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por Fausto Junior

Tem circulado nas redes uma ilustração muito apropriada a estes tempos que estamos presenciando. Uma imagem muito simples, formada por três círculos que se sobrepõem e formam uma pequena área de interseção entre eles. Dentro de cada círculo aparece o título de um clássico da literatura, cada um representando um universo distópico: 1984 (Orwell), Admirável Mundo do Novo (Huxley) e Fahrenheit 451 (Bradbury). Bem no meio, na interseção entre os três círculos, a frase: VOCÊ ESTÁ AQUI.

Várias vezes leio, ouço e concordo com quem diz: “parece que todos os dias vivo dentro de um pesadelo.” Mais alguém sente isso também?

Em meio a este cenário surge uma música na voz de Jorge Alfredo, companheiro de varias jornadas abcvistas e webcinematográficas, e composta por ele mesmo, em parceria com João Santana. Suave Distopia, que, de modo tranquilo, fala sobre coisas que jamais aconteceriam aqui.

A música, letra e ficha técnica você pode encontrar facilmente aqui neste link 

LYRIC VIDEO
Para divulgação foi feito um lyric video (que podemos dizer que é um sub-gênero do videoclipe). Nesse tipo de vídeo a letra da música é o elemento principal, mas apresentada de uma maneira muito mais criativa do que as legendas de karaokê. As palavras que compõem a letra da música fazem parte da direção de arte, complementando o cenário ou mesmo atuando como personagens do vídeo.

Com desenho de Hugo Aranha e animação de Mauro Garcia, o lyric video de Suave Distopia nos mostra um cenário único: em uma esquina qualquer, temos a visão externa de um pequeno e antigo prédio em estilo art-decó. Noite. Uma cena cotidiana, nada de especial. Na posição de voyeur, que nem no famoso filme de Hitchcock, vemos o que acontece nas janelas do prédio.

Pessoas comuns em seus apartamentos. Em um cenário dominado pelo azul, destaca-se a janela que fica bem na esquina, com uma luz amarela. Uma mulher curvada (talvez procurando algo numa gaveta), usa uma roupinha leve e dá lance pro voyeur que assiste ao clipe. Esta cena tem como referência a obra Night Windows (1928), de Edward Hopper, conhecido por retratar personagens solitários, melancólicos.
(Sim, Hopper foi inspiração em vários filmes de Hitchcock, inclusive o já mencionado Janela Indiscreta).

Night Windows (1928), de Edward Hopper

Numa outra janela alguém toca sax com a luz apagada; em outra se vê uma luminosidade de monitor de TV. Um gato passa na rua; um gatuno se esgueira no pavimento de cima. De uma janela sai uma fumaça branca (no que parece ser um princípio de incêndio). Tudo normal. Tudo normal. As “instituições estão funcionando normalmente”.

Mulheres são agredidas e assassinadas normalmente.
Negros e pardos são agredidos e assassinados normalmente.
Pessoas LGBT são agredidas e assassinadas normalmente.
Terras indígenas são invadidas normalmente.
Como sempre. Como sempre aconteceu aqui.

Um Comentário...

  1. […] por Fausto Junior (publicado originalmente no Caderno de Cinema) […]

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