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caderno-de-cinema

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por Jorge Alfredo

 

Quando voltei da estadia carioca, no final de 1975, a Bahia estava em festa, em pleno clima de verão, e encontrei a minha família saudosa, os amigos animados;  a minha cabeça a mil por hora. A parceria musical com Antonio Risério se intensificou e começamos a compor intensamente. Íamos pro meu sitio, em Parafuso, passar uns dias, ou pra casa de Sylvinha Abreu, em Mar Grande… pra casa de Anamelinha e Tony Costa, na Boca do Rio… ou pra de Antonia e Herrera, em Pituaçu… pra fazenda de Robertinho e outras praias e tantas diversões criativas… Armandinho Macedo ainda estava no Rio de Janeiro e, na sua ausência, Tony foi ocupando um espaço importante na minha cabeça; sempre que eu terminava uma canção e lhe mostrava, ele ia fazendo arranjos lindos, com toques jazzísticos, e assim se deu a minha aproximação com A Banda do Companheiro Mágico.

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Taipoca / Mar Grande, janeiro 1976

No começo de janeiro de 76, me encontrei com Luciene Aguiar, e ela me convidou para passar uns dias  numa casa que ela tinha alugado na ilha de Itaparica. Era tudo que eu precisava naquele momento; dar um tempo, tocar, cantar, compor, respirar novos ares, conhecer gente nova.

E lá fomos nós, na lanchinha de Mar Grande, pra Taipoca; Vicente, Neuma, Chico e Luciene, que fazia questão de lembrar a todo momento que faltava uma amiga dela, Suki, que viria depois, e que eu iria adorar Suki e coisa e tal. A casa tinha um quarto e uma sala; nos acomodamos e ficamos naquela vida difícil da ilha, tocar violão, tomar banho de mar e jogar conversa fora… Como não tinha água encanada na casa tomávamos banho numa cisterna no quintal, de tardezinha. E com os olhos ainda cheios de sabão, me enxaguando com um balde d’ água, foi que eu vi Suki pela primeira vez.

Foi amor à primeira vista.

Nesses dias em Taipoca, eu e ela ficamos amigos e fazíamos, juntos, longas caminhadas, durante a maré baixa; eu cantarolava pra ela a capela, ela dançava, e lá íamos nós… dali dava pra se ver Salvador, majestosa – o que me encantava. Ela fazia pouco caso daquele visual, dizendo que era justamente disso que ela fugia, de concreto e mais concreto; ficava olhando os seixos, as algas, os grauçás fazendo trilhas na areia… Ainda bem que ela gostava de caminhar comigo e ficava me ouvindo cantar e tocar violão.

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Suki Villas Boas – foto de Pepeu Rodrigues

 

Ficamos em Taipoca um tempo. De volta a Salvador, começo a formar o repertório para o novo show que queria realizar ainda no verão. Sylvinha Abreu assumiu a produção e conseguiu marcar uma pauta no Auditório da Biblioteca Central, para fevereiro. A Bahia estava fervilhando de shows, as pautas dos principais teatros cheias de grandes atrações, então era preciso inovar se eu quisesse me apresentar ainda no verão de 1976.  Aí começaram os ensaios na Escola de Teatro. Inclui algumas musicas do Salve o Prazer, mas a maioria era tudo música nova. Uma safra boa; o baião Assim Preto, Brasa Branca, o fado Quando Nada, os rocks Flor do Dia  e Mudas de Tangerina, e os experimentais Ti Si Ma, Ver de Ver e Simão. Todas elas em parceria com Antonio Risério, sendo que em Simão Tony também é parceiro.

Armandinho Macedo estava tocando com Era Encarnação, ensaiando pro show Após Calipso, no Icba, com 4 músicas inéditas de Gilberto Gil, e também ainda bastante envolvido na gravação do LP do Trio Elétrico Dodô e Osmar, além disso estava tocando com Moraes Moreira, que havia deixado Os Novos Baianos.

Pra eu formar uma banda nova pra esse show, da banda anterior, eu mantive Ari Dias, na bateria, e Alberto Nascimento, na percussão, e acrescentei Tony Costa, nos arranjos e guitarras, Guilherme Maia, no  baixo e Zé Maria, no sax alto e nos teclados. O show se chamava simplesmente Jorge Alfredo. E pela primeira vez eu cantava sozinho um show inteiro.

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Essa experiência foi muito importante e me deu mais segurança em cima do palco. O resultado foi muito positivo; casa cheia, a banda numa performance maravilhosa, dava pra ser feliz…   Ainda conseguimos uma pauta no Teatro do Icba pra maio. Nesse intervalo de tempo, eu compus Estribilho dos céus em parceria com João Santana (Patinhas, do Grupo Bendegó) e também Daqui da Ilha, com Guilherme Maia, que incluí no repertório.

Em julho, numa viagem rapida que fiz ao Rio, zanzando pela Av. Nossa Senhora de Copacabana, compus Jeito de Viver – música e letra, que veio assim inteirinha, mandada “lá de cima”, como diz meu querido Riachão:

 

“Eu sei que em cada esquina alguém vacila como eu olhando as coisas e não entende nada

eu sinto o mesmo medo todo dia nas pessoas quando a rua tento atravessar

o rosto preocupado desse moço resmungando com a buzina sem poder voar…

meu coração não parou de dançar

agora toca a rumba, dança o frevo, canta o samba, o calipso e o chá-chá-chá

só merenga quem tem, só merengue me faz dançar

só merenga quem tem um jeito de viver!..”

 

Quando voltei pra Bahia, Anamelinha e Tony Costa estavam de mudança pro Rio, Antonio Risério e Mônica iam morar em São Paulo. Aí, me veio a idéia de fazer um show de voz e violão, com Suki dançando e Pepeu projetando slides e cuidando do cenário: – Vamos fazer uma excursão pelo Norte e Nordeste? A gente estréia em Salvador e depois cai na estrada até Belém do Pará; Jeito de Viver. Quem produz? Sylvinha Abreu, é claro!

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Jorge Alfredo – foto de Aristides Alves

O desafio era enorme! Sylvinha conseguiu patrocínio para imprimir mil cartazes e 3 mil folders, milhares de panfletos, compramos uma aparelhagem de som sob a orientação de João Américo, 2 microfones, Pepeu bolou um cenário que era um triângulo de metal desmontável, com um lisolene branco no centro onde eram projetadas as imagens, a gente só ficava dependendo de luz de palco, nos lugares onde chegasse. Sylvinha tomou emprestado da mãe dela um Corcel azul, quatro portas, colocamos um rack/bagageiro, compramos uma lona e cordas pra amarrar, conseguimos alguma grana que dava pra umas 2 semanas e pegamos a estrada. O mais interessante é que além de apresentar o show Jeito de Viver em tantas cidades, também fazia parte dos nossos planos visitar aldeias indígenas, conhecer cantadores e manifestações populares, enfim tinha um lado antropológico forte nessa viagem que acabou durando 3 meses. Fomos pelo interior e voltamos pelo litoral. Estreamos em Salvador, inaugurando o Teatro do Senac, no Pelourinho, depois seguimos pra Juazeiro, terra de João Gilberto, onde conhecemos Armando Almeida e Mauriçola, cantamos em Ouricuri/Pernambuco – uma parada estratégica – e a caminho de Belém do Pará, desviamos 200 kilometros em estrada de terra batida pra visitar os Guajajaras, em Barra do Corda/ Maranhão – por que depois da visita que fizemos aos Kariris de Mirandela, na fronteira de Alagoas, o desejo de conhecer uma tribo ainda isolada era enorme. Show em Belém, São Luiz, Fortaleza, Recife, mas também em Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, onde conhecemos o renomado cordelista Pedro Bandeira e fizemos a apresentação mais marcante para um público incrível, onde muitas crianças na hora do refrão de Jeito de Viver cantavam – “só merenda quem tem” – que até hoje “incorporo” quando canto.

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Levamos barraca de acampamento, e isso foi providencial numa certa ocasião, chegando no Pará, numa estrada totalmente deserta, onde o próximo posto de gasolina ficava a mais de 150 kilômetros adiante e chovia torrencialmente, trovejava e anoitecia. O sono e o cansaço já nos dominavam e não tínhamos a mínima condição de seguir viagem. Graças às habilidades de Pepeu, que levou até uma pequena enxada, e cavou uma espécie de rego arrodeando a tenda para que a água da chuva não invadisse e molhasse o interior, e longe das copas das árvores – “que atraiam raios” – conseguimos nos safar da tempestade. E mesmo assim, em certo momento nos abrigamos dentro do carro com medo dos raios que pareciam cair em cima das nossas cabeças – “mas os pneus eram isolantes” .  Momentos de tensão…

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Uma das músicas que compus com Pepeu Rodrigues, na estrada, reflete bem o espírito da nossa viagem e os novos caminhos poéticos e melódicos que eu perseguia;

 

“Penso que posso ficar toda a vida parado pensando nas plantas, pessoas piradas fazendo piadas com coisas que só eu sei

com medo, makuxi, comendo terena    juruna chegando, kricatis na estrada  freak-out, nani nere cohrau

(não há nada no meu lugar…)

se tudo o que eu faço ficou sendo claro eu vou botar minha cabeça num raio de sol

se eu morasse no mato, curupira chegasse montado num porco dizendo que a vida é um imenso cipó

nem sucuri, cascavel, escorpião, onça pintada – o que me assusta é ficar só!

pé no chão, pele queimada, sol do sertão, milho verde, maniçoba, macaxeira, cigana

enquanto ela toma um tacacá em plena praça em Belém do Pará…”

 

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O repertório de Jeito de Viver não era fixo, eu ia incorporando algumas novas musícas a depender do lugar e das circunstâncias. Acabei cantando uma música ainda inédita de Caetano Veloso – Um Índio – que só seria lançada meses depois na voz de Maria Bethânia. Passamos o Carnaval no Recife/Olinda e, quando retornamos pra Salvador, ainda fizemos uma outra temporada no Teatro do Icba.

Quando me encontrei com Gilberto Gil, tempo depois, ele comentou comigo que por onde ele passou na excursão do show Refazenda encontrou vestígios de Jeito de Viver;  alguns cartazes ainda nos muros, comentários ali e acolá… Ou seja, antes de ter um disco gravado, sequer uma música lançada por qualquer artista, eu havia saido de Salvador fazendo uma excursão pelo Norte e Nordeste. Nos apresentamos nos melhores teatros, demos entrevistas nas rádios e Tvs locais, entrevistas nos jornais, colávamos, nós mesmos, os cartazes nos muros das cidades. Hoje, eu fico pensando; que figuras!

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PS.  Pepeu Rodrigues faz algumas observações;
“Antes de Barra do Corda visitamos também uma aldeia no vale do Pindaré e depois fomos a “rua dos Índios” em porto Real do Colégio Al – um aldeamento Cariri urbano a nossa referência era o Handbook of South American Indians traduzido por Silvinha. Lembro também que gostamos muito do museu Emílio Goeldi onde encontramos o lendário cipó (hoje em dia sei que o nome dele é mariri) que findou por entrar na música – relato de viagem junto com as aparições do currupira – bons tempos aqueles – os slides projetados eram: da viagem que fizemos antes até Mirandela para visitar os Kiriris; do crescimento urbano de Salvador, em Belém incorporamos um ensaio fotográfico (o mesmo dos cartões postais) dos índios do Xingu e durante a viagem produzimos um outro ensaio sobre desmatamento (aquelas paisagens estranhas das queimadas do pará – maranhão) e sobre as árvores urbanas a grana não deu para incorporar todos mas a intenção foi muito boa estávamos alertas para o desmatamento e destruição das populações indígenas em 1976 acreditávamos que chamar atenção da sociedade sobre o genocida – ecocídio poderia deter ou retardar o processo de urbanização caótica. Hoje penso que fizemos a nossa parte – utilizamos bem a nossa juventude dedicando a uma boa causa.”
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                                                                           Jorge Alfredo em desenho de Renato Fonseca

4 Comentários...

  1. Bohumila Araujo disse:

    Gostei de ler sobre a entrada de Suki e de Sylvinha na vida de Jorge Alfredo. Pena não ter visto o Jeito de Viver.

  2. Lázaro Guimarães disse:

    Uma fase muito rica e bem brasileira da música, que precisa ser resgatada

  3. José Umberto disse:

    Assisti ao show “Jeito de viver” em Belém, por acaso. Viajava de bolsa à tiracolo conhecendo o Brasil: de lá fui de navio, pelo rio, pra Manaus, com uma rede, prato e copo de metal, e lendo “Maíra” de Darcy Ribeiro. Uma travessia contracultural solitária que traçava o perfil de uma geração em busca do encontro entre o Sol e a Sombra. Havia um índio em busca de Deus, que Gustavo Dahl filmara no nordeste de 1972. Entre umas e outras nós driblávamos a ditadura pelo caminho tortuoso do autoconhecimento. No final, dá tudo certo… por linhas tortas.

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