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Rinoceronte

 

 

Um rinoceronte anda pela cidade, pela maldita cidade, pela atroz cidade… Ele vagueia com sua couraça esculachada por mil flechas, com marcas de pontapés por todo o corpo. A ponta de um dos seus chifres está quebrada e seu nome é Ariosto, que significa “o nobre”.

Ele usa as sobras do que já foi um terno de linho, roto e encardido, agora quase um farrapo, sem gravata, sem botões, mas com uma certa dignidade que, bem se sabe, possui um terno de linho legítimo. Usa chapéu panamá, este impecável, e carrega um pequeno embrulho de papel pardo, lhe dado por sua mãe antes de morrer, que nunca abriu e leva com todo o cuidado do mundo, muito bem acomodado entre as frestas de sua armadura natural. Os dois objetos invariavelmente são defendidos com toda a veemência das lanças e baionetas da ignorância e da incompreensão da maldita cidade, feroz cidade…

Somente por ser um rinoceronte, um paquiderme gigante, um animal africano, um “quase dinossauro”, os humanos destas selvas sul equatorianas não lhe absorvem totalmente e, por isso, às vezes ele para, na função de pensar, e se magoa. Mas isso somente acontece por um breve momento, um lampejo de segundo, só para contrariar quem pensa que a fera não pensa.

Ele é bruto sim, suas fortes passadas afirmam isso ao triturarem pedregulhos menores que estão em sua rota e deixarem com seus cascos quase indestrutíveis pequenas rachaduras sobre os velhos paralelepípedos da cidade fortaleza, mas, eis que se depara com uma pedra em seu caminho… Uma pedra imensa, colossal, diferente de todas as outras com as quais ele cruzara até então, que lhe impedia de continuar. Agora, veja bem que o rinoceronte, mesmo estropiado por pontiagudos dardos, por adagas, punhais e chutes esforçados, muitos aplicados com pesadas botas e coturnos de bico de ferro, nunca se queixou e nunca parou de seguir em frente, a não ser para descansar por ágeis momentos, que lhe serviam para beber água, às vezes potável quando vinha de torneiras de habitações abandonadas, às vezes não, oriundas das antiquíssimas fontes dos tempos de vila rica do que hoje é este museu carcomido a céu aberto, e, é claro, também comer um pouco daquilo que lhe faz manter o coração pulsando, gramíneas em geral. Também lhe servia esta pausa semicolcheia para respirar o oxigênio misturado com os outros gases que fazem parte do ar da maldita cidade, fugaz cidade…

Mas, de volta à imensa pedra que se interpõe em frente ao horizonte do rinoceronte, bem defronte de sua fronte, nota-se que é coberta de espinhos brilhantes, cristais quase translúcidos que, refletindo intensamente a luz, agridem os olhos antes mesmo de agredirem a carne quando tocados. Sua altura e imponência são as de um gigante e nela estão os corpos cravados de quem antes tentou ir além daquele ponto. Ela bloqueia a passagem por um desfiladeiro de edifícios sem reboco e ex-janelas, vedadas por tijolos aparentes com pequenas frestas, que convidam a imaginação a elaborar a existência de espiões do outro lado, escondidos nas sombras de um mundo alheio à rua. Protegendo os arranha-céus, ou talvez a quem está do lado de fora destes, há um gradil de ferro emaranhado com no mínimo dez polegadas, intransponível, talvez copiado das portas do inferno para que de lá os demônios não escapem.

Ariosto novamente para, mas pela primeira vez por não saber o que fazer, por não saber como ir ao encontro de seu destino. Tira o chapéu para aliviar o calor e senta-se na calçada com dificuldade, pois as articulações estão endurecidas, uma vez que há muito tempo se mantém de pé, por dias, ou talvez meses, não se lembra bem… E ele mira a pedra fixamente. Naquele momento sua visão turva é aguçada pela presença de um pequeno pombo pousado no alto do imenso monólito, equilibrando-se com leveza sobre a ponta de um dos cristais espinhosos. O grande Rhinoceros sondaicus então relaxa os músculos e se deixa levar pelo encantamento daquela imagem. Ele não se lembra da última vez em que encontrou uma criatura de Deus, apesar dos humanos daqui reivindicarem uma descendência em linha direta com o criador supremo, e ele sonha em ter asas… O pombo voa para além da pedra e o rinoceronte encobre o projeto de sorriso que começava a se desenhar em sua rústica carantonha, voltando a se concentrar em seu próprio problema: como passar pela pedra?

Talvez voltar, contornar, rodear… Mas, qualquer movimento com essa intenção significaria novamente enfrentar a intolerância dos humanos da parte habitável da cidade, maldita cidade, incapaz cidade… Ele então cerra os punhos, franze a testa e trava os dentes. Oh, céus! Parece que ele irá tentar! Mas, não é possível sequer imaginar a existência de qualquer possibilidade de êxito indo de encontro à pedra. Que pensa ele? Que poderá simplesmente trespassar, como um fantasma, a enormidade que lhe barra o almejado objetivo?

Ariosto não pensa… Não nessa hora. Toma a distância de umas cem braças do obstáculo, mas antes tem o cuidado de tirar o chapéu e o pequeno embrulho de papel pardo, colocando-os no chão, e em seguida corre… O deslocamento do ar levanta a poeira e logo há uma nuvem de terra densa seguindo o rinoceronte, como se as partículas de dióxido de silício daquele mundo semi devastado também se rebelassem contra a monstruosidade em forma de rocha que se posta absoluta na boca do desfiladeiro. O terno de linho se arrebenta em mais alguns buracos com o trabalho dos músculos da fera e a gravata perde-se em meio à alucinada disparada. Tudo é muito rápido, mas no momento da colisão, no exato instante em que tese e antítese estão para se encontrar, o tempo parece se tornar pegajoso, ganhando consistência física, sendo quase possível tocá-lo e mesmo recortá-lo em um milhão de pedacinhos…

Os milésimos de segundo passam tão devagar que se pode ver com clareza o chifre ebúrneo, já avariado, destroçar-se em mais três partes no seu encontro com a pedra, também cristais pontiagudos, os que não ficaram presos na couraça do pesado animal, voarem até sumirem de vista, enquanto um som gravíssimo, como se algo no útero da terra começasse a se mover querendo sair de dentro das suas entranhas, aos poucos preenchesse o vazio, transformando a platitude do quase silêncio até então reinante em um estrondo contínuo e ensurdecedor, cuja vibração faz também craquelar as paredes dos podres edifícios em seu entorno. Em seguida… A escuridão…

Não se vê mais nada sob o nevoeiro insalubre que mistura os elementos presentes naquela conjunção e por um momento parece se estar a pairar no espaço, bem além da atmosfera terrestre, presenciando a morte de uma estrela, num segmento de tempo em que a luz já se perdeu na anti-matéria. Mas, aos poucos, o turvo se dissipa e novamente o silêncio assume o controle, absoluto e em toda a sua agonia. Vê-se então a fera caída aos pés do monstro, desacordada, inerte, indefesa pela primeira vez em sua vida. Daquela forma até parece também uma pedra como a pedra, que resiste inabalável e ereta, à sua frente. Quem sabe esta um dia também fora uma fera e tornara-se fóssil durante o paleolítico? Cadáver arqueológico que outrora teria pulsado sobre a superfície da pangea ou nas profundezas do mar?

Mas, eis que abrem-se os olhos, ainda doloridos, ainda enxergando os seres e cenários do outro lado da consciência, do mundo dos sonhos onde estava, possivelmente a caminhar entre golpes de sabre e de outras lâminas e porretes, como sempre fizera. Mas, enquanto as cores da realidade voltam devagar, Ariosto aos poucos se dá conta de que há algo errado com seu campo de visão. Com cuidado, leva a pata ao lado esquerdo de seu canzarrão e nota com certo desânimo que o que temia acontecera de fato. Um dos cristais pontiagudos ainda estava encravado, tendo-lhe cegado parcialmente. A fera não tremeu, não se desesperou, somente percebeu que teria que adaptar-se à nova condição de combate, caolho e deschifrado.

E a pedra? Após retirar o cristal preso em seu Iris e despedaçá-lo entre os dedos, o rinoceronte se levanta como uma montanha, põe o chapéu panamá na cabeça e o embrulho pardo de volta ao local entre os couros que lhe revestem, concentrando então sua atenção novamente no inimigo e agora sim, com decepção visível, percebe que ele está… intacto. Mas… Como pode? Depois daquele golpe?

O ciclope cerra os punhos mais uma vez, tomado de ira como nunca antes, e logo em seguida reúne toda a dor acumulada, que guardara imóvel durante a sua existência miserável, espremendo do centro de seu corpanzil um grito até então adormecido, pura e genuína raiva sonora, um berro rouco e aterrador lançado em direção à rocha imóvel.

O trovão ainda permanece ecoando por alguns segundos e o animal, já serenado, apenas observa… O que será aquilo? Não é possível! Uma pequena rachadura brotando da barriga do monstro e se espalhando para todos os lados?

A pedra então protagoniza o improvável e se quebra, abrindo caminho para o andar pesado da besta, que pela primeira vez brilha de contentamento. Ele acelera o passo enquanto a rocha ainda rui de desgosto, derrotada depois de uma eternidade de vitórias sobre seus adversários, desmoronada a sua sombra dando lugar à luz quente do sol se pondo atrás do horizonte. Ariosto, preenchido de êxtase, então resolve finalmente abrir o embrulho que carregou com tanto cuidado em sua couraça durante os últimos anos, desde que iniciara sua rumada em frente. Mesmo ansioso retira o papel com paciência, dobra por dobra, e descobre uma pequena caixinha de madeira escura, sobre ela a inscrição “Não existe um caminho para a bem aventurança, a bem aventurança é o caminho”. Ele levanta a tampa trabalhada em baixo relevo com flores e borboletas e pela primeira vez escuta o tilintar de uma mágica muito antiga chamada música. Ele por fim sorri largamente, o que lhe causa dor nos músculos que sustentam sua bocarra, e segue em direção ao futuro pela planície sem edifícios, sem humanos, sem inimigos, sem cidade, maldita cidade, infeliz cidade…

 

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