pesquisadores de diversas áreas, as descrições feitas nos seus poemas chamam a atenção. Graças a elas são revelados o jeito de falar da gente, os seus costumes, mentalidades, as religiões, as relações de classe, o racismo explícito, as diversões, a culinária, as bebidas, a fauna, a flora, o jeito de vestir, de paquerar, de encarar o sexo, enfim, a intimidade de um período é dissecada nos mínimos detalhes.

Usando na medida justa certos efeitos visuais e processos de interatividade, as curadoras Lanussi Pasquali e Carla Zollinger, ao lado da cenógrafa Renata Mota – a direção artística é do saudoso Joãozito –, construíram uma exposição que fala por via de alegorias e representações de um mundo barroco. Tudo acompanhado de informações objetivas sobre a vida e a obra do poeta, com destaque para a impressão dos seus poemas, alguns dos quais interpretados pelo ator Jackson Costa.

Seguindo numa sequência cronológica que relata a vida do poeta desde a chegada dos seus antepassados portugueses a Salvador, passando pela infância, adolescência e idade adulta, já em Coimbra e Lisboa, onde foi estudar e se fez um jurista afamado, há, em tal percurso, elementos que levam ao entendimento de quem era e em quem se transformou, principalmente após o seu retorno à Bahia.

E é justamente na sua explosão rebelde nestas terras, onde resolve chutar o pau da barraca e se rebelar contra a Igreja a quem servia, além de se bater contra os governantes, sem falar que destilou suas sátiras aos ditos “comuns”, que reside a sua chama. Claro que tudo isso é favorecido pela sua condição de branco, católico e aristocrata, o que o tornou um personagem que seduziu justamente por se rebelar contra o poder constituído, se transformando em lenda, o Boca do Inferno.

Tupismos e Africanismos

Antes de tudo, é preciso destacar que ele foi um homem do século 17, o que explica, inclusive, o seu caráter machista, homofóbico, classista, racista, enfim, todos aqueles predicados que hoje não são tolerados e que faziam parte das “verdades” daquela época.

Perseguido pela crítica romântica do final do século 19, foram os baianos James Amado, Fernando da Rocha Peres, João Carlos Teixeira Gomes e Pedro Calmon os principais re ponsáveis por reabilitá-lo de todo tipo de infâmia, afirmando não apenas a sua existência, que chegou a ser posta em dúvida, mas também, a originalidade e a força de sua poesia.

Uma poesia que segundo o filólogo Segismundo Spina, alcançou o mais alto grau de excelência e incorporou pela primeira vez na literatura nacional tupismos e africanismos. A despeito dela, ao explorar, com grande refinamento verbal, as tensões próprias do barroco, destaca-se uma grande variação de formatos nas suas composições, que passavam por sonetos, décimas, romances, canções, quintilhas, madrigais e glosas, que perfazem mais de 700 poemas a ele atribuídos, todos apócrifos.

Hoje, o poeta baiano é um dos autores mais estudados do Brasil, objeto de centenas de teses acadêmicas e de romances, como os de Ana Miranda, a sua amante, que escreveu Boca do Inferno (1990) e a Musa Praguejadora (2014). E a Bahia, apesar das muitas honrarias registradas nos últimos 50 anos, devia-lhe uma homenagem definitiva, que agora se traduz em Gregórios, que poderá ficar exposta definitivamente no acervo do teatro que leva o seu nome.

Porque ao final, queira ou não, somos na nossa alma um amontado de Gregórios.

publicado em A Tarde

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