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Dramaturgia ágil e certeira

 

por Lago Júnior

 

“Uma coisa explicada deixa de interessar – O que queria
dizer o Deus que sugeriu: `conhece-te a ti mesmo´?
Talvez quisesse dizer: `deixa de interessar-te por ti
mesmo! Torna-te objetivo´! – Sócrates?
E o homem científico?”
( Friedrich Nietzsche / Além do Bem e do Mal )

 

Impossível ler Desconhece-te, estréia na literatura de teatro, do cineasta José Umberto, sem remeter-me a F. Nietzsche. Já no título a referência é clara para quem conhece um pouco da obra do filósofo alemão, e, logo depois, ao deparar com o personagem Sócrates, ele poda as asas das dúvidas. Mais do que uma referência, Desconhece-te (Salvador, edição independente, 204 págs., 2000) é um plano de vôo sobre o aforismo nietzschiano (sobre a obra?!). É um apelo ao abandono do pretenso autoconhecimento, ou, pelo menos, do que cada um traz como pronto sobre o conhecimento de si mesmo.

Uma estréia de estilo, diga-se. O sergipano/baiano – conhecido cineasta e conhecedor de cinema – mostra que sabe manipular as palavras. Ou melhor, mostrou que pode manipular e usar a palavra como ferramenta de palco; uma representação do que é dito ou do que vai encaixado nas entrelinhas. Sua dramaturgia é larga, cabe especulações imagéticas, simbologias e toda uma gama de signos inerentes ao teatro.

Desconhece-te – grotescamente descrito – fala da história de personagens que esperam um avião numa sala de aeroporto. Não nos é dado tempo nem espaço, e portanto pode ser qualquer lugar, ainda que maneirismos de linguagem permeiem o texto, denunciando um certo “nordestinismo”, parece, bem ao gosto do cineasta, que já explorou bastante o cangaço em sua obra fílmica.

Não é uma dramaturgia dócil, malevolente, tão em voga na produção baiana, nos últimos anos. Desconhece-te traz um texto denso, filosófico-existencial, político, sem ser panfletário, presunçoso ou chato. A linguagem é clara, limpa. Há, muitas vezes, jogos de palavras “inúteis”, mas muito bem contextualizados na história. Desconhece-te é também um texto satírico, de humor cáustico, proscrito, amoral. Não é para se dar gargalhadas, ainda que se possa fazê-las diante do absurdo de algumas falas ou situações.

São nove personagens – com maior ou menor importância dentro da estrutura dramatúrgica. Um cego, que tem o nome de Sócrates (!), Luli, uma atriz “vendida” ao cinema hollywoodiano, e Gabi, um cineasta que rema contra a maré do sistemão, formam o triângulo central da trama. Dizer que Gabi é o alterego do autor é por demais óbvio, mas não dizê-lo, também, seria descartar a possibilidade de o óbvio existir.

Em uma das cenas Gabi enfrenta a Mãe (personagem assim denominada), num duelo à altura dos freudianos mais ortodoxos. A cena tem mensagens claras: ele leitor/espectador julgar? Apontar culpados ou vítimas? O texto dá as dicas e quase simultaneamente as retira, como diria o bruxo Walter Smetak. Ou então, nem salve-se, como talvez proponham algumas falas dos personagens.

O cenário é bem-descrito pelo autor, ainda que algumas rubricas dos personagens procurem enfeitar demais suas reações. A peça propõe adereços de cena simples, mas de efeito visuais (pelo menos enquanto texto, imaginação) pertinentes à história. Muito pouco se fala sobre o figurino, a não ser uma nada original idéia sobre os trajes das aeromoças. O autor parece querer deixar os detalhes em aberto, ainda que, pela descrição dos personagens, o figurino possa ter sua própria lógica contextual.

A longa (inútil) espera dos personagens na sala do aeroporto pode ser uma referência à peça Esperando Godot, de Samuel Beckett. Aliás, são várias as referências ao chamado teatro do absurdo, embora, estruturalmente, a peça não se encaixe em um só rótulo. Há cenas supra-realistas, surrealistas, metafísicas… Um toque de tragédia grega, imagens cinematográfica (poderiam faltar?!).

A ambientação é bem-trabalhada, no texto, através de inserções dos sons de aeronaves chegando e partindo, ainda que, contraditoriamente, a supervisão do aeroporto avise que não é possível haver decolagens. Aliás, contradição (melhor seria dizer jogos de paradoxos) é outra marca do texto. Os personagens não são lineares, dando ao leitor/espectador em reconhecer como “humanos” aqueles que teoricamente são apenas produtos da fértil imaginação de José Umberto.

O autor propõe um jogo perigoso em Desconhece-te. Jogo de vida e morte para os personagens. Jogo de vida e teatro para o leitor, ou em breve futuro, espera-se, para o espectador. Um texto ágil, um tiro certeiro na cabeça e na alma dos que gostam da arte, seja ela engajada ou não. Desconhece-te merece um diretor à altura, um daqueles que realmente conheça o objeto em foco. E é óbvio: um elenco talentoso. Nisto a Bahia é rica.

 A Tarde Cultural, 24/03/2001

Introdução _ Desconhece-te _ André Setaro 001

 

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