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para Joãozito

 

por Raul Moreira

 

 

Foram três anos de um jogo de xadrez contra a morte. Em dado momento, ele chegou a enganá-la, a ganhar tempo, alegando que o seu espírito não estava preparado, como o fez o cavaleiro nórdico que retorna das Cruzadas em O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman. No entanto, a exemplo do que aconteceu no filme, um clássico, no final, ela levou a melhor, como sempre: foi-se Joãozito, como era conhecido o artista visual João Pereira, natural de Amargosa, aos 51 anos.

Talvez a morte esteja a sorrir com mais um xeque-mate, ou talvez não, até porque o adversário se fez valoroso e evitou esparramar as peças no tabuleiro, mesmo intuindo que seria derrotado. Para aqueles que acompanharam de perto o embate, ficou a certeza de que Joãozito foi o “vencedor moral”, ainda que tal prêmio de consolação possa parecer cruel aos que já sentem a ausência da sua vigorosa companhia.

A despedida foi ontem, no Jardim da Saudade, onde o seu corpo foi cremado. No último adeus, além dos familiares, centenas de pessoas, boa parte dos quais artistas, de diversas vertentes. Uma guitarra, com amplificador, estava lá, na capela mortuária, à disposição: vários solos ecoaram no bosque e perderam-se no azul infinito.

Vencedor da Bienal do Recôncavo em 1992, uma das primeiras, cenógrafo (cinema, teatro, espetáculos, camarotes, museus), curador, articulador cultural, estudioso de filósofos como Nietzsche e Deleuze, guitarrista, ilustrador, produtor, empreendedor, delirante, enfim, sujeito de muitas atribuições e tentáculos, há quem diga que a sua fome de absoluto o pôs antecipadamente no radar da morte.

Talentoso e ambicioso, combinação explosiva, Joãozito Pereira, com sua voz sempre em altos decibéis, era uma “máquina de guerra” a comandar a Blade, a sua empresa de cenografia, ao lado da também artista visual Lanussi Pasquali, sua musa e companheira.

Tanto ritmo e volúpia geraram susceptibilidades em uma província madrasta e modorrenta, o que, naturalmente, rendeu-lhe polêmicas e desafetos. Vale ressaltar que, nem mesmo quando era corroído pela doença, parou de realizar: nos últimos três anos, esteve à frente de muitas articulações e projetos de envergadura, como as exposição Amar a Lina, no Teatro Gregório de Matos, o Perto de Lá, no Museu de Arte da Bahia, a Ocupação Coaty, na Misericórdia, e o Espaço Carybé de Artes, no Forte de São Diogo, entre outros.

Há algum tempo que o artista alimentava planos para realizar mais uma exposição individual, mas faltou-lhe a força necessária para empunhar os pincéis. No ano passado, organizou, no Museu de Arte Moderna da Bahia, pouco depois de rejeitar o convite para assumi-lo, a instalação Só Cabeças, na qual reuniu dezenas de obras de artistas os mais diversos, brasileiros e estrangeiros, muitas das quais cedidas por galerias e museus.

A respeito de sua produção pictórica, que se encontra em galerias ou em paredes de colecionadores, ressalta-se a sua obsessão por cabeças, por expressões, de frente e de perfil, obras que se notabilizam pelo indecifrável em cada olhar.

Por conta da amizade com o músico norte-americano Arto Lindsay, Joãozito Pereira arrematou alguns objetos que eram do saudoso Lou Reed. Em sua casa, orgulhoso, exibia, ao lado de muitos instrumentos de cordas, amplificadores e outros aparatos que foram do autor da música Walk On The Wild Side, a quem homenageou ao chamar o filho mais novo de Lou.

A paixão pela guitarra, aliás, o levou a superar os próprios limites. No ano passado, debilitado por conta da quimioterapia, foi ao extremo com os rasgos sujos de sua guitarra, enquanto Orlando Pinho se contorcia em uma performance, em pleno Teatro Gregório de Matos. Depois, no Multiespaço Lalá, solitário no palco, fez o instrumento chorar antecipadamente para a companheira que o ajudou a driblar a morte por certo período.

Figura emblemática, uma vez que parecia pertencer a muitas épocas, a longa luta pela vida acabou por levá-lo a compreender, a contragosto, os mistérios da finitude, que bateu-lhe à porta com aparente antecipação: o seu olhar nos últimos dias não carregava mais o indecifrável dos rostos de seus quadros, sinal que o seu espírito, finalmente, parecia pronto para respeitar o derradeiro suspiro do corpo.

O resto é um enigma doloroso e o silêncio de quem também espera a hora do xadrez.

 

Um Comentário...

  1. Juliana disse:

    Para quem esteve bem perto de Joao, chacoalhou nos arrastoes que pelo seu entorno ele espalhava, faiscando motivos, molas criativas, usina de invenções!, este texto soa como um testemunho fiel à sua potência e grandiosidade!

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