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por Raul Moreira

 

 

Além de ser uma ficção cinematográfica que especula a respeito do homem Joaquim José da Silva Xavier, antes dele se tornar o Tiradentes, herói nacional, Joaquim, do pernambucano Marcelo Gomes, em cartaz, também se propõe a discutir a gênese de um povo, a partir do cruzamento de portugueses, africanos e ameríndios, fenômeno que resultou em um país extremamente complexo.

Independentemente de seus acertos, que vão do elenco à fotografia crua e sem subterfúgios, com seus movimentos de câmera nervosos, sem falar da pesquisa de época, da direção de arte e do ritmo da montagem, seco, como o período retratado, Joaquim é bem-sucedido não por se es- tabelecer como verdade histórica, mas, sim, pela sua capa- cidade de ofertar pistas a partir das quais é possível ordenar al- gumas peças que se encaixam no quebra-cabeça chamado Brasil, em eterna construção.

Exceção da primeira cena, Joaquim vai frustrar os que alimentam a fantasia do espetáculo, do enforcamento, da decapitação, dos pedaços humanos espalhados de forma macabra por ruas de pedra-sabão, enfim, certos ingredientes que ajudaram a reforçar a alegoria de Tiradentes simplesmente não existem: vale lembrar que ele se tornou herói nacional por conta do regime militar, em 1965, que o fez patrono do Brasil e instituiu o feriado de 21 de abril, justamente o dia da sua execução, no Rio de Janeiro, no longínquo ano de 1792.

Dito isto, Joaquim é revelador de um exercício investigativo e intuitivo que elabora uma realidade histórica supostamente crível para afirmar o homem em detrimento do mito. Para tanto, Marcelo Gomes se vale da aplicação de uma “filosofia” recorrente em sua cinematografia, como se viu em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009): o descolamento, a busca das respostas por meio da exploração dos espaços longínquos, vazios, talvez na fantasia de que, no fim do mundo, exista um farol capaz de iluminar a rota dos perdidos.

No caso de Tiradentes, o Joaquim, o farol que lhe indicou o tesouro foi a descoberta da humanidade alquímica de um escravo e de um indígena que lhe serviam, pessoas que, para um sujeito de ascendência portuguesa, com seus vícios típicos do pensamento colonial da época, eram como burros de carga, pobres diabos que não faziam parte do suprassumo da escala evolutiva.
 No entanto, a percepção do outro, ou dos outros, por parte de Joaquim, não o faz um herói de alma pura e incorruptível, não. Acertadamente, sempre dentro do exercício especulativo da construção do personagem, há espaço para o fausto, algo que, tratando-se de Brasil, poderíamos chamar de “alma macunaímica”, aquela porção que nos parece intrínseca e a qual o cineasta foi feliz ao explicitá-la de forma quase arqueológica no seu personagem. 
Na verdade, ainda que o reverberar da independência dos EUA se faça elemento importante enquanto base de apoio para a revolta que se anuncia, sem falar dos ideais da Revolução Francesa, fatores que se insinuam para um Joaquim em formação, seja através dos livros ou do discurso de um poeta, as questões de classe chamam a atenção no filme. Porque, mais do que Voltaire, Diderot ou mesmo Kant, iluministas, no cerne daquilo que se chamaria de Inconfidência Mineira, está embutido o marxismo em seus princípios básicos.

Sim, sintomático, para não dizer genial, foi a exposição daquele banquete ao ar livre organizado pelos futuros insurgentes da Inconfidência Mineira, festim do qual Joaquim participou como convidado especial e que revelou a natureza de uma força que depois se tornaria ainda mais nefasta do que o espectro da própria colonização: a burguesia predatória do Brasil, originária, em um primeiro momento do português, elemento que, gradativamente passou a se reconhecer brasileiro, para, depois, tornar-se algo complexo na sua natureza, como se percebe nos dias de hoje.

Exibido na competitiva do Festival de Berlim, em fevereiro, além das questões que giram em torno da formação do Brasil, Joaquim foi importante para iluminar certos aspectos do colonialismo português, que já se encontrava enfraquecido diante de um mundo que caminhava para a Revolução Industrial. E, de forma precisa, quase cirúrgica, o cineasta pernambucano foi capaz de captar esse “espírito decadente”, um sentimento que o Brasil herdou, ainda que a nossa identidade portuguesa seja renegada.

Filme para poucos, por conta de suas sutilezas, em tempos de crise e de buscas por saídas que possam nos libertar de tal estado de coisas, Joaquim funciona como um bálsamo para desobstruir os ouvidos congestionados: escutar aquele português arcaico, o guarani, o tupi, o português abrasileirado, o espanhol e o crioulo da Guiné-Bissau, é como uma regressão, um ato capaz de nos devolver um sentido de ancestralidade que se perdeu nas teias do tempo.

No final, perplexos e extasiados diante da saga que desconstruiu o herói e projetou o homem, nos sentimos todos Joaquim, até porque, pelo andar da carruagem desgovernada, as nossas cabeças podem estar a caminho da forca.

JOAQUIM / DE MARCELO GOMES / COM JÚLIO MACHADO, NUNO LOPES / ITAÚ GLAUBER ROCHA, SALADEARTE-UFBA / 16 ANOS

Publicado em A Tarde

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