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Entrevista com Sérgio Machado

 

O que fez você se interessar em filmar essa história? E o que ela tem a ver com sua própria história de vida?

Sou filho de músicos e passei parte da minha infância em torno de uma orquestra. Meu pai tocava trompa e era pianista, e minha mãe era fagotista na Sinfônica da Universidade da Bahia. Eles eram estudantes, não tinham como pagar uma babá, por isso cresci brincando entre instrumentos e ouvindo música clássica. Cheguei a estudar piano e violino, mas não levei adiante graças a minha absoluta falta de talento musical.

O filme é, sem dúvida, uma homenagem aos meus pais e trouxe de volta importantes lembranças que estavam perdidas.

É também um projeto pessoal porque me sinto próximo do dilema do protagonista – um violinista que tem uma crise nervosa numa audição e se defronta com a possibilidade de não fazer mais aquilo para qual se preparou durante a vida inteira.

Consegui avançar no roteiro no instante em que me dei conta do quanto de Laerte havia em mim. Decidi ser diretor de cinema na infância e nunca cogitei fazer nada diferente. O medo do protagonista é também meu medo de um dia, por algum motivo, não conseguir mais filmar.

Nos últimos dois anos a música voltou a fazer parte do meu cotidiano desde que meu filho Jorge, de onze anos, depois de uma visita ao set de filmagem de “Tudo que Aprendemos Juntos”, me pediu para aprender a tocar violino.

A cada dia tem me chamado atenção o ganho de disciplina e autoestima que a prática instrumental tem proporcionado a ele. Ao aprender a tocar, Jorge amadureceu e ganhou confiança. Ele tem avançado rapidamente e está se preparando para fazer parte da Sinfônica de Heliópolis, justamente a orquestra na qual o filme é inspirado.

 

Como você lidou com o fato de esse filme ser baseado numa história real?

Quando iniciamos os trabalhos tentamos conhecer a história do Instituto Bacarelli e nos aproximar ao máximo do universo do filme. Marta Nehring, roteirista e pesquisadora, chegou a morar um tempo em Heliópolis. Entrevistamos dezenas de músicos e professores e falamos com os membros da primeira formação da orquestra.

Discuti várias vezes o roteiro com o Edilson e Edmilson Venturelli, que administram o Instituto, e com o próprio Silvio Bacarelli, fundador da orquestra. Assisti aulas e até arrisquei por dois meses estudar violoncelo para conviver com os alunos e entender as dificuldades de aprendizado.

Estava claro, no entanto, que um filme não daria conta da grandiosidade de um projeto que tem levado o ensino da música para milhares de jovens em situação de vulnerabilidade social. O roteiro final acabou sendo uma mistura da história do nascimento do Instituto Bacarelli, da peça “Acorda Brasil”, de Antônio Ermírio de Moraes, e de questões pessoais minhas.

 

Como você acha que esse filme pode colaborar com a evolução na educação e na cultura do Brasil?

Não tenho a ilusão de que esse filme – ou qualquer outro – mude a realidade de um país, mas acho que ele pode estimular o debate sobre o papel das artes na formação dos jovens. Nas últimas décadas o Brasil avançou na distribuição de renda, mas a educação e o acesso à cultura continuam entre os calcanhares de Aquiles do país.

O cinema tem retratado de maneira contundente as nossas mazelas. A violência e a exclusão social são questões centrais no drama brasileiro. Filmes como “Cidade de Deus”, “Carandiru” e “Tropa de Elite” exibiram nossa ferida para o mundo. Quando fui convidado para dirigir esse filme tive a sensação de que era importante falar também das pessoas que estão buscando caminhos para resolver nossos problemas.

O Brasil está longe de encontrar a solução para seus dilemas, mas nos últimos anos têm surgido iniciativas que indicam que a melhor forma de lidar com a violência e a desigualdade é educando e facilitando o acesso à cultura. Pareceu-me importante falar disso. O cinema não tem força para mudar a realidade, mas alguns filmes importantes foram feitos a partir desse desejo.

 

Qual sua expectativa para a recepção do público à história de seu filme?

Não tenho uma noção clara de como o público vai receber nosso filme. Acredito no potencial dele porque foi feito de maneira apaixonada e sincera por todos. O roteiro trata de temas contemporâneos, e a linguagem universal da música é condutora da narrativa. Imagino que isso possa ajudar “Tudo que Aprendemos Juntos” a dialogar com pessoas de diferentes países.

Quando estou escrevendo, filmando ou montando, não consigo pensar na recepção que o filme vai ter. Procuro, ao máximo, ser coerente com o que acredito e com a realidade que estou retratando.

Nesse filme pensei muito nos jovens atores que representaram personagens próximos deles mesmos. Durante o processo eu imaginava o que eles sentiriam quando vissem o filme pela primeira vez. De certa forma, eles eram o público que eu tinha em mente quando estava filmando.

 

Como se desenrolou o processo criativo do roteiro? Fizeram pesquisa? Trabalharam com a orquestra que o filme retrata?

Num primeiro momento “Tudo que Aprendemos Juntos” foi desenvolvido por Maria Adelaide do Amaral e Marta Nehring, que criaram as bases estruturais inspiradas na peça “Acorda Brasil”.

Trabalhei por um tempo junto às duas, depois me aproximei gradualmente da realidade do Instituto. Entrevistei muita gente que testemunhou o nascimento da orquestra, inclusive seu fundador, o maestro Silvio Bacarelli.

Durante o processo de pesquisa em Heliópolis fui guiado por Graziela Teixeira, uma violista que fez parte da primeira formação da orquestra. Ela me abriu as portas da comunidade e me contou histórias que estão no filme.

Depois disso escrevi sozinho e, para dar o texto final, convidei o diretor e roteirista Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”), um dos cineastas brasileiros que mais admiro.

 

Os atores jovens do filme são atores profissionais? Já dominavam os instrumentos que tocam no filme?

Meu primeiro trabalho no cinema foi ser assistente de direção e fazer o casting de “Central do Brasil”, de Walter Salles. Naquele filme trabalhamos com uma mistura de atores consagrados, atores de teatro e não-atores. Desde então, tenho repetido em todos os meus filmes essa mescla.

Foi durante a pré-produção de “Central do Brasil” que conheci Fátima Toledo, preparadora de atores de “Tudo que Aprendemos Juntos” e de quase todos os meus filmes. Com Fátima aprofundei uma amizade durante os ensaios de “Cidade Baixa”, meu primeiro longa-metragem de ficção, e chegamos a dirigir juntos o curta “O Príncipe Encantado”.

Em “Tudo que Aprendemos Juntos” temos interpretes experientes como Lázaro Ramos e Sandra Corvelone (ganhadora da Palma de Ouro no Festival de Cannes), atores em início de carreira como Kaique de Jesus e moradores da periferia como Elzio Vieira e todos os outros jovens que fizeram parte da orquestra. O filme também conta com participações especiais, como as dos rappers Criolo e Rappin Hood e da maestrina Marin Alsop, da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo).

Uma parte dos garotos da orquestra foi recrutada entre os músicos da Sinfônica de Heliópolis, outros alunos são jovens moradores da periferia. Muitos não sabiam tocar nenhum instrumento. Eles fizeram aulas e, como as filmagens foram adiadas por alguns meses, tiveram a oportunidade de ter uma base musical sólida.

 

Como foi a escolha de Lázaro Ramos para protagonizar o filme?

Lázaro é um grande amigo-irmão, eu o conheço desde o inicio de carreira. Fui eu que dirigi o teste dele para “Madame Satã”, filme que o consagrou como um dos mais importantes atores de sua geração.

Depois fizemos juntos a série de TV “Pastores da Noite” e o convidei para protagonizar, junto com Wagner Moura e Alice Braga, “Cidade Baixa”.

Vendo “Tudo que Aprendemos Juntos” tenho a sensação de que ninguém faria o Laerte tão bem quanto ele. Parece agora uma escolha óbvia, mas não foi.

Inicialmente eu temi que a escolha dele trouxesse para o primeiro plano a questão racial, que era algo que eu não tinha pensado quando estava escrevendo o roteiro. Não queria que o filme fosse visto como uma versão contemporânea de “Ao Mestre com Carinho”, com Sidney Poitier. Enviei o roteiro para o Lázaro para convidá-lo a fazer uma participação como Messias, o amigo do protagonista.

Quando ele leu, me ligou dizendo que precisava fazer o Laerte, porque aquela era a história dele. Felizmente demos ouvido a ele. A escolha de Lázaro acrescentou uma nova camada a nossa história. Além de um grande ator, Lázaro é um coautor. Ele manteve o elenco unido, falava de igual para igual com os meninos, que se uniram em torno do exemplo dele.

 

Como você define o protagonista do filme?

Acho que há muito de mim no protagonista. Laerte é um baiano obstinado, apaixonado pelo que faz. Seu maior medo é um dia não poder mais fazer aquilo para o qual treinou a vida inteira. Em alguns momentos do processo de escritura convivi com essa angústia e resolvi trazer ela para dentro do filme.

“Tudo que Aprendemos Juntos” fala sobre um músico que se prepara durante anos, mas falha na hora decisiva, como um boxeador que treme diante do adversário ou um artilheiro que titubeia na hora do pênalti. Procurei construir um personagem contraditório, cheio de dúvidas e hesitações, mas coerente com o seu desejo.

A convivência com os jovens da periferia faz Laerte reencontrar o prazer de tocar, que ele havia perdido pelo excesso de rigor e disciplina.

Lazaro também emprestou muito dele para o Laerte: a disciplina, o rigor com o fazer artístico e o senso de humor.

 

Fale um pouco das principais características técnicas do filme? Fotografia, arte, figurino, maquiagem.

Como o início das filmagens foi adiado, acabei não contando com parte dos parceiros com quem estive em filmes anteriores. Trabalhei com a maior parte da equipe pela primeira vez, mas foi um processo prazeroso.

Saio da experiência de “Tudo que Aprendemos Juntos” com a sensação de que extraímos o melhor que a história poderia dar. Devo muito disso isso à perseverança dos produtores Fabiano e Caio Gullane, que em nenhum momento abriram mão de nada que fosse importante para o filme.

Marcelo Durst, o fotógrafo, mergulhou de maneira apaixonada no projeto, ele não filmava havia alguns anos no Brasil e contagiou o set com um enorme desejo de cinema. Antes das filmagens eu fiz uma espécie de mapa de referências visuais – utilizando pinturas e fotografias. Ele estudou a fundo esse material e defendeu visceralmente que chegássemos ao resultado desejado. É alguém com quem certamente pretendo trabalhar novamente.

O que norteou a feitura de “Tudo que Aprendemos Juntos” foi a noção, um tanto abstrata, de que os sentimentos dos personagens estariam na raiz das decisões estéticas. A escolha das locações, o posicionamento de câmera, o uso de luz e montagem, tudo isso deveria passar pelo desejo dos personagens e por sua subjetividade.

Trabalhamos para que as interpretações se distanciassem de estereótipos. Como em meus filmes anteriores, investi numa preparação intensa e em um longo período de ensaios para, durante a filmagem, deixar espaços a serem preenchidos pelos atores, pela equipe e pelos acasos.

Valdy Lopes, o diretor de arte, foi um parceiro na construção de uma arte feita com rigor, onde cada detalhe é pensado para não ser notado. Nossa ideia era que os personagens deveriam sempre estar em primeiro plano, e o cenário, o figurino e a maquiagem deveriam acrescentar camadas e dar densidade para eles.

Outro colaborador fundamental foi o montador Marcio Hashimoto, que não só ordenou e ritmou os planos, mas discutiu e aprofundou conceitualmente cada cena do filme.

 

A música é um elemento estruturante do filme. Fale-nos um pouco sobre as escolhas musicais e sobre a mistura de tantos estilos diferentes.

Por causa da influência dos meus pais, fui criado ouvindo quase que somente música erudita até a adolescência. Um dos trabalhos mais prazerosos desse filme foi escolher a trilha. Durante o ano que antecedeu as filmagens assisti a todos os concertos da Osesp e até tomei aulas particulares de história da música.

Durante a preparação descobri o riquíssimo universo do rap paulistano e a poesia de Mano Brown, Criolo, Rappin Hood, Sabotage e Emicida. Desde o início eu tinha claro que a trajetória do personagem era um caminho de mão dupla. Laerte vai para Heliópolis dar aulas música erudita, mas se depara com um universo musical rico e aprende tanto ou mais do que ensina.

Ele não vai a Heliópolis para salvar os alunos, vai ao encontro de si mesmo. Para isso era importante que o universo musical contemporâneo fosse da melhor qualidade. Queria que o diálogo fosse de igual para igual, sem hierarquias.

Muita gente contribuiu na criação da trilha: Alê Guerra, Felipe de Souza, Arthur Nestrovsky, o maestro Edilson Venturelli, o pessoal do Coletivo Instituto. A canção dos créditos finais – um rap composto pelo genial Sabotage, arranjado pelo maestro Ruriá Duprat e tocado pela Sinfônica de Heliópolis – sintetiza essa busca por um caminho de mão dupla.

Depois da gravação, ficamos sabendo que um dos grandes sonhos do rapper Sabotage, assassinado em 2003, era que uma de suas músicas fosse tocada por uma orquestra.

 

Conte um pouco da história real por trás do filme. Como você vê a evolução da Orquestra Sinfônica de Heliópolis entre 1996 e hoje?

O filme é inspirado na trajetória do Instituto Baccarelli, um dos mais bem-sucedidos projetos de inclusão social do país. Uma história que se inicia em 1996, depois do incêndio que consumiu parte de Heliópolis, a segunda maior favela da América Latina. Comovido com a tragédia, o maestro Silvio Baccarelli iniciou o ensino da música clássica para jovens da comunidade.

O Instituto Bacarelli recebe hoje cerca de 4.000 alunos por ano. A orquestra tem como maestro titular ninguém menos que o consagrado Isaac Karabtchevsky. Os meninos de Heliópolis já excursionaram algumas vezes pela Europa, tiveram a oportunidade de serem regidos por Zubin Mehta, tocaram com o violinista Joshua Bell, se apresentaram para o papa Bento XVI e levaram às lagrimas o compositor italiano Ennio Morricone.

É uma trajetória impressionante e me sinto orgulhoso por estar contando, mesmo que de forma indireta, essa história.

 

O que mais te tocou em todo o processo do filme?

O processo de feitura de Heliópolis foi intenso e deixou em mim marcas profundas e saudades. Poderia destacar algumas coisas, como o mergulho no universo da música, que foi de certa forma um reencontro com os meus pais. Mas não tenho dúvidas de que o que mais me marcou foi o convívio com os meninos que faziam parte da orquestra. A dedicação deles me ensinou muito. Desenvolvi com alguns uma relação de afeto e amizade. Saí do filme com ainda mais convicção de que existe por aí uma moçada de talento, ávida por contar sua história e que só precisa de uma oportunidade para brilhar.

Começamos a rodar pelas cenas entre Lázaro e os meninos na sala de aula, a alta voltagem e a intensidade dos meninos que contagiaram todas as filmagens.

Lembro-me especialmente de quando terminamos de filmar as aulas e os meninos tiveram uma semana de recesso. Antes de irem embora, os garotos – liderados por Caíque e Elzio – convocaram Lázaro para uma conversa e o intimaram a não deixar a bola cair na ausência deles. Assisti a essa pequena reunião sem que eles percebessem a minha presença. Fiquei impressionado com a ousadia da moçada e com a humildade de Lázaro, que os escutou sem nenhuma ponta de condescendência. Eram colegas, dialogando de igual para igual. A partir daquele momento entendi que aqueles meninos eram a alma do filme, que a história seria contada por eles e para eles.

 

Como o filme dialoga com a realidade brasileira?

A situação política do Brasil mudou muito durante os anos que o filme levou para ficar pronto. Quando começamos a pensar no projeto havia um clima eufórico de mudança, os índices econômicos e o aumento do consumo pareciam indicar que finalmente o Brasil iria realizar seu potencial de país importante no cenário mundial.

Nos últimos dois anos a descoberta constante de casos de corrupção alimentou a volta de um perigoso pensamento de extrema direita. Os mais reacionários e preconceituosos ganharam voz e perderam a vergonha de se expressar. Tenho assistido com perplexidade e tristeza, tanto na grande imprensa quanto nas redes sociais, a proliferação de um discurso rancoroso e retrógrado. A última eleição expôs uma fissura no país que não era tão visível.

Eu torço para que esse filme, que fala de solidariedade e de aprender a escutar o outro, seja uma gota no oceano e que de algum modo contribua para um debate mais construtivo e menos polarizado sobre os destinos do país.

foto Bia-Lefevre

 

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