caderno-de-cinema

Home » Artigos » Tocaia no Asfalto

 

 

por André Setaro

 

Tocaia no asfalto conseguiu ser restaurado e foi apresentado recentemente em Salvador em cópia luminosa. O responsável pela ressurreição do filme, Petrus Pires, filho de Roberto Pires, lutou vários anos para ter este vibrante filme de seu pai de volta com a sua imagem original – o filme possui uma fotografia brilhante e pode ser considerado um dos pontos altos do chamado Ciclo Baiano de Cinema, que se situou entre 1959 e 1962. Tocaia no asfalto, como se verá no comentário a seguir, é um trabalho de ourivesaria no que se refere à construção cinematográfica, e Pires se revela, aqui, um dos grandes artesãos do cinema brasileiro (assim como Roberto Farias num filme mais ou menos da mesma época: Assalto ao trem pagador.)
Thriller genuinamente baiano realizado em 1962, que aborda o relacionamento dos políticos com a criminalidade e as idiossincrasias de personalidade de um pistoleiro de aluguel, Tocaia no asfalto, de Roberto Pires, produzido logo após A grande feira, é um filme que pode ser visto em dois planos: no plano de sua narrativa e no plano de sua fábula (história). No primeiro, destaca-se sobremaneira a artesania de Pires, o domínio pelo qual articula os elementos da linguagem cinematográfica em função da explicitação temática. Seu trabalho, nesse particular, é de ourivesaria e, aqui, em Tocaia no asfalto, tem-se um exemplo onde a narrativa suplanta a fábula, ainda que os dois planos sempre devam ser observados em processo de simbiose.
Realizado em plena efervescência do chamado Ciclo Baiano de Cinema – 1959-1962, Tocaia no asfalto atesta o seu vigor e a sua atualidade temática. Duas seqüências podem ser consideradas antológicas e das melhores do cinema brasileiro: a tentativa de assassinato frustrada na Igreja de São Francisco, e a do cemitério do Campo Santo. Pires demonstra o seu apuro, o seu sentido de cinema, o timing raro, um faro, por assim dizer, para pensar cinematograficamente o estabelecimento da mise-en-scène como fator de impacto e de emoção.
Ainda que uma obra formatada nos moldes de uma linguagem clássica – o que não lhe tira de modo nenhum a qualidade, que se fundamenta na chave narrativa da progressão dramática griffithiana, há, no entanto, uma seqüência que, sem se ter medo de errar, poder-se-ia chamá-la de eisensteiniana. É aquela na qual Roberto Ferreira tenta se ver livre dos presos num caminhão e tenta intimidá-los com um revólver, ocasionando uma fuga em pleno movimento do veículo, quando vem a morrer o irmão do personagem interpretado por Agildo Ribeiro. A rapidez, com que são expostos os rostos embrutecidos dos pobres diabos que estão no caminhão, tem um ritmo que se assemelha a um touch buscado na concepção de montagem de Sergei Eisenstein. Esta seqüência é um flash-back, quando Agildo Ribeiro, dançando, sente-se mal e começa a ter pesadelos retroativos.
Assim, Tocaia no asfalto se sobressai pela narrativa impactante que está a serviço do argumento, mas que predomina sobre este. Que versa sobre um pistoleiro contratado para matar um político corrupto (Milton Gaúcho), que, chegando do interior, vai morar num prostíbulo e se apaixona por uma mulher (Arassary de Oliveira). Enquanto isso, um jovem político bem intencionado (Geraldo D¿El Rey) pretende instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as falcatruas do grupo do político que está na mira do assassino. Mas as reviravoltas do argumento determinam uma contra-ordem e o pistoleiro, na iminência de matar, é avisado que não mais precisa cumprir o trabalho. Apesar de um matador profissional, tem, porém, seus códigos de honra. e prefere ir até o fim naquilo para o qual fora incumbido. Não lembra Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro?
Tocaia no asfalto se desenrola em dois ambientes: o ambiente burguês da casa do político, abrangendo as festas, os colóquios e o namoro de sua filha (Angela Bonatti) com o jovem e promissor parlamentar, e o ambiente pobre do prostíbulo comandado com mão de ferro por Jurema Penna e, no qual, o pistoleiro é hospedado, vindo a conhecer uma prostituta pela qual se apaixona. Alguns personagens, como o policial interpretado por Adriano Lisboa, possuem mobilidade, pois circulam entre os dois ambientes, e Antonio Pitanga, outro matador, contratado, desta vez, para matar o outro. Pires, em alguns momentos, através da montagem paralela, tenta mostrar os acontecimentos em perspectiva de simultaneísmo, quando, por exemplo, Agildo e Arassary conversam no Farol de Itapoã.
Notável realizador, Roberto Pires, responsável pelo primeiro longa feito aqui, Redenção (1956-59), pelo seu extremado domínio formal da linguagem, poderia ter ido longe se trabalhasse no exterior, mas as injunções mercadológicas de um cinema caótico, como o brasileiro, determinaram-lhe, por vezes, um recesso forçado. Mas filmes como A grande feira e Tocaia no asfalto bastam para se ter um cineasta.
Não se pode deixar de registrar a funcionalidade da partitura de Remo Usai – que soa como um grito trágico na seqüência final do trem, o bom argumento de Rex Schindler – também produtor, associado a David Singer, e a fotografia de Hélio Silva. E uma pergunta que não se quer calar: por que, com todos os recursos existentes hoje, o cinema baiano não consegue fazer algo parecido com Tocaia no asfalto?
Produção genuinamente baiana, seu elenco é formado por gente da terra, exceção de Agilldo Ribeiro, Arassary de Oliveira, Ângela Bonatti, entre poucos. Mas são os baianos que tomam conta do cast: Geraldo D’El Rey (o galã do cinema baiano que depois se transformaria no virulento Manoel Vaqueiro de Deus e o diabo na terra do sol), David Singer (aqui dublê de ator de produtor), Jurema Penna (atriz baiana consagrada pela sua dedicação ao proscênio), Antonio Luz Sampaio (que depois passou a se chamar Antonio Pitanga), Roberto Ferreira (o popular Zé Coió, que de palhaço passou a sério ator dramático), Maria Anita (muito popular em programas infantis da recém inaugurada Tv Itapoá), Milton Gaúcho (uma griffe da cinematografia da Bahia, chegando a participar de quase todos os filmes, com raras exceções e, entre elas, os filmes de Glauber Rocha), Maria Lígia, Hélio Rodrigues, Orlando Senna (sim, que na época era jornalista e crítico de cinema), Othon Bastos (o Corisco de Deus e o diabo), Sílvio Lamenha (como ele próprio, colunista social com um caderninho na mão), Sonia Noronha, Walter Webb, etc.

Deixe um comentário