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chico

Chico Diaz:

Antes de mais nada, é importante ressaltar a admiração antiga que tenho pelo Rosemberg e por sua trajetória. A preocupação em dar visibilidade a seu povo em suas diversas manifestações, os anos de pesquisa, de observação e atenção legitimam seu argumento mais profundo e lhe deram olho e diagnóstico para o que realmente interessa. O diálogo, a confiança e a ausência total de vaidade fazem dele um maestro integrador e acessível, plenamente imbuído de seu tema. Isso imprime. O fato também de ser livre do mercado, de imposições estéticas, de opiniões e posturas lhe possibilita fazer um cinema também livre. Livre, poético e humanamente politico. Poder trabalhar em um ambiente autoral e regional é um privilégio, ainda mais nos dias que correm, onde a voz única de mercado e de superfície condenam qualquer voz dissonante. Poder trabalhar em um tema que versa sobre a condição do artista, ambientado em um pequeno circo onde glória, amor, poder e arte se misturam é uma sorte. Poder trabalhar em família é uma bênção. A minha, a do Rosemberg, a do circo. Devemos muito à família circense reunida.  Os procedimentos de construção de Lazzarino/Pororoca/Cão Gasolina foram naturais. Hoje em dia, naturais. Sempre com atenção ao tema, ao roteiro e ao universo, além de pesquisa e busca de referências, muitas apontadas por Rosemberg. Exemplos entre amigos palhaços e a dor de cada um, e definição dos melhores caminhos e do potencial de cada cena. Ouvido atento à musica e vontade de dançar.  Mas o mais rico mesmo foi o desafio do novo a cada dia. A improvisação e o risco. Apesar de haver um ideia geral no roteiro, Rosemberg vinha com nova ideias reescritas ou mesmo criadas na hora, o que nos exigia um “presta atenção” constante, o que enriqueceu demais os personagens deixando-os ainda mais vivos. Foi assim como se, de repente, participássemos de um repente, um desafio, um canto dramatúrgico audiovisual. Viva o Gran Circo Teatro Americano!!!

 

silvia

Sílvia Buarque:

O convite do Rosemberg me surpreendeu muito porque, apesar de eu, graças a Deus, não ser uma atriz de um personagem só, nunca fui convidada para fazer uma artista de circo arretada. Eu tinha vindo da “Dina” do Gonzaga, uma mulher amorosa e doce, e eis que tive que achar dentro de mim dados para fazer uma mulher vulgar, mãe displicente, meio mau humorada e de caráter duvidoso.  Passado o susto, meti as caras. Como eu havia tido um encontro muito feliz com o Sergio Pena na preparação dos atores para Gonzaga, eu o procurei, e tivemos dois ou três encontros extra oficiais. O Pena é muito delicado e me aproximou afetivamente da Creuza, ajudou-me a ter carinho por ela. Trabalhei por aí: pelo afeto e até pela compaixão mesmo, no fundo, a Creuza é uma mulher carente e infeliz. Também ralei no sotaque, não havia necessidade de ela ser cearense, mas eu queria um sotaque nordestino, que ela tivesse uma vivência na região. O falso espanhol dela foi ideia do Chico, que, quando me viu falando portunhol na Colômbia, ficou pasmo com a minha cara de pau. Mas a Creuza tomou corpo mesmo quando começamos a rodar o filme e o Rosemberg foi me conduzindo com a sabedoria dos mestres, que nos conduzem entendendo e ouvindo quem somos e o que pensamos. Eu costumo trabalhar mais no teatro, e a nossa experiência foi muito próxima à do teatro no sentido de parceria e amor. É claro que um mês no set, convivência diária, conversas, improvisações, tudo isso foi fundamental pra essa comunhão. Foi a experiência mais rica na minha vida profissional no cinema, acrescida da grande alegria de ter marido e filha por perto. Foi um mês deslumbrante!

 

everaldo

Everaldo Pontes:

O que é uma encenação fílmica? A de Rosemberg forja uma ressignificação da tradição para estruturar questões e compor filmes-sermões de um mundo-sertão. Personagens indiferentes à sinceridade convencional das narrativas sedutoras. Composição imagética única no cinema brasileiro hoje. Antes de tudo, inquietos e ansiosos, nós atores, por saber como fica, aqueles seres não destinados a nada, em meio às cinzas do Gran Circo Teatro Americano, personagens que alcançam suas esperanças e mortes pelo caminho do erro. “Os Pobres Diabos” e sua escrita-processo de criação no corpo a corpo do diretor-ator gerou o inesperado. Mais um capítulo da instigante trajetória de um obstinado cineasta em revelar sua experiência política, sensorial, sensual e afetiva com a arte: Reger relâmpagos, incêndios, comitivas governamentais, transparências intraduzíveis, músicas da luz, alegorias mitológicas e a força da imperfeição.  Bresson dizia que filmar é ir a um encontro…

 

gero

Gero Camilo:

Fiquei muito contente em voltar ao Ceará para filmar “Os Pobres Diabos”. O Ceará é o lugar de onde eu vim, onde eu nasci, e esta foi uma oportunidade que tive de fazer o primeiro longa-metragem na minha terra. Foi uma surpresa quando recebi o roteiro. Primeiro porque achei o roteiro primoroso e porque a gente pode vivenciar um processo criativo muito rico. Fiquei contente não apenas pela dramaturgia, mas porque envolvia muitas artes: o circo, a música, o teatro, a performance, o cinema. Então era possível compartilhar experiências e criações um dia com trapezista, noutro dia com palhaços, malabaristas e atores. Um grande encontro. Essa mistura é muito poética e, ao mesmo tempo, acontece no dia a dia, na vivência do povo, na arte popular e na possibilidade que temos de abraçar tudo em um lugar mágico que é o circo. No filme, eu faço um personagem que se chama Zeferino. Ele é um dos integrantes do circo, um dos artistas da companhia, e é casado com Creuza, vivida por Silvia Buarque, uma cantora de rumba que não o ama muito. Ele cuida muito bem de Isaura (representada pela atriz mirim Letícia Perna), filha de Creuza, uma morena muito bonita e talentosa, como se fosse sua própria filha. Tem também a cabra Genoveva, que é uma espécie de membro da família e ajuda com seu leite na sobrevivência diária. O Zeferino é um cara muito sensível, é músico e ator também e, na peça teatral que o circo apresenta, faz o papel de Lúcifer, quando o inferno é invadido pelo bandido “Lamparina”. Zezita Matos faz Luciferina, a minha esposa. Nós compomos um casal de diabinhos que contam juntos com os outros, com Lampião, Maria Bonita e Cão Gasolina, a história popular inspirada na literatura de cordel.    O elenco veio do Ceará, Paraíba, Maranhão, Rio de Janeiro… De muitos lugares, com muitos sotaques, e chegou com uma grande disposição para o desconhecido, no sentido da entrega cultural e artística. É essa a alquimia que o cinema faz com a gente, essa bruxaria, essa mistura de temperos que nós temos que colocar dentro do filme para ele ter cheiro, ter sabor, alimentar o nosso paladar, a nossa alma. Então é importante juntar tudo isso. Por um lado, o nosso elenco de atores do cinema e do teatro, por outro lado os artistas populares e circenses, cada um trazendo as suas experiências. Rosemberg foi reinventando o roteiro, durante o processo de filmagem, e nos incentivou a participar do processo de criação, possibilitando a improvisação. Foi aí que tudo aconteceu e ajudou no tempero do filme. Filmamos na cidade de Aracati e a palavra Aracati, em língua indígena, significa “bons ventos”. Estes bons ventos sopraram em direção ao filme.

 

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Zezita Matos:

“Mire e veja”, mais uma vez, o Ceará me convocou, desta feita, foi uma chamada de Rosemberg Cariry para ir ao Aracati. Lá vou eu e, na travessia, em alguns momentos, pensava em Iguatu, onde filmamos “O Céu de Suely”, sob o comando de Karim Aïnouz. Logo em seguida, me vem a imagem bucólica e “fantasmagórica” de Cococi, onde junto com Petrus Cariry realizamos “Mãe e Filha”. Agora surge o Aracati com sua famosa e relaxante brisa na boca da noite, para mais um desafio capitaneado por Rosemberg Cariry. Uma experiência gratificante onde o coletivo de atores era desafiado a cada instante nas construções das cenas, cujo foco central exigia uma imersão no mundo fantasioso e mágico dos cordéis nordestinos, mesclados com os problemas e dificuldades de uma trupe circense com seus “nós” pessoais, econômicos e sociais, buscando sobreviver. Para mim, o processo foi enriquecido e acalentado pelas “memórias” dos circos que povoaram a minha infância, além da solidariedade do elenco e da equipe. Valeu, Rosemberg, você e suas “miradas” cuidadosas e instigadoras tendo como resultado “Os Pobres Diabos”.

 

sonia

Sâmia Bittencourt:

“Os Pobres Diabos”, filme de grande desafio do cineasta Rosemberg Cariry por ter o teatro, o circo e o cinema comungando da mesma obra. O processo da peça teve início dois meses antes de começarmos as filmagens, e o elenco tinha ciência de que, na hora de transpor o teatro para a câmera, muito do que fora encontrado ali como material de cena seria colocado de lado ou aproveitado de outras formas. Meio Quilo, meu personagem. Fazer uma figura masculina já era o próprio desafio. E o vejo meio Diadorim, meio Jovita Feitosa, meio homem sem ser.  Em janeiro deste ano, começaram os encontros, o elenco se conheceu, e ensaiamos a peça para ver o que se aproveitaria do processo anterior e de encontrar uma forma de repassar esse processo feito com outros atores para o elenco do filme. Desafios a fio. Rosemberg foi o último a ver o que estava sendo aprontado. E com seu jeito sutil, de conversas de pé de orelha, de pequenos encontros e leitura do texto à beira da piscina, o elenco foi se afinando. Cinema é uma caixinha de surpresas, e Rosemberg nos surpreendia, a cada dia, com novas falas, novas cenas escritas na madrugada, novos direcionamentos. Uma vivência maravilhosa, pois Rosemberg vai sentindo as cenas, inventando e reinventando e nos desafiando e nos envolvendo na trama que, na altura do campeonato, já ganhara outros rumos, outra cara. O meu maior aprendizado como atriz foi estar no meio de um elenco forte, potente e generoso. Estar como parelha de Chico Diaz era estar como aprendiz dessa arte do olho, da fotografia, do não teatro teatrado, do respirar a ação e o momento da representação. Encantamento.

 

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Nanego Lira:

Para um ator, um set de filmagens e as coxias de um teatro são espaços estimulantes, de muita vida! Espaços que concentram as diferentes elaborações de atores e atrizes que compõem uma determinada obra − os trabalhos individuais se misturam e tornam-se um só, traduzidos num filme, ou num espetáculo… Estar envolvido com “Os Pobres Diabos” teve um gosto especial para mim, pela convivência com profissionais experientes e de talento muito especial. Trazer para esse universo o Seu Nicolau foi como buscar em minha historia, em minha memória, os homens simples, focados, de personalidade forte que conheci em minha trajetória.  Seu Nicolau, um eletricista, o único da cidade, preciso em seu trabalho, cercado de uma vida simples, que vive, no recorte dado pelo filme, a experiência de ser surpreendido com a sua mulher nos braços de outro homem. Traduzir esse evento em sintonia com a personalidade ensimesmada do personagem, revelando sua condição única é a busca e o desafio estimulante da interpretação. Construí, junto com as indicações de Rosemberg, os aspectos que compõem esse homem simples, que vive com sua família em lugar esquecido do mundo. Um homem que, de maneira muito própria, com atitudes corriqueiras, resolve coisas que, para outros, seriam mais dramáticas. Simples e preciso é o seu fazer no dia a dia, simples e precisa foi a forma como encarou a sua vida com sua mulher, seu filho, sua bicicleta e suas ferramentas.

 

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Georgina Castro:

Quando Bárbara Cariry me ligou convidando para esse trabalho, duas coisas me tentaram a aceitar logo de cara: filmar de novo na minha terra e ser dirigida pelo Rosemberg. Moro há oito anos em São Paulo e, nesse meio tempo, voltei algumas vezes ao Ceará com trabalhos de teatro, mas cinema não. Desde “O Céu de Suely”, eu nunca mais tinha tido oportunidade de voltar a filmar lá, estava com sede disso. E trabalhar com o Rosemberg era uma vontade antiga, desde o inicio da minha carreira, em Fortaleza, ouvi o nome dele. A história de Rosemberg e suas obras me acompanharam, são referências.  Cheguei a Aracati na penúltima semana, ou seja, na reta final das filmagens. Toda equipe já estava em um ritmo intenso e caminhando para a despedida do set, enquanto, para mim, estava começando… Mas me senti totalmente acolhida pelo elenco e pela equipe. Eu e Nanego Lira, que interpreta meu marido Nicolau, nos encontrávamos para ler e conversar sobre o roteiro, tentando encontrar o tom, a relação dos personagens. Como eu não tive muito tempo para preparação, foquei a construção da minha personagem nessas relações. Como era a relação com o marido, com o filho e, principalmente, com o circo. Lindalva faz paz parte do núcleo antagonista, é uma força opositora. Mas tudo isso pincelado com doses de humor. Me diverti muito com as cenas.  Tínhamos um clima agradável no set. O improviso, creio eu, foi o ponto alto. Rosemberg nos deixava muito livres para criar, e isso, para mim, foi ótimo, pois sou uma atriz que precisa dessa liberdade, adoro improvisar, descobrir nuanças na desconstrução. E o Rosemberg nos deu esse espaço com muita generosidade. Tive pouco tempo para ensaiar com ele, fomos nos descobrindo enquanto diretor/atriz, já filmando. E nossa sintonia foi imediata. Nas primeiras tomadas, um já sabia o que o outro queria. Foi incrível, e ficou aquele gosto de quero mais.

 

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Reginaldo Batista Ferro:

Eu sou do Pará. Vivo dentro de um circo, viajando. Desde menino, aprendi vários ofícios. Hoje eu sou acróbata e sou conhecido, em minha apresentações, no Circo do seu Motoka, como o Falcão Negro. Jamais pensei que iria, um dia, trabalhar no cinema. Foi com surpresa que recebi o convite para fazer o filme “Os Pobres Diabos”. Fiquei alegre em poder trabalhar com uma pessoa como Rosemberg Cariry. Isso foi muito importante para a minha carreira profissional. A Bárbara Cariry também me incentivou bastante e me ajudou durante o processo de filmagem, ajudando-me a decorar os textos e a encenar. Ela me ensinava e incentivava, fazendo com que eu superasse as minhas dificuldades. Atuar ao lado de nomes como Silvia Buarque, Chico Diaz, Everaldo Pontes, e Gero Camilo foi para mim um privilégio. Minha primeira cena foi junto com o Chico Diaz, e eu fiquei acanhado no começo, mas ele foi bastante atencioso comigo e me ajudou a me soltar. Ele me disse que eu já era um profissional do circo, que não tivesse medo. Todos do elenco foram atenciosos comigo, e conseguimos nos entrosar, com muita amizade, o que terminou rendendo cenas bem bonitas. Tomara que esse meu primeiro trabalho no cinema não seja o último e que surjam logo novas oportunidades. Adorei fazer cinema.

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