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por Júlio Góes

 

 

Quando resolveu materializar a produção teatral Godó, o mensageiro do Vale, o ator Caco Monteiro o fez não apenas por questões afetivas, uma vez que durante anos pesquisou e se envolveu com o Vale do Paty, na Chapada Diamantina, mas, também, porque se impôs um desafio: escrever e interpretar um monólogo pela primeira vez em sua carreira de quase quatro décadas.

Para a sua felicidade e dos espectadores, “Godó” é uma peça que consegue comunicar aquilo que é um dos fundamentos do teatro, mas que nem sempre é alcançado: o espetáculo atinge um estágio avançado com a narrativa e seu desenvolvimento dramático.

A temporalidade da narrativa é estabelecida com empenho, contando um histórico de tempos que fundam a sua linha cronológica, começando de um modo mítico, “naquele tempo”, para situar o núcleo da história.

A direção do espetáculo é assinada pelo inglês John Mowat, um diretor que trafega pela linha do teatro físico e visual e que não fala uma palavra do português. Naturalmente que os ganhos de Caco Monteiro no uso do seu corpo são notáveis.

Sim, a peça “Godó” se vale do poder evocativo da narração poética, da intensidade da emoção, da capacidade do abismar-se, o que a leva a traçar uma trilha entre o reino da realidade sólida e o mundo das “sombras”, o qual inclui a representação teatral.

Porque, é justamente como essa visão lúcida que o paradoxo é oferecido no jogo teatral. E, Caco Monteiro, no caso, consegue materializá-lo sonora e visualmente por via de seus recursos interpretativos, sem perder o recato e a concentração.

Com muitos registros simultâneos, o público, sem questionar, aceita a promulgação de diferentes personagens em um só corpo no palco, uma convenção criada pela encenação. E o jogo logra transpor um limiar quase impossível para alcançar os símbolos que estão por trás das coisas.

Vale ressaltar que a iluminação precisa e poética de Jorginho de Carvalho, amparada pela cenografia de Daniela Steele e a ambientação musical de Leco Brasileiro são fatores que corroboram com a organização da linha dramática traçada por Mowat, o que garante um suporte mais refinado à performance de Caco Monteiro ao cantar o Vale do Paty, um local mágico, perdido no tempo e que agora, com “Godó”, se faz universal.

 

 

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