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Por Jorge Alfredo

 

O carnaval muda a depender do nosso ponto de vista. O folião pipoca tem uma visão bem diferente de quem vai em cima do Trio ou lá em baixo, de abadá. Que dirá daqueles que ficam dependurados em galhos de árvore, marquise, varanda de camarote ou simplesmente se ajeitam num canto “pra ver a banda passar”. Os Carnavais são muitos, distintos e intensos, inclusive nas suas diferenças e mesmices. Me chama a atenção os corpos largados, exaustos, estendidos no asfalto, descontraidos – em contraponto ao dia-a-dia de estresse e medo – aqueles momentos entre a passagem de um e outro trio ou bloco, entre a esbórnia e a ginga dos quadris. Na Mudança do Garcia o carnaval de rua mostra a sua cara e o Arrrastão, na quarta,  consagra a nossa vocação de folião pipoca. Batatinha, Dodô e Osmar. A câmera colada no cangote de Ivete, na orelha de Bell,  percorre as quebradas e também os camarotes, e segue os caminhos dos Filhos de Gandhi, Ilê Aiyê, Brown, Muquiranas, Daniela, Margareth… Caetano e Gil, Moreira e Durval… Muitos foliões anônimos e vendedores ambulantes, tantos personagens inimitáveis nesses sete dias de folia…  Foi preciso estar com as lentes e o coração abertos. De corpo presente e contar com a sorte. Muitas vêzes, algo que passou caiu na rede das nossas lentes trieletrizadas. Outras vêzes foi preciso ir à luta e reinventar a parada. “Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Pra qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?”

Evoé, Baco!

Já é Carnaval, Cidade!

GERÔNIMO TODO TRIELETRIZADO

É um final de tarde ensolarado de verão e a cidade recebe uma luz dourada que embeleza ainda mais a sua arquitetura.  Gerônimo, uma das personalidades mais originais da cultura baiana, nos leva a uma viagem alegre, com depoimentos curiosos sobre o processo criativo de uma das mais instigantes invenções brasileiras e porque não dizer do mundo; o Trio Elétrico. Autor do hit que nos anos 80 vociferou pros quatros cantos do mundo o conflito entre o Trio Elétrico e o Bloco Afro quando se cruzavam na avenida, Gerônimo também foi quem nos avisou que nessa cidade todo mundo é de Oxum. De percussionista, tocador de bumbo – no tempo das laterais baixas dos caminhões, nos primórdios do trio Armandinho, Dodô & Osmar – a protagonista da grande transformação do Trio no decorrer dos anos 80, o nosso querido ex-Rei Momo, sabe que quem foi rei sempre é majestade, e nos  fala sobre a evolução da música do Carnaval de Rua, os bastidores da festa, suas contradições e suas mazelas… E foi muito prazeroso e enriquecedor ouvir a versão dessa pessoa singular sobre a evolução da nossa festa mais popular e plural. Eu sou negão e o meu coração é a Liberdade!

 

AS BACANTES

O primeiro desafio foi confundir até mesmo o mais soteropolitano de todos ao “colocar” uma praia virada para o Elevador Lacerda e estreitar os 14Km que distancia a praia mais próxima, praia do Duro, em Mar Grande/Itaparica, para apenas alguns 400 metros. Depois, foi tornar atores em publico e o publico em arte. Uma união sinergética e uniforme, que fez o Deus Baco surgir de cada um e externar a essência da carne, ou melhor, do carnaval. Aícha Marques, Zeca de Abreu, Lázaro Machado, Annalu Tavares, Mirella Matos, Nonato Freire e Edvana Carvalho encenam uma adaptação livre do clássico “As Bacantes”, de Eurípedes, com cenas noturnas rodadas na prainha do Forte do Mar São Marcelo e a bordo de uma caravela seiscentista. A trupe  desembarca em plena  Mudança do Garcia. Como na história; Penteu é devorado pelas Bacantes. A Mudança do Garcia, simbolicamente é o ponto de ruptura entre a encenação e o improviso. Muquiranas e travestidos, em bandos, se confundem com o elenco e se confundem nos meus planos. Ah, Dionísio, o deus da festa, da fartura e do teatro. Deus que se bebe, que se come, deus do vinho, das plantas,  deus da maconha, da ayahuasca. Deus de todos estes prazeres que são proibidos e temidos, prazeres que despertam a mente e o desejo. Prometeu, aquele que roubou o fogo dos deuses e depois ficou amarrado, preso, com os abutres vindo beliscar.

 

ÍNDIO-AFRO

Os afrodescendentes queriam um bloco diferente, com a força dos Panteras, norte americanos, onde todos os negros usavam cabelos black power. Clarindo Silva esteve e está presente a cada momento dos bastidores do Carnaval de Rua de Salvador. Com sua delicadeza, beleza e identidade singulares,  perpetua a cultura popular, essa força que vem de uma história de união de culturas, que  fez surgir no carnaval baiano uma entidade carnavalesca chamada bloco de índio, de onde surgiram os blocos afro nos anos 70; Boa parte dos diretores dos blocos afro foi dissidente de blocos de índio. Os Mercadores de Bagdá, Cavalheiros de Bagdá…  Nelson Maleiro  foi o grande precursor dos instrumentos de percussão do carnaval da Bahia. Ele tinha sua tenda na Barroquinha e fazia instrumentos com couro de gato e pele de jiboia. Os “Filhos de Brasília” foram os primeiros a usar instrumentos feitos por Nelson Maleiro com  latas de gás, caixão de cebola, barrica de bacalhau… iam pra rua com o estandarte e paravam de porta em porta lá no Pau Miúdo, Cidade Nova, Caixa D’água, e a cidade começava a ver os Blocos de Índios se transformando em Blocos Afro ou deixando de usar suas fantasias fantásticas pra usar abadá… Escutar Clarindo Silva é muito gratificante!

 

ARMANDINHO E A GUITARRA BAIANA

Trieletrizado aborda diferentes contextos da malha multicultural do Carnaval de Salvador. O filme se desenvolve a partir dos depoimentos de Armandinho Macedo, Clarindo Silva e Geronimo Santana e conta com as performances de Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Margareth Menezes e Bell Marques e de um grupo de atores (Aicha Marques, Zeca de Abreu, Lázaro Torres, Mirella Mattos, Annalu Torres, Edvana Carvalho e Nonato Freire) que através de uma adaptação livre do clássico As Bacantes, de Eurípedes, interagem com os foliões na Mudança do Garcia.

O surgimento do Trio Elétrico, a invenção da guitarra baiana, o clima dionisíaco que se apodera da cidade durante o reinado de Momo, questões estéticas, antropológicas, políticas e históricas, surgem na dramaturgia que se utiliza de imagens, sonoridades, corporalidades, dirigidas e captadas, em suas espontaneidades, durante o carnaval de 2010.

 

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2 Comentários...

  1. Mirella Matos Sales disse:

    Acredito na força mágica e mística da vida e esse trabalho de Jorge Alfredo Guimarães, o filme Trieletrizado, é um exemplo em minha vida que esta força existe. Essa foto registrou esse momento, um dia de filmagem em pleno carnaval, na Mudança do Garcia. Eu tendo que me jogar e improvisar no papel de uma das bacantes do filme com toda aquela gente disposta a tudo no carnaval, eu quase sem roupa, cumprindo as indicações do diretor de comer frutas, sendo jogada de um lado para o outro e eis que me deparo com esse bloco nada sugestivo de chifres na cabeça. E tudo enfim contribui para que essa cena hilária tivesse acontecido. Quem ainda não assistiu vale a dica do filme Trieletrizado, esta é mais uma das cenas maravilhosas que o filme registrou do e no carnaval de Salvador.

  2. […] Orija e a Áudio Vídeo, de Wandilson Bastos Moreira, meu querido Dica Bastos, e tinhamos filmado Trieletrizado, o carnaval de rua de Salvador a partir de depoimentos de Armandinho Macedo, Geronimo Santana e […]

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