caderno-de-cinema

Home » Artigos » Uma carta aberta para Jonas

 

 

Jonas,

Um dia você me convidou pra ir no seu quintal porque lá tinha um circo. Mas o que eu encontrei – em meio aqueles pedaços de lona, sob as folhas das mangueiras – foram os seus sonhos. E os meus sonhos. E os seus sonhos emaranhados nos meus. Nós, do nosso grupo. Você não sabia, Jonas, mas no seu quintal tinha cinema!

Aí você topou a aventura. A aventura era assim, lembra? Nós vamos ficar aqui, nesse lugar, por um tempo, com você. A gente vai filmar a sua vida. Só que a sua vida não vai ser mais a sua vida, pelo menos não essa que você conhece. Justamente porque nós estaremos aqui, né, filmando ela. A sua vida então vai ser a sua vida com a gente dentro. Era esse o pacto.

Parece óbvio, mas não é. Tem gente que gosta de filmar fazendo de conta que não está ali. Pra não interferir na realidade, sabe. Pra ser mais documentário? É claro que existem infinitas formas de se fazer um filme. Mas aí eu te pergunto, eu me pergunto: não é muita ficção achar que a gente pode filmar sem interferir na realidade?

Esses dias eu tenho falado com muita gente sobre o filme, sobre a gente, e isso tem me deixado especialmente nostálgica, com saudades daqueles dias no quintal. A gente passava dias inteiros sem filmar nada. E você ficava preocupado. A gente dizia: calma, estamos muito ocupados vivendo. A gente também sentia frio na barriga quando você tinha espetáculo. A gente sofria com o som tocando altão na casa da vizinha. A gente tomava bronca por sua causa na escola. Sua mãe e sua avó competiam sobre quem fazia o melhor feijão. A gente ria. Que prazer estar ali. Ás vezes, você se sentia só. Eu entendo. Por mais que tenha gente por perto, crescer é uma jornada que a gente atravessa sozinho.

Ás vezes eu ainda me pergunto, se você era o personagem do nosso filme, ou se nós éramos, os integrantes da sua trupe. Ás vezes eu ainda me pergunto, Jonas, se era você quem estava crescendo ou se éramos nós, voltando a ser criança. Ou se era tudo junto. Uma vez eu te disse: é como caminhar na corda bamba. A gente não sabe se vai conseguir se equilibrar na corda até o fim, mas a gente sabe que é na tentativa, que o filme acontece.  E aconteceu. E filmamos. E vivemos.

E como vivemos! Da world premiere no IDFA em Amsterdam, pro É Tudo Verdade, daí pro Festival de Toulouse, pra Espanha, pros Estados Unidos, pra Colômbia, pra Coreia do Sul, pra vinte cidades no Brasil. O quintal viajou. E o circo deixou de existir nele. Mas continua existindo onde tem que existir. Dentro de você, Jonas.

Eu já te disse obrigada de muitas formas. Essa é mais uma. Porque o cinema é enorme. O cinema é a própria vida. Mas a vida sempre vai ser maior que os filmes.

Com muito carinho,

Paulinha.

Paula Gomes, diretora de “Jonas e o circo sem lona”

6 Comentários...

  1. Rone disse:

    Não há dinheiro que pague essas experiências. A magia do cinema está mais ainda nos processos, nos laços e nas memórias. Parabéns a equipe, parabéns ao Jonas, o nosso cinema brasileiro ganha muito com a realização desses sonhos e nós ganhamos mais ainda, gerando novos sonhos.

  2. Rita Santana disse:

    Um filme adorável que toca em nossa essência. Jonas, o menino, é encantador! Paulinha e a sua equipe são delicados e muito focados na arte que fazem: tudo lindo na tela! Beijos, meus amores!

  3. Maria Do Rosário Caetano disse:

    NAO PERCAM ESTE FILME DELICADO E COMOVENTE. OS QUINTAIS RESISTEM NO IMAGINÁRIO DE MUITAS CRIANÇAS…

  4. Queridos Jonas e Paula,
    Essa história que vocês vivenciaram juntos continua em cada um de nós que vê o filme. O circo continua se armando, desarmando e armando de novo, pois o circo, o sonho e o cinema têm isso em comum: não acabam. E seguem no peito de cada um que deles compartilha.
    Um abraço fraterno
    Carlos

  5. Como não amar essa carta?
    Como não amar Jonas e aquele quintal ?

    A felicidade bem disse o poeta, assim como a satisfação, retaliações e os aprendizados, achamos é em horinhas de descuido

Deixe um comentário