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Filme de Jorge Alfredo vai passear pelas mudanças culturais de Salvador no final da década de 50

 

por Marcos Uzel  

(Correio da Bahia, fevereiro de 2004)

 

Jorge Alfredo (“Samba Riachão”) prepara seu novo longa, “Avant-garde na Bahia”, que vai de 1956 a 1961, fase marcante no destino cultural do estado.

O cineasta carioca Paulo César Saraceni estava a caminho da Europa, viajando a bordo do navio Paraguai, quando decidiu fazer uma escala em Salvador durante dez dias. Era março de 1960. O então crítico de cinema Glauber Rocha foi o seu cicerone, apresentando o visitante aos amigos e revelando-lhe uma província que, na época, mesmo longe de ter a cara de uma metrópole, vivenciou a sua mais diversificada, criativa e vanguardista produção no campo das artes. Quase 45 anos depois, o sentido simbólico desse encontro entre Glauber e Saraceni serviu de gancho para que o cineasta baiano Jorge Alfredo escrevesse o roteiro do filme Avant-garde na Bahia, já em fase de pré-produção.

Baseado no livro homônimo de Antonio Risério, o novo longa-metragem de Alfredo – diretor do premiado documentário Samba Riachão – narra a fase de transformação experimentada por Salvador entre 1956 e 1961, período em que a cidade entrou em sintonia com a cultura modernista nacional e internacional sem perder a identidade. “A Bahia vinha de um isolamento profundo no contexto do desenvolvimento nacional, desde que deixou de ser a capital do país. Com a posse do reitor Edgard Santos, começou a ter acesso ao que havia de mais moderno no mundo, iniciando um processo de atualização histórica que marcaria profundamente o seu destino cultural”, empolga-se Jorge Alfredo.

Responsável por um vigoroso projeto para a então Universidade da Bahia, Edgard Santos abriu passagem para que circulassem por Salvador, dentro ou fora das salas de aula, nomes influentes em diversas áreas, do pernambucano Eros Martim Gonçalves, primeiro diretor da Escola de Teatro da Ufba, ao maestro alemão Hans Koellreuter. “Lembro de Edgard vestido de branco, mandando os jardineiros colocarem mais flores no Vale do Canela”, conta a atriz Nilda Spencer, que viveu o fervor cultural e a boemia da época, quando a Sorveteria Cubana estava na moda e a paquera rolava solta na badalada rua Chile.

Quem também guarda lembranças bonitas é a coreógrafa Lia Robatto, que era uma adolescente recém-chegada de São Paulo, descobrindo na Bahia a força das manifestações populares. “Desenvolvi em Salvador uma dança itinerante em espaços alternativos, em busca de outro tipo de narrativa e motivada pela socialização da arte contra a elitização nos teatros”, afirma Lia, que ficou fascinada tanto pela espontaneidade do Carnaval de rua quanto pelos elaborados experimentos musicais, dentro da universidade, de nomes como o mestre suíço Walter Smetak.

Cuíca e Floripes – Hoje com 53 anos, o cineasta Jorge Alfredo conta que naquele tempo era um rapazinho, transitando pelos corredores do Icba às voltas com o curso de alemão. Dentre as muitas recordações dos anos 60, ele cita as sessões no antigo Cine Guarani, onde muita gente ia ver o crítico e ensaísta Walter da Silveira (fundador do Clube de Cinema da Bahia) apresentar as películas nas manhãs de sábado. No longa Avant-garde na Bahia, o cineasta também pretende resgatar alguns personagens de rua que marcaram sua infância e juventude.

Não será surpresa se o espectador encontrar no telão Cuíca de Santo Amaro recitando seus cordéis na entrada do Elevador Lacerda. Ou se deparar com Floripes, o “Madame Satã” baiano, circulando pela Rua Chile e mexendo com a Mulher de Roxo. Ou, ainda, ouvir o som afro-baiano que o vento levava de um terreiro de candomblé para dentro da casa da coreógrafa polonesa Yanka Rudzka, na região hoje conhecida como Avenida Centenário. Fundadora da Escola de Dança da Ufba, surgida sob o viés da contemporaneidade, Yanka foi fundamental na aproximação entre a universidade e a produção cultural do povo negro, numa época em que era visível a ausência de tradição popular dentro dos muros acadêmicos.

Essa integração também se fez presente no terreiro de Mãe Senhora, freqüentado por artistas e intelectuais num tempo em que o candomblé era um brado de resistência à intolerância policial; nos estudos etnográficos de Pierre Verger; na literatura de Jorge Amado; na música de Dorival Caymmi e nas obras de artistas plásticos como Caribé, Mário Cravo e Rubem Valentim; no repertório cênico do diretor João Augusto, fundador da Sociedade Teatro dos Novos; e na atuação do professor português Agostinho da Silva, fundador do Centro de Estudos Afro-Orientais, que introduziu na universidade uma preocupação sistemática de conhecimento das culturas asiáticas e africanas.

“É excitante essa integração. A arquitetura de Lina Bo Bardi, por exemplo, é revolucionária porque via na colcha de retalho ou no pequeno candeeiro a transformação do artesanato em design, sem nenhum folclore”, destaca Jorge Alfredo. Consciente de que poderia fazer vários documentários com material tão farto, o cineasta adianta que seu filme – orçado em R$1,8 milhão – será uma história de ficção sem a preocupação de esgotar o tema: “Não vou contar minuciosamente o que foi a época, mas quero que ela esteja no corpo e na alma do filme”.

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Da realidade para a ficção

 

Em vez de dirigir mais um documentário, Jorge Alfredo preferiu investir, desta vez, numa história fictícia. Glauber Rocha e Paulo César Saraceni serão personagens-chave da trama, desnudando o que o diretor de Avant-garde na Bahia chama de transes verborrágicos, encontros inusitados e cenas imprevisíveis daquele ambiente provinciano.

“Tenho que ter pretensão e, ao mesmo tempo, humildade. Não possuo grana para fazer um filme de época, mas posso mostrar as coxias, as cores, as discussões que rolavam. Com um bom elenco – e eu estou pensando em um time da pesada – dá para fazer um filme maravilhoso”, entusiasma-se Alfredo, fazendo segredo dos nomes dos atores.

Sua animação é ainda maior quando cita a contribuição dada pela Bahia da época, também, como cenário para o novo cinema brasileiro. Personagens não faltaram. Frustrado com a chuva que adiou as filmagens de Vidas secas em Juazeiro, Nelson Pereira dos Santos foi parar naquela Salvador, onde Anselmo Duarte já fazia locações para O pagador de promessas e Glauber tirava Barravento do papel, dando os primeiros passos na produção de sua famosa obra.

Dentre os visitantes ilustres, desembarcava na capital baiana, nos meados da década de 60, o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, pisando, inclusive, na casa sagrada da mãe-de-santo Olga de Alaketu, no Matatu de Brotas. “Quando terminei de ler Avant-garde na Bahia, tive a mesma sensação descrita por Caetano Veloso na introdução do livro: vim entender quem eu era naquelas páginas”, sintetiza o cineasta.

 

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