Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Trampolim

 

 

por João Rodrigo Mattos

 

Fotos – Valéria Simões

 

Encontrei no meu baú de afetos dois textos inéditos que tive vontade de compartilhar convosco : Um quando – poucos meses antes de rodar – estava terminando o último tratamento do “Trampolim do Forte”, na Vila-Rosa, a nossa cinquentenária casa em Itaparica. E outro, que é uma carta minha ao departamento de arte do filme, mais precisamente aos talentosos Henrique Dantas ( diretor de arte do filme ) e Carol Tanajura ( sua assistente ), durante a pré-produção. Creio que ambos retratam momentos diferentes e bem simbólicos dentro do processo criativo cinematográfico de um primeiro longa de ficção.

Fiquei maravilhado ao ler a contribuição dos colegas no “Caderno” inventado pelo sempre surpreendente Jorge Alfredo. Longa vida ao caderno de cinema !

 

Mar Grande, 20 de Fevereiro de 2008. Verão.

“Podemos dizer, indiferentemente, que a idéia de causa se baseia na de tempo,
ou de que a de tempo se alicerça na de causa;
a causa e o tempo simultâneos surge”.

Agostinho da Silva

 

Pois a causa do Trampolim esteve guardada, sendo cevada pelo tempo desde então. Em 2003 finalizei o primeiro tratamento, escrito em duas sentadas únicas, com um bom intervalo de alguns meses entre elas. No ano vivido em Londres sequer o abri, mas não raras vezes sentia a sua brisa. Crescia dentro da imaginação.

O local para a história estava definido e tão somente isso. Certo dia, dentro do autocarro 23, que ostentava na sua placa de destino a sintomática palavra “Batalha” – que se referia à bela praça no cimo do centro histórico da Cidade do Porto – me ocorreram alguns nomes curiosos, realmente interessantes para personagens e assim os fui anotando no pequeno caderninho com capa de couro que tinha sido do avô Agostinho e que me foi ofertado por Olavo antes do meu embarque para Portugal em 2000. Um caderno vazio, que atravessara três gerações. Havia apenas a bela dedicatória do meu irmão : “ Para você guardar as luzes lusas…e os sonhos azuis da aurora no Porto…”. Pois bem, nele anotei absolutamente todas as idéias para o “ Agostinho da Silva – Um Pensamento Vivo ” e tudo o que me começou a ocorrer para o Trampolim do Forte. Primeiramente os nomes, tais como : Felizardo, João Rapagão, Beiçola, Calçola, Mingo, Furico, Caga-Sêco, Fuleirinho, Overnaite, Palavreado, Bel Prazeres, Dora Avante, Lis Boa, Flor da Pele, Papai Garotão, Hannah Barbera, Fã Clube, Tia Arilma, Jóia, Tonga da Mironga, Tetéia e o mais “simples” entre estes: Déo, que na verdade se chamava Jesus de Deodato, em homenagem ao seu pai, Deodato, falecido.

Como exercício, lembro-me, comecei a fazer-me algumas perguntas: “As crianças pobres de Salvador que passam o tempo nos arredores do Forte de Santa Maria, na praia do Porto da Barra, gostam de quê? e assim respondia as minhas próprias questões: “gostam de pular do Trampolim, brincar, sonhar, ir à praia, dançar reggae, samba e pagode, gostam de capoeira, futebol, marijuana e ver o pôr do sol por trás da ilha…”. Depois me perguntava “Essas mesmas crianças enfrentam o quê? abandono, violência, racismo, trabalho e exploração sexual infantil, marginalidade, más condições de habitação e saúde, perseguição policial e a má influência das igrejas oportunistas…”.

Com algumas dessas respostas pude ligar os pontos e dar sentido aos nomes dos personagens. Com estas respostas ficou claro saber que Bel Prazeres, Dora Avante, Lis Boa e Flor da Pele, por exemplo, seriam um grupo de prostitutas mirins. Ficou mais fácil perceber que Furico, Caga-Sêco e Fuleirinho seriam um trio de meliantes, assim como Hannah Barbera, Fã Clube e Tia Arilma seriam travecas desmesuradas. João Rapagão, Beiçola, Calçola e Mingo seriam os amigos mais próximos da dupla de protagonistas: Déo e Felizardo.

Ontem, correndo de manhã pela praia, já no fim da corrida, pisei numa Pinaúna escondida sobre os sargaços. Passei um bom tempo tentando tirar um espinho que teimava ficar encravado na sola do meu pé. Quando finalmente consegui, fiquei exultante, comemorei com se tratasse de um gol. Me veio na mente que iniciar a preparação de um filme assemelha-se como estar com os pés cheios de espinhos. E temos que ter paciência e disciplina para irmos tirando cada espinho, um a um, para finalmente conseguirmos pisar para chegar onde se quer.

Para o Departamento de Arte.

Henrique e Carol,

O Trampolim agora vai deixando de ser algo que brotou da minha imaginação e memória para ser algo partilhado por todos que embarcam nessa jornada.

Mas nesse partilhar, como roteirista e diretor da obra, devo manter preservada a integridade das minhas crenças. Ou pelo menos a maioria delas. Ser convencido do contrário ou seduzido pelas idéias dos colaboradores é um dos maiores prazeres deste labor utópico, caótico e precioso que é a vertigem do cinema.

Li uma entrevista do João Miguel na Revista Muito e concordo com ele quando diz que “ não gosta de política, mas se interessa pelos aspectos politicos do mundo”.  Para mim está certíssimo. Política é interessar-se pelo que acontece na Pólis (e isso inclui tudo, corações e mentes, o hardcore do trabalho de qualquer artista). E nesse aspecto o Trampolim é um filme político.

E me veio a pergunta : o que seria então um roteirista, um diretor? Talvez um cronista ou romancista atormentado, acordando subitamente na noite com imagens transbordando pelos sete buracos da cabeça.

Para mim, os momentos mais lúdicos e surreais do filme serão quando deixarmos as crianças livres para brincarem, enquanto as filmamos no melhor estilo cinema verité. E os mais dramáticos serão aqueles em que os nossos pequenos atores sintetizarem o texto em expressões precisas, silêncios e olhares.

Está claro que vocês devem passar a conhecer o Porto da Barra e o centro da cidade tão bem como eu. E para isso estou aqui para ajudá-los e vice-versa. E tenho certeza absoluta que com o talento e a sensibilidade de vocês, isso é um fato.

Pois é. Como sabem trabalho o filme como uma espécie de etnografia fictícia. E me norteio por uma paráfrase de Pessoa: “saltar é preciso, viver não é preciso”. Preciso de precisão.

Tudo que for saltar do Trampolim vou filmar de maneira precisa, inspirado pelas magníficas sequencias de saltos ornamentais de “Olympia” de Leni Riefensthal.

E tudo que for viver, será filmado de maneira imprecisa como a vida daquelas crianças, a decupagem das cenas num instante instável, uma linguagem de câmera urgente, como a natureza da arte é: urgente. No Trampolim saltar é preciso,  pois se assim não for, pode custar a vida.

E a minha única possibilidade de redenção antes deste salto é o meu próximo filho que está pra vir em fevereiro. Um filme sobre a infância, uma filhota que chega. Duas gestações.

E pra não perder a viagem, deixo uma quadrinha do Agostinho :

“Pé bem firme
em leve dança
com todo saber de adulto
e todo brincar de criança”

Aquele abraço,

João Rodrigo.

2 Comentários...

  1. Josias Pires disse:

    Muito bom! Uma beleza a descrição do afeto que se encerra no processo criativo. Grande filme João Rodrigo! A Bahia está viva ainda e nossos filmes terão que ser vistos, oxalá …

Deixe um comentário