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por Alba Liberato

 

 

Assisto ao primeiro episódio televisivo de “O Senhor das Jornadas”. Um contentamento íntimo acompanha a justíssima homenagem à memória dos tempos na pessoa de Guido Araújo, o parceiro de longas datas. Naquela época de poder absolutista condenando à morte os que protestavam contra a mão armada que prendia e julgava em tribunais kafkianos, Guido chegava do exterior abrindo o horizonte largo da comunicação! Exatamente da comunicação, quando uma lei promulgava ser crime de traição três pessoas juntas, considerada ali uma reunião política contra o regime, afrontando na sociedade tão catolicamente correta a máxima cristã na palavra de Jesus: onde estiverem dois ou mais reunidos em meu nome, aí estarei eu no meio delas!

Que coragem, que força trazia Guido de suas andanças, se deparando com regimes totalitários que definiam seu próximo destino. Uma delas sabemos: sua doce e inabalável Mila, âncora de suas ousadias. E muito antes que nos déssemos conta da extensão dos nossos males, que redundariam em 20 anos de ditadura, o poder e o sentido da comunicação o animava com um riso que nos contagiou desde o primeiro instante! Guido arauto da comunicação em seu potencial máximo transformador, chega às consciências tímidas daqueles jovens que queriam fazer cinema com dignidade e respeito à experiência individual e coletiva que vivíamos. O cinema como linguagem consolidada na visão dos grandes mestres, as palestras de luminares do pensamento da época, ou simplesmente a convivência com os convidados por uns dias, era um mergulho na expressão humana contraposta à barbárie. Eu e Chico nos encontrando com nossos pares protegidos do absurdo político que sufocava a todos no território “neutro” do ICBA, confiantes em driblar a censura para continuarmos pensantes e atuantes, éramos a freguesia da Jornada de Cinema da Bahia. E dela ficava o rastro por onde nasciam vocações, novos debates, obras de protesto, todo um novo ano promissor de atividade intelectual. Nosso ano se iniciava no mês de setembro, com a alvorada anunciada pela Jornada, é o que vejo agora.

Falar nesse tom dramático soa como sombra sobre um acontecimento que se implanta numa época vivida por nossa recuada juventude. Mas aquilo tudo era luz, e nos acompanhou pela maturidade fazem algumas décadas, representando grandeza que destaca nosso passado. “O Senhor das Jornadas” mostra que o sucedido foi muito mais do que se pode rememorar agora, quando celebramos que a Jornada tenha tido eletricidade para polarizar discussões por onde passaram tantas articulações que preservaram e estimularam na linguagem audiovisual o grau de liberdade que temos hoje no Brasil. É uma forma de manter em pauta aquela história para as novas gerações. Em época de espanto a respeito de nossas perspectivas sócio-políticas visando o Brasil que sonhamos quando a Jornada se fundava, é preciso circundar os acontecimentos históricos com a atmosfera que os motivava no interior das mentes e corações para que não percamos a esperança. E isso “O Senhor das Jornadas” está fazendo de uma maneira honesta e encantadora. Que prossiga assim nos próximos episódios, as sementes precisam continuar sendo plantadas.

 

Em 07/07/2017

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